📖 Novos contos de terror toda semana — grátis para ler
Caso Nº 001 — Arquivo aberto

O Portal de Pedra Negra

Ilustração do conto O Portal de Pedra Negra

A cidade que deixamos pra trás já cheirava a chuva velha antes mesmo de a primeira gota cair.

Foi assim que tudo começou pra mim: uma van de universidade enferrujada, três horas de estrada com o limpador de para-brisa fazendo aquele barulho de réquiem, e um professor que falava de estratigrafia como se isso fosse impedir alguém de morrer.

Meu nome não importa. Vou dizer só que eu tinha vinte e dois anos, cursava arqueologia porque gostava mais de coisas mortas do que de gente viva, e que aquela seria minha última expedição de campo.

Eu só não sabia disso ainda. Spoiler: a vida adora um cliffhanger barato.

• • •

A entrada da gruta ficava a quarenta minutos a pé da estrada, depois de um trecho de mata que parecia ter sido cortado por uma faca cega — vegetação rasgada, não cortada. O professor Aurélio chamou aquilo de "erosão natural por escoamento". Ninguém perguntou de novo. Em retrospecto, devíamos ter perguntado tudo.

Éramos doze. Eu, mais cinco colegas, dois guias e o professor com seus equipamentos de topografia que pareciam ter saído direto de 1987. A gruta tinha nome em algum mapa do IBGE, mas pra gente era só "a gruta do projeto" — parte de um levantamento sobre ocupação pré-colonial. Cerâmica, carvão, ossos de animal. Coisa de manual. Coisa segura.

A primeira câmara era um saguão de pedra calcária com teto alto, gotejando uma água que fazia eco como se a caverna respirasse. O professor dividiu a turma em duplas e trios, cada um marcando uma galeria diferente pra registro fotográfico. Eu fiquei com a Marina e o Thiago — os dois mais espertos do grupo, o que, em retrospecto, só tornou tudo mais cruel.

Foi a Marina que viu a abertura lateral, escondida atrás de uma cortina de estalactites finas como dedos.

— Isso não tava no mapa do professor — ela disse, com aquele tom de quem já sabe que vai entrar mesmo assim.

E entramos. Porque, claro. Porque sempre entramos.

• • •

A galeria nova descia em espiral, e o ar mudava de temperatura de um jeito que não deveria mudar — frio, depois quente, depois frio de novo, como se a caverna tivesse um pulso irregular.

Foi o Thiago que achou a porta.

Não uma porta de pedra. Uma porta de metal, encrustada na rocha como se a montanha tivesse crescido em volta dela há milênios. Sem maçaneta. Sem fechadura. Só um símbolo gravado na superfície — um círculo cortado por três linhas que não se cruzavam no centro, como se alguém tivesse desenhado errado de propósito.

— Isso aqui não é arqueologia — falou o Thiago.

— Não, Thiago. Isso aqui é a gente indo morrer pelo Instagram — eu disse, e ainda hoje me orgulho de ter feito piada um segundo antes do mundo decidir provar que eu tinha razão.

A porta vibrou. Não tremeu — vibrou, como um motor ligando longe debaixo da terra. E então ela simplesmente não estava mais lá. No lugar, um vão escuro, recortado no ar como se alguém tivesse rasgado uma fotografia da caverna e colado outra atrás. Do outro lado: um céu que não era céu, vermelho-acastanhado, sem sol, sem nuvens, só uma luz difusa vindo de lugar nenhum.

Marina gritou primeiro. Eu só consegui ficar olhando, porque o corpo tinha decidido que correr não fazia mais sentido num mundo onde portas faziam aquilo.

E foi então que duas coisas saíram do vão. Porque, claro. Uma nunca é suficiente.

• • •

Não vou tentar descrever direito o que eram. Já tentei, em outras versões dessa história, e toda vez fica errado — fica pequeno demais, ou bonito demais, ou só um monte de adjetivos que não chegam nem perto. Vou dizer só isto: a primeira tinha mais pernas do que devia, cada uma se movendo num ritmo diferente, como se o corpo não soubesse decidir se estava andando ou rastejando. A segunda era mais baixa, mais larga, e se movia rente ao chão como se a gravidade fosse uma sugestão que ela escolhia ignorar quando bem entendia.

