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Caso Nº 005 — Arquivo aberto

O Amuleto

Ilustração do conto O Amuleto

A fita amarela da ala egípcia tem cheiro de poeira que não é poeira, e a Lívia passa por baixo dela como quem entra na própria casa.

Eu fico do lado de cá um segundo a mais. O tempo de ler a plaquinha plastificada presa na fita com abraçadeira: ALA FECHADA PARA RESTAURAÇÃO DO ACERVO. AGRADECEMOS A COMPREENSÃO. Embaixo, num papel A4 colado com durex, outra frase, em caneta: Não entrar depois das 18h. Ordem da segurança.

Segurança, no Museu Municipal, é o seu Gerson, terceirizado, sessenta e poucos anos, que a esta hora está dormindo na cadeira de plástico da recepção com um pão de queijo na mão e o rádio ligado no programa evangélico. A Lívia tinha calculado isso. A Lívia calculava tudo, inclusive, eu descobriria depois, a mim.

— Vem — ela diz do outro lado da fita, sem se virar. — Você prometeu.

Eu prometi. Tinha vinte e dois anos e prometia qualquer coisa a uma garota que soubesse o meu nome inteiro.

Passo por baixo da fita.

• • •

O ar do outro lado é diferente. Não é figura de linguagem: é medição. É mais pesado, mais fundo, mais frio na altura dos joelhos do que no rosto, como água de lago parado que esquenta em cima e fica gelada embaixo. Respiro e tenho a sensação de que estou respirando dentro de alguma coisa que dorme há muito tempo e que não gosta de ser respirada.

As lanternas dos celulares fazem as sombras irem pro lado errado. Não muito. Um pouco. Como se o escuro daquela ala tivesse consistência, e precisasse de um instante pra decidir se aceita a luz. Aponto a lanterna pra uma estátua de gato de pedra e a sombra do gato só se forma no chão depois, preguiçosa, um frame atrasada.

Cataloguo como defeito de lanterna. Celular de terceira mão, comprado em doze vezes. A desculpa serve. Por enquanto.

A Lívia anda na frente, rápida, sem lanterna. Não precisa. Ela conhece o caminho.

Eu reparo nisso e não registro. Registro só depois, como tudo na minha vida.

• • •

A vitrine fica no fundo da ala, numa salinha sem janela, com o piso de granito trincado em linha reta de uma parede à outra, como se o chão tivesse sido cortado com régua por baixo. A placa de identificação está virada pra parede.

O cadeado da vitrine cai sozinho.

Não gira. Não é forçado. Simplesmente cai, de uma vez, como quem desiste, e o baque dele no granito, no silêncio daquela salinha, soa como osso quebrando.

— Não fui eu — eu digo.

— Eu sei — ela diz.

Com uma calma que eu levaria anos pra nomear. Não era calma de quem não se assusta. Era calma de quem estava esperando aquele som.

Dentro da vitrine, sobre um veludo vermelho desbotado em formato de travesseiro, um escaravelho de pedra. Quase preto. Do tamanho de um punho de criança. Na base, hieróglifos gravados em colunas tão finas que parecem feitos com um instrumento que não existia na época em que a pedra foi cortada.

Me aproximo. A lanterna do meu celular morre.

No segundo de escuro total, eu sinto.

Não ouço. Sinto pela sola do tênis, pelo osso do calcanhar, subindo pela canela. Uma presença embaixo. Muito embaixo. Algo enorme imediatamente abaixo do concreto do museu, e esse algo está se virando, devagar, como alguém que estava de bruços e decide olhar pra cima.

• • •

A Lívia pega o escaravelho com as duas mãos. Vira. Passa o polegar sobre os hieróglifos devagar, como quem lê braile.

E lê em voz alta.

Não sei que língua é aquela. Sei que ela não tropeça em nenhuma sílaba. Sei que ninguém aprende uma língua morta de ouvido num curso de extensão de sábado, que era onde eu achava que ela tinha aprendido.

Na primeira linha, o ar esfria de uma vez, como se a temperatura tivesse sido substituída por outra, de outro lugar.

Na segunda linha, as sombras param. Todas. Ficam fixas nas paredes, duras, como se o escuro tivesse endurecido de atenção. Como uma plateia que para de mastigar pipoca.

Na terceira linha, eu tento falar o nome dela. Abro a boca, empurro o ar. O som não sai.

Lá embaixo, alguma coisa responde.

Não com barulho. Com pressão. Os meus ouvidos estalam como em avião descendo. O piso trincado da salinha se abre um dedo, só um dedo, ao longo da linha reta, e do fundo da fresta sobe um cheiro de resina velha e de linho, e de algo doce por baixo, que eu só vou reconhecer anos depois, num velório.

— Corre — ela diz.

Pela primeira vez a voz dela parece preocupada. Não comigo. Com o horário.

• • •

O que aconteceu no museu naquela noite eu não consigo contar em ordem. Conto em pedaços, que é como a memória guarda o que não quer guardar.

