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Caso Nº 004 — Arquivo aberto

O Grupo

Ilustração do conto O Grupo

O vídeo das 2h17 tem cinquenta e três segundos, e só no vigésimo primeiro eu percebo que a sombra no teto não é sombra.

É uma mulher sentada no sofá, de costas pra câmera, assistindo televisão numa sala comum. Tapete de loja de departamento, rack com porta-retrato, controle remoto no braço do sofá. A câmera está alta, no canto, na altura em que ninguém instala câmera. Nos primeiros vinte segundos, nada. Ela muda de canal. Coça o tornozelo. Boceja.

No vigésimo primeiro, no canto superior esquerdo, a sombra do teto se ajusta.

Não se mexe. Se ajusta. Como alguém que estava de mau jeito muito tempo e decide mudar de posição sem fazer barulho.

E começa a descer pela parede. Devagar. Do jeito que a água desce por uma vidraça: sem pressa, ocupando.

A mulher não olha.

O vídeo corta no segundo cinquenta e três, com a sombra a meio metro da cabeça dela.

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O link tinha chegado três horas antes, de um contato que eu não sabia que tinha salvado. Nome do contato: um ponto. Foto: nenhuma. Sem mensagem, sem contexto, só o convite pra um grupo no Telegram. O nome do grupo eram quatro caracteres que não formam palavra em língua nenhuma que eu conheça. O ícone, um quadrado preto. Quarenta e três membros, nenhum nome reconhecível, todos com foto padrão.

Entrei porque era terça, porque eu tinha saído do plantão de suporte técnico às onze com a cabeça zunindo de cliente que não reinicia o roteador, e porque link sem contexto de contato desconhecido é o tipo de coisa que metade das pessoas ignora e a outra metade abre. Eu sempre fui a outra metade. É por causa da outra metade que existe suporte técnico.

Na descrição do grupo, uma única regra fixada:

Assista. Não comente. Não saia.

Achei engraçado. Do jeito que a gente acha engraçado aviso de perigo de morte em portão de garagem.

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Os vídeos chegam toda noite. Sempre depois das duas. Sempre de casas diferentes. Uma cozinha em que um senhor lava louça sozinho. Um quarto de adolescente com luz de LED roxa. Uma sala de espera de clínica veterinária vazia, com um único cachorro deitado no chão, olhando fixo pro alto da parede enquanto a recepcionista digita.

Sempre com aquilo. No canto. Colado ao teto. No vão entre o armário e a parede. Nunca inteiro. Uma mancha que tem espessura. Um escuro com bordas, com altura, com uma largura de ombros que escuridão comum não precisa ter.

Aprendo os sinais antes das vítimas. É uma habilidade como outra qualquer, igual reconhecer pela voz o cliente que vai pedir pra falar com o gerente. O jeito que a sombra fica parada demais. O jeito que os bichos reagem: o gato da cozinha, o cachorro da clínica, sempre olhando pro ponto certo enquanto o dono olha pro ponto errado. O jeito que a luz da TV, quando passa por cima daquilo, não ilumina. Escorrega.

Ninguém comenta. Eu também não. Os vídeos têm o contador de visualizações e o número sobe pra quarenta e três toda vez, depois quarenta e dois, depois quarenta. As pessoas vão saindo do grupo em silêncio, uma por noite. Não comentam. Só saem.

Eu não saio. Eu assisto. Não tenho orgulho disso. Tenho insônia, e a insônia tem gosto.

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No décimo primeiro vídeo, eu reconheço a rua.

É a primeira vez que um vídeo começa do lado de fora. Uma câmera de portão filmando a calçada à noite, um poste com a luz amarela queimando pela metade, e uma placa azul de esquina meio torta: Rua Tenente Ávila.

Eu conheço essa placa. Fica a três quadras do meu trabalho. Passo nela todo dia indo pegar o ônibus.

No vídeo, uma mulher de uniforme de farmácia chega no portão, procura a chave na bolsa e entra. A câmera muda sozinha pra dentro da casa, como se tivesse entrado junto. E lá dentro, no corredor, encostado no alto da parede como uma infiltração antiga, aquilo espera.

O vídeo corta antes de ela acender a luz do corredor.

Pesquiso no dia seguinte, na hora do almoço, comendo marmita na frente do computador. Nota num portal de bairro: Mulher de 34 anos desaparece após sair do trabalho. Família pede informações. A data bate. Embaixo da nota, uma atualização de duas linhas, de semanas depois: O caso foi arquivado pela delegacia por ausência de elementos que indiquem crime.

Ausência de elementos. Fico olhando a frase muito tempo. É a linguagem mais honesta que já li numa delegacia: o elemento estava lá, no alto da parede, e ninguém do plantão olhou pra cima.

Fecho a aba.

Não saio do grupo.

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No sábado, faço uma coisa que até hoje eu não sei defender. Vou até a Rua Tenente Ávila de dia.

A casa do vídeo está lá. Portão baixo, muro chapiscado, uma placa de imobiliária presa na grade com arame: ALUGA-SE. Tratar com Imobiliária Horizonte. O número de telefone está meio apagado pela chuva. A vizinha do lado, varrendo a calçada, me olha com a desconfiança que todo mundo tem de homem parado na frente de casa vazia.

