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Caso Nº 030 — Arquivo aberto

O Regente

Ilustração do conto O Regente

Entro no palco vazio às dez da noite, sapatilha na mão, decidida a repetir a ária do segundo ato até acertar a nota que vem escapando há uma semana — e quando a luz de emergência acende sozinha no fundo da plateia, catalogo na hora como problema elétrico, porque teatro em reforma é basicamente um problema elétrico com cortina.

— Tem alguém aí?

Ninguém responde. Ótimo. Plateia vazia é a única que não me deixa nervosa.

Respiro. Começo a ária. Erro a nota. A mesma. No mesmo lugar. Uma semana errando no mesmo lugar — o corpo decora o erro com muito mais boa vontade do que decora o acerto.

E uma voz, vinda de cima e de trás, corrige, baixinho:

— Sustenido. Você canta bemol por hábito, não por partitura.

• • •

Congelo. Varro a plateia: fileiras vazias, camarotes fechados, cortina puída. Nada. E a voz não veio de longe — veio de perto, dessa distância exata de professor debruçado sobre o ombro.

— Quem tá aí?

Silêncio. E aqui está a confissão que explica tudo que veio depois: eu não fui embora. Eu testei o sustenido.

Saiu perfeito. Perfeito de um jeito que dez anos de conservatório nunca tinham me entregado, perfeito de arrepiar o próprio braço — e a voz disse, com uma satisfação morna, quase paternal:

— Assim. Agora você entendeu.

Qualquer pessoa sensata teria saído do teatro naquela noite.

Cantora não é pessoa sensata. Cantora é uma dívida ambulante com a própria voz, e alguém no escuro tinha acabado de me oferecer crédito.

• • •

Não conto pro produtor. Ele reabriu esse teatro empenhando o orçamento do ano e três anos de saúde, e "acho que tem alguém invisível me dando aula de canto" não é relatório que melhora relação com quem assina meu cachê. Além do quê — e essa é a parte que eu demorei pra admitir — eu não queria que ninguém soubesse.

Aula boa e de graça a gente esconde. Igual amante.

Volto todas as noites. Oficialmente, "ensaio extra". A voz corrige respiração, apoio, fraseado — tudo impecável, tudo entregue com uma paciência que nenhum professor humano teve comigo, sem pressa, sem cobrança, sem vaidade.

Eu devia ter estranhado a ausência de vaidade. Professor sem vaidade não existe. O que existe é professor cuja vaidade está guardada pra outra coisa.

— Você tem um talento raro — ele diz, uma noite. — Não desperdice com quem não sabe reconhecer.

Anotei como elogio. Era cláusula.

• • •

O Rafael chega na segunda semana. Barítono, contratado pro par do terceiro ato — bom sem ser brilhante, pontual, engraçado na medida que faz colega de trabalho ser suportável. Erramos juntos uma entrada no dueto, ele faz piada da própria nota, eu rio, ele ri.

Por um instante o teatro é só um teatro.

Naquela noite, depois que ele sai, a voz volta diferente. Dois graus mais fria.

— Ele atrapalha sua técnica. Você compensa a fraqueza dele.

— Ele tá aprendendo o papel, é normal errar—

— Você não errava assim comigo. — Pausa. — Você devia ensaiar sozinha.

— O dueto é a dois, não tem como—

— Eu ensino melhor sem interrupção.

Reparem no vocabulário, porque eu não reparei: não "ele canta mal", não "ele não serve". Interrupção. Pra voz, o Rafael não era um cantor ruim.

Era um ruído na sala de ensaio dela.

• • •

As partituras do Rafael aparecem rasgadas no camarim. Duas vezes. Ele atribui a estagiário relapso, depois a ciúme de elenco; o produtor concorda, porque produtor com orçamento estourado concorda com qualquer hipótese que não exija verba.

Eu sabia. Não falei.

