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Caso Nº 041 — Arquivo aberto

Copo d'Água

Ilustração do conto Copo d'Água

Pego o copo da mesa de cabeceira pra beber o primeiro gole do dia e ele está vazio, com uma marca de boca na borda que não é a minha.

Eu não uso batom. A marca não é de batom — é de lábio rachado, seco, a impressão fosca que uma boca desidratada deixa quando encosta no vidro com a pressa de quem não bebe faz tempo. Do lado esquerdo da borda.

Fico olhando o copo contra a luz da janela, de camisola, com a cara amassada dos setenta e um anos.

Nessa idade a gente para de ter medo de morrer. Começa a ter medo de ter visita.

Lavo o copo. Anoto na última página do caderno de pressão arterial, porque é o caderno mais perto da mão e porque anotar é o que eu faço quando não sei o que fazer: "Copo vazio. Marca de boca, lado esquerdo."

Depois fico olhando a anotação e me sinto a velha mais ridícula do Tatuapé, escrevendo prontuário de copo.

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Na noite seguinte, encho o copo até a borda e marco o nível com uma caneta de retroprojetor. Deixo na mesa de cabeceira. Deito virada pra ele, a trinta centímetros do vidro.

Diurético deixa a boca seca, penso, antes de dormir. Setembro é seco. Velho bebe água dormindo e não lembra. O kit de desculpa vem pronto e eu monto ele de olhos fechados, com a eficiência de quem já montou pra muita família no corredor de hospital.

Acordo às 3h10 com a boca de papel.

O copo está um dedo abaixo da marca.

Não vazio. Um gole. Um gole exato, com a borda molhada de um lado só e aquela impressão fosca no vidro.

Eu estava dormindo virada pro copo. Alguma coisa bebeu na frente da minha cara.

Não sei o que dá mais medo: a hipótese de que eu estava dormindo, ou a de que não estava.

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Na terceira noite, ponho um pires em cima do copo.

Amanhece no chão. Virado, de boca pra baixo, sem uma lasca. O copo pela metade.

Na quarta noite, prendo o pires na borda com fita crepe, três voltas, e aperto com o polegar até a fita grudar no vidro como curativo.

A fita amanhece intacta. Nenhum vinco, nenhuma dobra, nenhuma ponta descolada.

O copo está pela metade. E a marca de boca está do lado de dentro do vidro, acima da linha d'água, fosca, virada pra mim.

Anoto isso no caderno com a letra tremendo. Anoto porque, se eu não anotar, amanhã vou achar que sonhei, e aí vou ter que passar por tudo de novo pra ter certeza.

Enfermeira não confia em nada que não mediu duas vezes. É a única coisa boa que sobrou da profissão.

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Meu neto instala uma babá eletrônica no quarto. Diz que é "pra vó ficar segura", com aquela cara de neto que conversou com a mãe sobre casa de repouso. Deixo ele acreditar que é por causa das minhas quedas.

A câmera tem visão noturna. Aquele cinza granulado de reportagem policial.

Assisto à gravação na cozinha, às seis da manhã, com o café esfriando.

3h07. O nível da água desce.

Sozinho. Em três movimentos, com pausa entre eles — a pausa exata de quem está engolindo. A água ondula dentro do vidro parado sem nada encostar. Na imagem eu durmo de lado, a mão a dez centímetros do copo, em cima do lençol.

E no terceiro gole, no canto de baixo da tela, o colchão afunda.

Do lado vazio da cama. O lado que ninguém usa. Um afundamento redondo, lento, do tamanho de um joelho. Como quem se ajoelha na cama pra alcançar a mesa de cabeceira do outro lado.

Do meu lado.

Volto a gravação dez vezes. Na décima, reparo em outra coisa: o afundamento não se levanta depois do gole. Fica ali, parado, até o fim do arquivo. Até as 5h58, quando a câmera desliga sozinha por falta de bateria.

Ele não foi embora depois de beber.

Ficou deitado do meu lado até de manhã.

Na noite seguinte, faço o óbvio: mudo o copo de lugar.

Encho, marco o nível e ponho na mesa de cabeceira do outro lado. O lado vazio. Se é pra ter visita, que a visita beba do lado dela e me deixe dormir do meu.

Apago a luz. Durmo virada pra parede, de costas pro copo, feito criança de castigo.

Acordo às 3h10 com um barulho mínimo, de vidro arrastando em madeira. Devagar. Um centímetro de cada vez.

Não viro.

O barulho dá a volta na cama. Pelo pé. Contorna a guarda do colchão sem pressa, o vidro arrastando agora no taco, com aquele som de copo que alguém empurra com a ponta dos dedos. Para do meu lado. Sobe. Arrasta de novo, dessa vez em cima da minha mesa de cabeceira, até encostar no abajur com um tinido baixo.

De manhã, o copo está do meu lado. Vazio. A marca na borda.

Não é a água que ele quer do meu lado.

Sou eu que ele quer do lado da água.

• • •

Tento a única coisa que sobra quando a medição não resolve: educação.

Encho seis copos. Arrumo em fila na cômoda do quarto, como bandeja de enfermaria. Uma jarra de dois litros no meio. Fico de pé no quarto, de camisola, e falo em voz alta, com a voz de quem está acostumada a ser obedecida no plantão:

— Pode beber. Tá liberado. Pode beber o quanto quiser.

