Vejo ela pela primeira vez numa sexta de março, no trecho reto da BR depois do posto Ipiranga, exatamente onde a estrada fica sem curva nenhuma por quase dez quilômetros — o tipo de trecho que a gente batiza mentalmente de "zona de sono" porque é ali que qualquer motorista cansado começa a negociar com o próprio cérebro sobre o que é real.
Só que dessa vez não é negociação. É fato consumado.
Figura alta, parada na faixa da direita, terno escuro de corte antigo, ombros largos — e nada em cima do pescoço. Não capuz, não sombra tapando o rosto, nem aquele item clássico de filme B que sempre some convenientemente na hora do close. Nada mesmo. Só a gola do terno fechando limpa onde devia ter cabeça, com um acabamento tão profissional que dava pra jurar que ela tinha ido numa alfaiataria específica pra esse detalhe.
Buzino, desvio pra faixa da esquerda, meu coração competindo com o motor em quem faz mais barulho e, arrisco dizer, ganhando de longe.
Passo por ela sem bater. No retrovisor, já não tem mais nada na pista — o que, convenhamos, é o tipo de desaparecimento instantâneo que nenhum manual de física de estrada catalogou até hoje.
Não conto pros outros motoristas no posto. Trinta anos de estrada ensinam a gente a filtrar o que compartilha em roda de café da manhã, e "vi um cara sem cabeça na 101" cai direto na categoria de comentário que rende apelido permanente, não solidariedade profissional.
Sexta seguinte, mesmo trecho, ela está lá de novo — porque aparentemente pontualidade também é característica de assombração, o que eu, sinceramente, não esperava dessa categoria de fenômeno.
Um pouco mais perto da faixa central dessa vez. Não muito — talvez um metro a mais do acostamento do que na semana anterior, distância pequena o suficiente pra eu duvidar da própria memória, grande o suficiente pra eu notar mesmo assim e comentar mentalmente que ela estava, tecnicamente, invadindo minha faixa de trabalho sem aviso prévio nem placa de sinalização.
Desvio de novo. Passo sem bater de novo.
Faço isso por seis semanas — vejo ela, desvio, sigo, não conto pra ninguém, e a cada sexta ela está um pouco mais perto do centro da pista, um pouco mais alta a postura, como quem se aproxima devagar de propósito, calculando exatamente quanto avançar sem me assustar rápido demais a ponto de eu mudar de rota antes da hora dela decidir.
Achei, ingenuamente, que estava lidando com fenômeno passivo. Só descobri depois que estava, na verdade, sendo gerenciado com a paciência de quem tem décadas de prática em não espantar a caça.
Na sétima semana, mudo de rota mesmo assim. Desvio trinta quilômetros mais cedo, pego a estrada velha que ninguém mais usa desde que asfaltaram a nova, só pra evitar aquele trecho reto — decisão estratégica de mestre, achei eu.
Ela está lá também. Parada bem no meio da estrada velha, esperando, como se soubesse que eu ia tentar exatamente essa fuga e já tivesse chegado ali antes de mim por algum atalho que eu, com certeza, nunca vou descobrir por mais que pesquise no aplicativo de trânsito.
Paro de tentar rotas alternativas depois disso. Não adianta fugir de coisa que sabe seu roteiro antes de você decidir mudar ele — nem GPS de última geração consegue essa proeza, e olha que já paguei caro por um.
Nona semana, ela está na faixa central, o carro passando de um lado, o caminhão do outro, e ela nem se mexe pros dois desviarem — só eu desvio, sempre eu, como se os outros veículos simplesmente não a registrassem em campo de visão nenhum, e eu tivesse sido escolhido, entre todos os motoristas daquela rodovia, pra receber atenção vitalícia e nada solicitada.
Décima semana eu não lembro de ter chegado no trecho reto.
Lembro de sair do posto Ipiranga, ligar o rádio, acender o primeiro cigarro da noite. Depois, nada — um vazio de tempo que eu só percebo existir quando "acordo" com o motor desligado, caminhão parado no acostamento, relógio marcando 3h da manhã e o hodômetro mostrando quarenta quilômetros a mais do que eu tinha rodado da última vez que conferi conscientemente, o que definitivamente não é o tipo de contabilidade que eu gosto de descobrir sozinho no escuro.