Vou dizer da maneira mais simples, porque enfeitar seria mentir de novo: eu não falei porque a aula era boa. Porque a minha ária estava ficando de um jeito que eu ouvia de volta na gravação do ensaio e não acreditava que era eu. Porque em algum ponto das últimas semanas eu tinha aceitado, sem assinar nada, que aquele teatro tinha um dono, que o dono tinha me escolhido, e que gente escolhida não denuncia o benfeitor por vandalismo de papelaria.

Toda história de monstro tem um cúmplice de primeira hora.

Nessa, fui eu.

• • •

O Rafael me puxa num canto dos bastidores, sério.

— Você tem sentido alguma coisa aqui? Tipo... olhar. Direção errada de olhar. Plateia onde não devia ter plateia.

— Tipo o quê? — respondo, com a cara mais limpa do meu repertório, que é amplo, porque eu trabalho com palco.

— E tem o camarote interditado. Passei perto ontem e... — ele esfrega o braço, sem terminar. — Sei lá. Não passa perto de lá à noite. E para de ensaiar sozinha aqui, sério.

O camarote interditado é a única parte que ficou fora da reforma — estrutura antiga demais, "instável", lacrada com tábua e fita no andar que ninguém usa desde os anos setenta. O engenheiro não quis mexer. Engenheiro tem instinto que a gente subestima.

— Vou tomar cuidado — prometo.

Ele não aparece no ensaio seguinte. Nem no outro.

No terceiro dia, o produtor liga: celular fora de área, namorada em pânico, boletim de ocorrência aberto. Última vez que alguém viu o Rafael, ele saía do teatro. Tarde da noite.

— Você ficou até que horas naquele dia? — o produtor pergunta, sem segunda intenção nenhuma.

— Saí antes dele — respondo.

Era verdade. É a única coisa daquele mês inteiro em que eu fui inocente: o horário.

• • •

Volto ao teatro à noite. Sozinha. Não por coragem — por dívida.

— Cadê ele? — pergunto pro escuro, do meio do palco.

O silêncio se estica. Depois a voz responde, calma como sempre, e a calma é o pior instrumento dela:

— Ele não sabia respeitar o ensaio.

— O que você fez?

— O que sempre fiz com quem atrapalha. — Uma pausa quase pensativa. — Você entende. Arte de verdade não aceita interrupção. Eu passei a vida construindo esta casa para a música perfeita. Não vou permitir que um barítono mediano comprometa a sua.

— Você matou ele.

— Eu redirecionei. — Genuinamente ofendido, como se eu tivesse errado um termo técnico. — Para onde interrupção nenhuma incomoda mais. Ele está num excelente lugar, minha querida. Todos os meus estão. Sentados. Atentos. Silenciosos. — E então, mais baixo, com um carinho que me gelou mais que qualquer grito: — Você nunca teve uma plateia tão dedicada quanto a que eu montei pra você.

• • •

Corro pro camarote interditado. Arranco tábua com uma força que cantora não devia ter, ignorando farpa, ignorando a fita, ignorando o bom senso que já tinha pedido demissão semanas antes.

Lá dentro, entre poeira de meio século e veludo apodrecido: um corpo. Antigo. Mumificado pelo ar seco do espaço lacrado, de terno fora de moda há setenta anos, sentado na poltrona central do camarote com uma dignidade que nenhum esqueleto tem o direito de manter.

Nas mãos secas, uma batuta. Erguida. Congelada no meio exato do gesto de comando — um homem que morreu conduzindo uma orquestra que não estava mais lá.

— Este era eu — diz a voz. Atrás de mim. Dentro do camarote. Mais perto do que jamais esteve. — Morri regendo o ensaio geral da minha obra. O fogo levou a plateia, os músicos, a estreia. Todos fugiram. Todos. — A temperatura despenca; minha respiração vira vapor. — Eu fiquei. O maestro não abandona o fosso, minha querida. O maestro termina a peça.

— E o Rafael?

— Terceira fileira — responde, prestativo. — Boa acústica. Ele finalmente aprendeu a não interromper. Você vai ver: como plateia, ele é muito superior.