Me sinto uma louca. Me sinto aliviada. Deito e durmo rápido, pela primeira vez em duas semanas.

Acordo às três com o pé molhado.

Os seis copos estão no chão. A jarra também. Tudo derramado, uma poça escura no taco escorrendo pra baixo da cama — e nenhum copo quebrado. Nenhum. Deitados de lado, alinhados, as bocas viradas pra mesma direção, com a precisão de quem arruma instrumental cirúrgico em cima do campo.

Recusados.

Na mesa de cabeceira, do lado do meu travesseiro, o meu copo — o de vidro canelado, o de sempre — está vazio. Com a marca na borda.

Ele não quer qualquer água.

Quer a do meu lado da cama.

• • •

Durmo no sofá da sala.

Levo travesseiro, cobertor e o orgulho que sobrou. Deixo a porta do quarto aberta pra ouvir, porque velha que foge do próprio quarto pelo menos tem que ter a dignidade de acompanhar o que acontece lá dentro.

3h07.

Do quarto vem o rangido do colchão. Do meu lado. Um peso deitando, se ajeitando. E depois, nítido no silêncio do apartamento, o som de alguém engolindo.

Um gole. Pausa. Outro gole. Pausa.

Não tem copo nenhum no quarto. Eu tirei.

O terceiro gole não vem. No lugar dele, um estalo de língua no céu da boca — o som seco, grudado, de boca que tentou beber e não achou nada. E um suspiro comprido, rouco, de decepção.

Depois, passos no taco. Lentos. Vindo do quarto pro corredor.

Pra sala.

Fecho os olhos com força, igual criança. Os passos param do lado do sofá. Alguma coisa se abaixa. Eu sinto o ar mexer no meu rosto, a respiração seca bem na frente do meu nariz, e fico esperando — a gaze, a mão, a voz — com o coração batendo nos ouvidos.

Nada disso vem.

Um barulho de vidro. Na mesinha de centro. Um copo sendo pousado com cuidado, sem tinido, do jeito que se pousa copo na mesa de cabeceira de paciente que dorme.

De manhã, ele está lá. O canelado. Cheio até a borda.

E eu sei, pela primeira vez, que não é pra mim. É pra ele. É o lugar dele que mudou de cômodo, e a água vai continuar onde eu estiver.

No banheiro, quando vou escovar os dentes, tem uma caixa de gaze estéril aberta em cima da pia. Eu não compro gaze há quinze anos.

Falta uma.

• • •

Paro de deixar o copo.

Embrulho o canelado num pano de prato e enfio no fundo do armário da cozinha, atrás das panelas que eu não uso. Durmo com a mesa de cabeceira vazia. É a decisão mais sensata que tomo no mês, e decisão sensata, nessa altura da vida, costuma ser só o nome educado do próximo erro.

Na primeira noite, nada.

Na segunda, nada.

Na terceira, acordo às 3h07 com uma sede que não é minha.

Não é a sede de diurético nem a de setembro. É a língua colada no céu da boca, os lábios rachando enquanto eu sinto, a garganta fechada como porta de UTI depois do horário de visita. Tento sentar na cama pra ir até a cozinha.

Não sento.

Não é paralisia. É o lençol. Esticado por cima de mim com a tensão exata de uma maca bem feita, as pontas dobradas pra baixo do colchão em quina, do jeito certo, do jeito que se ensina no primeiro dia de estágio. Alguém fez a minha cama.

Comigo dentro.

O colchão afunda do lado vazio. Um joelho, depois o peso inteiro, se acomodando devagar. Não vejo nada — o escuro ali só é mais denso, com a borda de um ombro contra a luz do poste da rua. Mas sinto o hálito. Seco. Cheiro de boca que não vê água há muito tempo.

E aí vem a gaze.

Úmida. Encostando nos meus lábios com um cuidado técnico, perfeito, profissional. Molhando a boca sem deixar uma gota passar pra garganta. Passando devagar pelo lábio de cima, depois pelo de baixo, do canto direito pro esquerdo.

Do jeito que eu fazia.

A voz vem rouca, colada no meu ouvido, no tom que a gente usa pra mentir sobre o dia seguinte:

— Amanhã cedo, dona Iolanda. Amanhã cedo a senhora toma um copão.

• • •

Faz onze dias.

Escrevo isso na cozinha, às quatro da tarde, com o sol entrando pela janela, porque é o único horário em que a caneta para quieta na minha mão. Bebo água o dia inteiro. Dois litros, três, quatro. A água desce e não chega em lugar nenhum. Às três da manhã a sede volta inteira, e o lençol volta esticado, e a gaze volta, e a voz volta.

Todas as noites.

Meu neto me leva no clínico. O clínico pede exames. Os exames dão normais. Ele anota no prontuário a expressão que médico usa quando não sabe o que escrever, e eu leio de cabeça pra baixo do outro lado da mesa:

Polidipsia a esclarecer.

A esclarecer. Bonito. Eu conheço essa caligrafia de desistência. Assinei embaixo dela a vida inteira.

Hoje de manhã tirei o copo canelado do fundo do armário. Seco por fora, embrulhado no pano. Molhado por dentro.

Com a marca na borda, do lado esquerdo.

E, do lado direito, uma segunda marca. Mais nova. Mais fina.

Não são da mesma boca.

Tem fila.

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