Fico sentado ali, mãos tremendo no volante, tentando reconstituir o que aconteceu naquele vazio, sem conseguir puxar imagem nenhuma de memória — só uma sensação, vaga e gelada, de ter conversado com alguém durante o trajeto que eu não lembro de ter feito, o que é uma frase que eu nunca imaginei precisar formular sobre a própria vida profissional.
Ligo o motor de novo. Sigo viagem, porque carga não espera crise existencial de motorista, e a transportadora definitivamente não aceita "avistei entidade sobrenatural" como justificativa de atraso na nota fiscal.
No espelho retrovisor, ajustando o ângulo pra conferir a pista atrás, vejo por um segundo — só um segundo, rápido demais pra eu confirmar com certeza total — que não estou sozinho na cabine.
No banco do carona, refletido no vidro do retrovisor mas não presente fisicamente quando eu olho direto pro assento, uma figura de terno escuro está sentada, ereta, as mãos cruzadas no colo, com a postura educada de quem espera ser servido de café e não tem pressa nenhuma de reclamar da demora.
Sem cabeça, claro. Isso a essa altura já nem chocava mais tanto quanto devia.
Chego no destino três horas depois, descarrego a carga com as mãos ainda tremendo, e decido, ali mesmo no pátio da transportadora, que não vou fazer mais aquela rota — decisão que qualquer seguro de vida decente teria aplaudido de pé se soubesse o motivo real.
Peço transferência. Aceitam sem perguntar muito, porque motorista trocando de linha depois de trinta anos levanta sobrancelha mas não gera investigação formal, ainda bem.
A nova rota é mais curta, mais movimentada, cheia de posto e cidade no meio do caminho — exatamente o tipo de trecho onde nada estranho tem espaço pra se manifestar sem plateia de testemunha involuntária.
Funciona por dois meses. Dois meses de paz que eu, em retrospecto, devia ter aproveitado com mais gratidão consciente.
Na décima semana da rota nova, presto atenção numa coisa que eu vinha ignorando desde a mudança: o retrovisor do carona precisa de ajuste toda santa vez que eu entro no caminhão, como se alguém tivesse mexido nele durante a noite, enquanto o veículo ficava estacionado no pátio — o que, considerando que ninguém mais tem chave daquele caminhão além de mim, é o tipo de detalhe que devia ter me feito pedir demissão na hora.
Ajusto de novo. Sigo viagem, porque aparentemente meu limite pra abandonar profissão é bem mais alto do que eu imaginava.
Numa parada de posto, saio pra tomar café, deixo o caminhão ligado com o ar-condicionado rodando pro cachorro-quente que trouxe de casa não estragar no calor — prioridade correta de vida, na minha opinião.
Volto dez minutos depois.
O banco do carona está com a marca de alguém sentado — o estofado afundado, quente ao toque, exatamente na forma de um corpo que passou tempo suficiente ali pra deixar impressão, o que definitivamente não é o tipo de manchinha que produto de limpeza automotiva resolve.
Não tem ninguém visível.
Mas o retrovisor, quando eu olho por reflexo, mostra o banco ocupado.
Sem cabeça. Mãos cruzadas no colo, esperando, com a paciência de quem já esperou trinta anos pra conseguir carona de verdade, não só passagem rápida por um trecho de estrada — e eu, aparentemente, virei o serviço de transporte executivo mais persistente da região sem nunca ter assinado contrato nenhum.
Não conto pra ninguém sobre isso também. Continuo dirigindo, porque é o único trabalho que eu sei fazer, e porque parar significaria admitir, em voz alta, pra empresa e pra família, uma coisa que nenhum atestado médico vai conseguir explicar de forma que mantenha meu emprego — e, convenhamos, "acompanhante sem cabeça recorrente" não é diagnóstico que INSS reconhece.
Mas mudei um hábito, desde aquele dia no posto: nunca mais olho pro banco do carona diretamente.
Só pelo retrovisor, de vez em quando, sem querer, no automático de quem checa espelho por reflexo de direção — e cada vez que isso acontece, ela está lá, um pouco mais perto do meu banco do que da última vez que confirmei, numa progressão tão constante que eu já podia, se quisesse, montar gráfico de aproximação e vender curso online sobre o assunto.
Sei que, uma dessas viagens, o retrovisor vai mostrar ela sentada exatamente ao meu lado.
E quando isso acontecer, acho que finalmente vou entender pra onde ela estava me levando esse tempo todo — o que, sendo justo, é mais explicação do que qualquer GPS comercial já me deu em trinta anos de estrada.