E a luz do palco, lá embaixo, acende sozinha.

Um círculo de luz no centro do palco vazio. Marcação de cena. Minha marcação — o lugar exato onde eu ensaiava todas as noites.

— Vamos do segundo ato — diz o Regente. — Do começo. Temos todo o tempo que a perfeição pedir.

• • •

A fuga não foi cena de filme. Preciso registrar isso, porque na memória ela tenta virar uma — a memória é vaidosa. Foi feia, lenta e paga em parcelas.

A porta do camarote fechou sozinha. Não bateu: fechou, com o clique educado de quem encerra uma negociação. Quebrei o pé da cadeira que usei pra forçar, quebrei duas unhas na fresta, e a porta só cedeu quando cedeu — e até hoje eu acho que ela não cedeu.

Acho que ele abriu. Pra me mostrar que podia.

Desci a escada do balcão no escuro, porque as luzes apagaram na ordem exata do meu trajeto, uma a uma, na minha frente — não atrás: na frente, sempre a próxima, me ensinando de quem era a casa. O corrimão gelava sob a minha mão, um frio ativo, com intenção. Em algum ponto entre o balcão e o foyer, o teatro inteiro começou a soar: não música — afinação. Uma orquestra invisível afinando os instrumentos, aquele caos organizado de fosso antes da récita, subindo de volume, e por cima dele a voz, sem pressa nenhuma, explicando:

— Fugir de mim é fugir da sua melhor versão. Pense na nota que você acertou na primeira noite. Eu tenho todas as outras.

A porta do foyer, trancada. A lateral do beco, emperrada. Chutei — três vezes, quatro — e no intervalo dos chutes a afinação lá dentro parou.

O silêncio que veio foi pior que a orquestra. Era o silêncio de sala de concerto um segundo antes da batuta descer.

A porta abriu no quinto chute. Caí no beco, no ar frio, no cheiro de lixo e cidade — e nunca uma cidade fedeu tão maravilhosamente.

Atrás de mim, da porta aberta, a voz chegou à rua uma última vez. Não gritou. Ele nunca gritou.

— Deixarei sua marcação iluminada.

A porta fechou sozinha. Suave. Sem pressa.

Reservando.

• • •

Cancelei o contrato alegando um problema de saúde vago o bastante pra não render perguntas — o teatro não descontou a multa, o que o produtor achou generosidade e eu achei recibo. Mudei de cidade em três meses.

O Rafael segue desaparecido. Sem corpo, sem pista, sem caso. A namorada dele ainda posta apelos, de tempos em tempos, e eu leio todos e não respondo nenhum, porque a única informação que eu tenho — terceira fileira, boa acústica — não cabe em inquérito nenhum deste mundo.

E há duas semanas uma amiga me mandou, sem saber o que mandava, a notícia da reabertura: montagem nova, elenco novo, soprano nova. Crítica excelente. Um jornalista, encantado, escreveu que a moça cantava "como se recebesse aula de um mestre invisível".

Pra qualquer leitor, floreio de crítico.

Pra mim, assinatura. E convite de estreia.

Não avisei a soprano. Não sei o nome dela, e mesmo que soubesse — o que eu diria? Eu, que sabia das partituras rasgadas e calei? Eu, que troquei a segurança de um colega por um sustenido?

Só canto no chuveiro agora. Baixinho. E mesmo assim, de vez em quando, no vapor, na acústica boa do azulejo, uma nota sai perfeita demais — redonda, apoiada, ensinada — e eu fecho a torneira na hora e fico em silêncio, pingando, com a certeza absurda e inegociável de que, a quatrocentos quilômetros daqui, num teatro reformado, alguém acabou de sorrir no escuro.

Ele disse que deixaria minha marcação iluminada.

Eu acredito. É isso que ninguém entende sobre o medo que eu carrego: não é de ele me achar.

É de uma noite, quem sabe num ensaio que não anda, numa nota que não sai, eu sentir saudade da aula —

— e voltar sozinha.

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