O link chegou por um contato que eu não sabia que tinha salvado. Sem mensagem. Sem contexto. O nome do grupo era quatro caracteres sem sentido. O ícone era um quadrado preto. Tinha quarenta e três membros. Nenhum nome reconhecível.
Entrei porque era tarde, porque eu estava entediado, e porque link sem contexto de contato desconhecido é exatamente o tipo de coisa que metade das pessoas ignora e a outra metade abre. Eu sempre fui a outra metade.
Às 2h17 chegou o primeiro vídeo. Cinquenta e três segundos. Uma mulher sentada no sofá, de costas pra câmera, assistindo televisão.
Nos primeiros vinte segundos, nada. E então, no teto, no canto superior esquerdo, uma sombra se ajustou. Não se mexeu — se ajustou, como quem muda de posição sem intenção de ser visto.
A sombra começou a descer pela parede. Devagar. A mulher não viu. O vídeo cortou.
Os vídeos continuaram chegando toda noite. Sempre depois das 2h. Sempre de casas diferentes. Sempre com aquilo — nos cantos, nos corredores, colado ao teto.
Aprendi a reconhecer os sinais antes das vítimas perceberem. O jeito que uma sombra ficava muito parada. O jeito que os animais reagiam — sempre olhando pro ponto certo enquanto o dono olhava pro ponto errado.
Foi no décimo primeiro vídeo que reconheci a rua. Rua Tenente Ávila. Eu conhecia aquela placa.
Pesquisei depois. Nota de desaparecimento. Mulher de 34 anos. Data compatível. Fiquei olhando pro resultado por um tempo que não sei quantificar. Fechei a aba. Não saí do grupo.
Numa quinta-feira de novembro o Telegram avisou que a última pessoa tinha saído. Contei: quarenta e três membros na primeira noite. Dois agora. O admin e eu.
Na quarta noite de silêncio chegou a chamada de vídeo. Do admin. Atendi.
A imagem demorou pra carregar. Quando abriu era um cômodo escuro. Demorei seis segundos.
Era a minha sala. Filmada de dentro.
Levantei do sofá. No vídeo, a figura levantou. Olhei pro canto onde a câmera devia estar. Vazio. Olhei pro celular. No teto da minha sala, visível no vídeo mas não quando eu olhava pro teto real — a sombra.
Corri. Banheiro, tranca. Celular ainda na mão com a chamada ativa. No vídeo, minha sala vazia agora. Nada se mexendo.
Fui soltando o ar aos poucos. Olhei pro espelho. Eu estava lá.
E então vi. Logo atrás do meu ombro direito, parcialmente visível no reflexo — os dedos. Longos demais, curvados com aquela geometria impossível. Pousados no meu ombro. Com a paciência de coisa que espera faz tempo.
A chamada caiu.
Fim do caso.