O Thiago foi o primeiro a se mexer. Pra trás, não pra frente — o que pareceu certo até a primeira coisa se mover rápido demais pro tamanho que tinha, e o som que veio depois eu não vou descrever. Só digo que parou de ser um som de pessoa.

Foi nesse momento que o homem apareceu.

• • •

Eu não tinha notado ele entre os guias — magro, casaco surrado demais pra aquele calor, um chapéu que parecia ter sido comprado em outra década e nunca mais lavado. Ele segurava algo que parecia uma bússola, só que a agulha girava errado, contra o que qualquer física deveria permitir.

— Duas. Claro que são duas — ele disse, num tom cansado, quase entediado, como quem reclama do trânsito. — Sabe o que é pior que enfrentar um monstro? Enfrentar um monstro com plus one.

— Quem... — Marina começou.

— Pergunta depois. Se sobrar gente pra perguntar — ele respondeu, já tirando do casaco um pedaço de ferro torcido em formas que não pareciam ter sido fabricadas por máquina nenhuma.

A coisa de muitas pernas avançou primeiro, e ele não recuou um centímetro. Foi rápido — quase decepcionante de rápido, considerando o tamanho do bicho. Ele enfiou o ferro torcido bem no meio daquela superfície sem rosto, girou o pulso como quem tranca uma porta de carro velha, e a criatura simplesmente desligou. Caiu mole, as pernas dobrando todas pro lado errado, e ficou imóvel.

— Uma — ele falou, sem nenhum orgulho na voz. — Falta a chata.

A criatura baixa atacou, e ele rolou pro lado com uma falta de elegância que de algum jeito ainda funcionava. Ele gritava palavras num idioma que eu não reconhecia, enquanto a coisa o derrubava, e ele levantava de novo, mais lento, mais sangrento, mas ainda de pé.

— A porta fecha de dentro pra fora — ele berrou pra nós. — Quando eu disser, vocês jogam tudo que for de metal contra o símbolo. Tudo. Anéis, fivelas, lanternas. Tudo.

A criatura prendeu o braço dele — ouvi o osso quebrar de um jeito que vou ouvir pro resto da vida — e ele riu. Riu, com a boca cheia de sangue.

— AGORA! — ele berrou, e jogamos tudo.

O metal bateu no símbolo gravado e ele brilhou. O vão começou a se fechar como uma ferida cicatrizando ao contrário. Ele não tentou correr. Em vez disso, se virou de volta pra criatura baixa.

— Não. Você não vai — ele disse pra coisa, e havia algo definitivo naquela frase.

A criatura baixa o derrubou pela última vez bem no instante em que o vão se costurou por completo. Silêncio. Só a água gotejando de novo.

• • •

Ele ainda estava vivo quando chegamos perto. Por pouco.

— Relaxa — ele disse pra mim, com a voz já fina como papel. — Você vai ser melhor nisso do que eu fui. Eu tinha um senso de humor horrível.

— Quem é você? — eu perguntei.

— Chaveiro — ele disse. — É assim que a gente se chama, quando se chama de alguma coisa. A gente abre o que não devia, fecha o que escapou, e nunca fica com a chave certa no bolso quando precisa.

A risada dele virou tosse, e a tosse virou silêncio, e o silêncio ficou.

• • •

Achamos o caderno dele dias depois. Na última página, com uma letra mais firme do que o resto:

"Cada porta fechada é um fim de turno. Hoje encontrei a próxima Chaveira. Ela nem sabe ainda. Tadinha."

Fiquei com o caderno. E de vez em quando, quando o ar muda de temperatura sem motivo, ou quando vejo um reflexo um segundo atrasado, eu sinto o peso disso tudo.

É sobre saber, finalmente, que tem coisa lá dentro que precisa de alguém prestando atenção.

Acho que esse alguém, agora, sou eu.

Fim do caso.

Gostou deste caso?

Os contos são gratuitos, mas levam tempo pra escrever. Se este te tirou o sono, considere apoiar o trabalho.

Comprar o livro na AmazonApoiar via Pix