— Tá pra alugar faz tempo — ela diz, sem eu perguntar. — Ninguém fica. A moça que morava sumiu, coitada. Depois veio um casal, ficou dois meses. A imobiliária pintou tudo de novo. Não adianta. Volta a mancha.

— Que mancha?

Ela aponta com o cabo da vassoura pra janela da sala, sem chegar perto.

Encosto a testa no vidro empoeirado. A sala vazia, chão de cerâmica, paredes brancas de pintura recente. E no canto superior esquerdo, no encontro do teto com a parede, uma mancha escura com formato de infiltração. Com bordas. Com altura. Com largura de ombros.

Ela não está no mesmo canto em que estava quando eu encostei a testa.

Está um palmo mais perto da janela.

O celular vibra no meu bolso. Notificação do grupo. Vídeo novo.

Não abro ali. Abro no ônibus, com o coração na boca e o motorista freando em todo quebra-molas. São dezenove segundos, filmados de dentro da sala vazia, do canto alto da parede. Na janela, do lado de fora, um homem de camiseta cinza encosta a testa no vidro.

Sou eu.

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Numa quinta de novembro, o Telegram me avisa: Seu grupo foi denunciado e está em análise pela moderação. No dia seguinte: Após análise, não identificamos violação das diretrizes da comunidade.

Na mesma noite, o contador de membros cai pra dois.

O administrador e eu.

O administrador não tem nome. É um ponto, como o contato que me mandou o link. Clico no perfil e o Telegram mostra visto por último há muito tempo, que é o jeito educado que o aplicativo tem de dizer que não sabe.

Três noites sem vídeo. Eu durmo pior do que nas noites com vídeo. Acordo às duas e pouco, pego o celular antes de abrir os olhos direito, confiro o grupo como quem confere se o fogão ficou desligado.

Nada.

Na quarta noite, às 2h17, o celular toca.

Chamada de vídeo. Do administrador.

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Atendo. Não sei explicar por quê. É o mesmo motivo que faz alguém abrir o link: a outra metade.

A imagem demora pra carregar. Quadrados cinza, depois borrão, depois um cômodo escuro iluminado só pela luz azul de uma tela. Um sofá. Um rack. Uma pilha de roupa na cadeira que eu juro que vou dobrar desde agosto.

Demoro seis segundos pra entender.

É a minha sala.

Filmada do alto. Do canto. Da altura em que ninguém instala câmera.

No vídeo, eu estou sentado no sofá, curvado sobre o celular, de costas pra câmera, a luz da tela na minha cara. Levanto do sofá. No vídeo, eu levanto do sofá. Viro pro canto da parede onde a câmera devia estar. Não tem nada lá. Teto liso, uma teia de aranha velha, a marca de infiltração que o proprietário diz que é só estética.

Olho pro celular de novo.

No vídeo, logo acima da minha cabeça, no canto superior esquerdo, a sombra do teto se ajusta.

Olho pro teto real. Vazio.

Olho pro celular. Ela desceu um palmo.

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Corro. Banheiro, porta, tranca. O celular ainda na mão, a chamada ainda ativa, porque eu não consigo desligar, porque desligar é parar de ver, e parar de ver é a parte em que as mulheres dos vídeos acendem a luz do corredor.

No vídeo, a minha sala vazia. Nada se mexendo. O sofá com a marca do meu corpo. A luz azul da TV desligada.

Vou soltando o ar aos poucos. Encosto a testa na porta. Penso, com aquela lógica de suporte técnico que me acompanha até no banheiro, que talvez seja um vídeo gravado antes, um loop, uma câmera escondida de algum vizinho com problema mental, uma pegadinha elaborada de um ex-colega. Penso em tudo. Penso rápido. Penso como quem tenta reiniciar o roteador.

Olho pro espelho da pia.

Eu estou lá. Pálido, de cueca, segurando o celular com as duas mãos.

E então eu vejo.

Logo atrás do meu ombro direito, parcialmente visível no reflexo, entre a minha orelha e a toalha pendurada atrás da porta: os dedos.

Longos demais. Muitos. Dobrados numa geometria que não fecha, como se tivessem mais articulações do que precisam. Pousados no meu ombro. Leves. Eu não sinto peso nenhum. Não sinto frio. Não sinto nada.

Só vejo.

Com a paciência de coisa que espera faz tempo e finalmente chegou na casa certa.

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A chamada caiu.

No celular, uma notificação nova do Telegram.

Você agora é administrador do grupo.

Embaixo dela, outra, de um segundo depois:

1 novo membro entrou pelo seu link de convite.

Eu não mandei link nenhum.

Abro o grupo com o dedo tremendo. Na lista de membros, dois nomes. O meu, com a coroinha de administrador. E um contato que eu não conheço, foto padrão, entrou agora.

E no topo do grupo, fixado, um vídeo novo. Postado por mim. Às 2h17.

Cinquenta e três segundos.

Não precisei abrir pra saber o que tem nele. Um homem de cueca, num banheiro pequeno, de costas pra câmera, olhando pro espelho.

O meu polegar está em cima do botão de compartilhar.

Eu não lembro de ter posto ele ali.

E ele está descendo. Devagar. Do jeito que a água desce por uma vidraça.

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