Éramos cinco quando forçamos a tampa do poço, e a alavanca que usamos era do tamanho errado pra criança de nove anos, o que já devia ter sido aviso suficiente de que aquela tarde não ia terminar em nada bom. Nenhum de nós era esperto o bastante pra reparar nisso. Criança de nove anos com tédio de sábado não reconhece aviso nem que ele venha com legenda.
O concreto cedeu com um som oco demais pra tampa daquele tamanho — o tipo de eco que sugere muito mais espaço vazio lá embaixo do que qualquer poço tem obrigação de ter. Ficamos ali, os cinco, olhando pro escuro que tinha se aberto, com aquele silêncio sagrado e idiota que só existe em bando de criança que percebe, tarde demais, que devia ter ficado assistindo desenho.
O ar esfriou de um jeito que sábado de calor nenhum justifica. Uma voz — de todo lugar ao mesmo tempo, baixinho, gentil demais pra ser confiável — perguntou:
*"Quem quer ganhar um presente?"*
Diego disse "eu" antes de qualquer um processar a pergunta direito.
Sempre foi assim com ele. Não vivo pra dizer "eu avisei", mas — eu avisei.
Não vi nada sair do buraco. Só senti a temperatura mudar e, de repente, cada um de nós segurava alguma coisa que não tinha na mão um segundo antes.
Diego ganhou um canivete de cabo escuro que brilhava mais do que canivete de brinquedo tem obrigação de brilhar, e a primeira coisa que ele fez foi abrir e fechar a lâmina três vezes seguidas, rindo, sem perceber — ou sem se importar — que a lâmina fazia um som de metal riscando osso mesmo sem tocar em nada.
Marina ganhou uma pulseira fina, pingente girando sozinho sem vento nenhum, e o rosto dela, no segundo em que fechou os dedos ao redor, mudou de um jeito que eu não soube nomear na hora. Só sei que ela parou de sorrir.
Paulo ganhou um relógio de bolso, ponteiros parados numa hora que ele ficou encarando fixo por tempo demais pra ser coincidência, como se estivesse decorando aquele número por um motivo que só ele sabia.
Bia ganhou uma boneca de pano com botão no lugar de olho — e a boneca, no instante em que ela abraçou contra o peito, virou a cabeça de pano na direção do poço, devagar, como se estivesse dizendo tchau pra alguma coisa lá dentro que só ela conseguia ver.
Eu ganhei um bilhete dobrado. Guardei no bolso sem ler, porque das cinco reações ao redor de mim, a minha foi a única puramente feita de medo, sem nenhum traço de fascínio misturado — e isso, hoje, é o único detalhe daquela tarde que ainda me dá algum tipo de paz.
A voz não disse mais nada. Recolocamos a tampa como deu. Fomos embora fingindo que aquilo não tinha acontecido, com aquela habilidade específica de criança de comprimir horror em silêncio — habilidade que adulto raramente perde o jeito de reciclar, aliás, o que talvez explique boa parte de como cheguei até aqui.
Diego morreu três semanas depois. O canivete estava no bolso dele quando caiu de bicicleta — queda banal, o tipo que qualquer criança sobrevive raspando o joelho — só que o corte que ele levou não tinha relação nenhuma com o asfalto, sangrou fundo demais, comprido demais, num ângulo que o próprio corpo dele não devia conseguir alcançar sozinho.
Bia morreu dois meses depois disso. A boneca estava no colo dela, virada de frente pro vidro do carro, quando o motorista do outro veículo jurou, sob juramento e sob lágrima, que "ela simplesmente apareceu no meio da pista, do nada, como se tivesse sido colocada ali".
Marina parou de usar a pulseira depois disso. Guardou numa caixa junto com as coisas do Paulo, que também tinha parado de olhar pro relógio.
Fizemos o pacto na sombra do playground — nunca mais tocar, nunca contar, torcer. Eu nunca li o bilhete. Guardei no fundo de uma caixa própria, empilhando coisa por cima com aquela lógica capenga de achar que profundidade física resolve profundidade de outro tipo.
Décadas de paz falsa depois, aprendendo a não olhar pro canto do quarto onde a gente sabe que tem alguma coisa — e Marina morreu ontem.
Câncer, disseram. Nada sobrenatural na superfície, só corpo falhando como corpo às vezes falha sem precisar de ajuda de ninguém.
Achei a pulseira dela na gaveta de joias, pingente ainda girando sozinho, do mesmo jeito de décadas atrás, e aquilo — mais que o velório, mais que o caixão fechado — foi o que finalmente quebrou alguma coisa dentro de mim que eu vinha segurando havia tempo demais.
Pedi o relógio do Paulo pra viúva dele — ele morreu ano passado, coração, "nada dramático", disseram, embora eu tenha minhas dúvidas sobre o que "dramático" significa quando um homem de quarenta e poucos simplesmente para de acordar. Ela cedeu sem entender por que eu queria justamente aquele objeto entre os pertences, e eu não expliquei, porque não existe explicação que não me faça parecer o que talvez eu seja.
Peguei o canivete do Diego. Peguei a boneca da Bia.
E o meu bilhete, ainda dobrado, ainda intacto, guardado com um cuidado quase religioso que eu nunca soube justificar nem pra mim mesmo.
Estou sentado na mesa da cozinha agora, os cinco objetos alinhados na minha frente, o único que sobrou dos cinco — e aqui está a parte que eu não vou explicar direito, porque nem eu tenho certeza da resposta.
Diego e Bia morreram cedo, quando ainda éramos crianças, e aquilo eu sempre atribuí ao presente, à maldição, ao poço, a qualquer coisa que não fosse eu.
Marina e Paulo morreram recentemente, com poucos meses de diferença um do outro, exatamente na época em que eu comecei — silenciosamente, sem admitir nem no meu próprio pensamento — a querer os objetos deles reunidos com o meu.
Não vou dizer se ajudei o câncer da Marina a vencer mais rápido. Não vou dizer se o coração do Paulo teve ajuda além da própria genética.
Vou dizer só que tenho os cinco presentes na minha frente agora, pela primeira vez completos desde aquela tarde de sábado, e que a vontade antiga e idiota de nove anos — a mesma que segurou a alavanca de ferro — voltou com uma pontualidade que eu prefiro não examinar de perto.
A mão já está no papel.
Vou ler o bilhete agora.
Depois disso, sinceramente, não faço ideia do que serei capaz de fazer.