O seu Gerson acordado, de pé no meio do saguão principal, com o pão de queijo caído no chão, olhando pro alto da escadaria de mármore.

Uma figura parada no topo da escadaria. Vertical. Envolta. Imóvel. Alta demais pra caber nas proporções de qualquer pessoa, e ao mesmo tempo estreita como um cabo de vassoura enrolado em pano. Não se aproxima. Não precisa. Tem a paciência de coisa que não tem pressa porque o tempo é dela.

O seu Gerson falando com ela. Educado. Senhor, o museu está fechado.

O rádio evangélico ainda ligado na recepção.

A Lívia me puxando pela manga em direção à saída de incêndio, sem olhar pra trás nenhuma vez. Ela não precisava. Ela sabia exatamente o que tinha deixado pra trás.

No dia seguinte, o jornal disse três mortos. O seu Gerson e dois funcionários da limpeza que tinham ficado até tarde. Causa a esclarecer. A Secretaria de Cultura soltou nota informando que o museu permaneceria fechado para revisão dos protocolos de segurança patrimonial e que o acervo não sofreu danos.

Nenhuma linha sobre o escaravelho. O escaravelho não estava no inventário. Eu fui conferir, anos depois, como quem cutuca uma ferida. Na listagem oficial da ala egípcia, entre o item 211 e o 213, uma linha em branco.

• • •

Na quinta noite depois do museu, eu acordo às 3h da manhã com a certeza física de que a Lívia está em perigo.

Não sonhei. Não ouvi nada. Simplesmente sei, do jeito que se sabe que o fogão ficou ligado. Uma urgência no estômago que não tem argumento contra.

Pego a chave da moto. Atravesso a cidade molhada de garoa, o asfalto refletindo o vermelho dos semáforos piscando em amarelo, e chego ao prédio dela, um conjunto habitacional atrás do terminal de ônibus. O portão está aberto. A porta do apartamento também.

Era exatamente o que ela precisava que eu fizesse.

A sala está reorganizada. Os móveis encostados nas paredes. No chão de taco, um círculo desenhado com giz e alguma coisa escura, com os mesmos símbolos da base do escaravelho, dispostos com uma precisão que não se faz em cinco noites. Que se planeja com meses. Talvez anos.

A Lívia está no centro do círculo, de pé, com o escaravelho nas mãos.

A figura envolta está diante dela, dentro da sala, curvada sob o teto baixo do apartamento de conjunto habitacional, a cabeça encostada no forro de gesso como uma girafa num elevador.

Eu grito o nome dela.

As duas viram a cabeça ao mesmo tempo, na minha direção.

E no rosto da Lívia tem uma expressão que eu levo um segundo pra identificar, porque nunca tinha visto ninguém olhar pra mim daquele jeito.

Alívio.

Ela estava aliviada porque eu tinha chegado.

E é nesse segundo que eu entendo tudo, de uma vez, do jeito que sempre entendo as coisas: tarde e inteiro. Eu nunca fui o garoto de quem ela gostava. Fui o garoto de quem ela precisava. Uma pessoa que atravessa o limiar por vontade própria, duas vezes, sem ninguém obrigar. O museu foi a primeira. Esta sala é a segunda.

O pagamento precisa vir andando.

• • •

A figura não era um monstro, eu entendo isso agora. Era um empregado. Preso a uma obrigação antiga, de um contrato que alguém assinou antes de existir papel, e que só termina quando outro assume o turno.

Ela queria terminar.

Eu fui o fim do turno dela.

O que senti quando o pano encostou em mim não foi dor. Foi peso. Como vestir um casaco molhado que é do tamanho exato do seu corpo e foi feito pra você muito antes de você nascer. Linho em volta dos pulsos. Resina no céu da boca. A respiração ficando curta e funda ao mesmo tempo, como a daquele ar da ala egípcia, que esquentava em cima e gelava embaixo.

A última coisa que eu vi com os meus olhos foi a figura antiga, já sem pano, só uma forma clara e cansada, cruzando os braços sobre o peito no meio do círculo, fechando os olhos.

Descansando.

• • •

A Lívia ficou com o que queria. Não sei o que era. Nunca mais soube dela.

O museu reabriu. A ala egípcia também.

Às terças, dia de entrada gratuita, tem sempre alguém que vai até o fundo da ala, até a salinha sem janela com o piso trincado em linha reta, e fica parado na frente da vitrine um pouco mais do que precisava. A vitrine do escaravelho voltou. Veludo novo, vermelho vivo. Iluminação de LED. Uma plaquinha nova, desta vez virada pro lado certo.

E embaixo do piso, logo abaixo da linha reta, a gente espera.

Eu espero.

Toda dívida vence. A dela também vai. E quando vencer, vai ser numa terça de entrada gratuita, por vontade própria, duas vezes.

A Lívia sempre foi pontual.

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