Mexo o guisado devagar, sentindo o cheiro de carne cozinhando lento subir e tomar conta da cozinha inteira, e penso, com aquela satisfação boba de dona de casa orgulhosa, que ficou no ponto certo hoje — macia, desmanchando na colher, o tipo de carne que só fica assim depois de horas de fogo baixo e paciência que a maioria das pessoas não tem mais.
— Cheiro bom — grita a Duda, minha vizinha do 12, batendo na porta entreaberta com aquele jeito de quem sente o aroma no corredor inteiro e não tem vergonha nenhuma de comentar. — O que é hoje?
— Guisado da vovó — respondo, sorrindo, porque é basicamente verdade — receita que aprendi vendo minha avó cozinhar, ajustada ao longo dos anos até virar minha versão, minha assinatura, o prato que todo mundo do prédio já provou pelo menos uma vez.
Separo uma tigela pra levar pro seu Nivaldo, do 3º andar, que mora sozinho desde que a esposa morreu e que come mal demais pra homem de oitenta e dois anos que já teve dois infartos. Boa vizinha faz isso. Boa vizinha se importa com quem mora perto e não tem mais ninguém.
O seu Nivaldo abre a porta com aquele sorriso cansado que idoso sozinho sempre reserva pra visita inesperada, e me convida pra entrar como sempre convida, oferecendo cadeira, oferecendo água, insistindo em pagar de volta com alguma coisa mesmo eu recusando toda vez.
— Você é um anjo, viu — ele fala, aceitando a tigela com as duas mãos trêmulas. — Não sei o que seria de mim sem você.
Fico um tempo com ele, conversando sobre nada. É bom, genuinamente bom, o tipo de bondade que enche alguma coisa dentro de mim que trabalho e rotina normal nunca conseguem preencher.
Não lembro direito de sair. Isso não é estranho — às vezes a gente sai de visita meio no automático, cabeça em outro lugar, pernas levando o corpo de volta pra casa sem exigir atenção consciente do trajeto inteiro.
Só reparo, já na minha cozinha, que minhas mãos cheiram a alguma coisa metálica que sabão nenhum tira fácil.
Duas semanas depois, a filha do seu Nivaldo liga pro síndico perguntando por que o pai não atende telefone há dias.
Encontram o apartamento vazio. Roupas no armário, geladeira com comida, tudo normal — só ele que sumiu, sem bilhete, sem sinal de arrombamento.
Sou eu quem repara na mancha primeiro.
Desço pra checar a lixeira do prédio — coisa banal, dia comum de descarte — e vejo, no corredor do térreo, perto da porta dos fundos que dá pro estacionamento, um risco escuro no piso claro, comprido, do tipo que faz o estômago virar antes mesmo do cérebro processar direito o que está olhando. Sangue seco, reconheço pela cor, pela forma como o piso poroso bebeu a mancha em vez de deixar escorrer.
Chamo o síndico. Ele examina, preocupado, chama a limpeza, comenta que "deve ser de algum animal, esses gatos de rua brigam demais por aqui" — explicação que eu aceito na hora com um alívio grande demais pro tamanho da mentira, porque aceitar era mais fácil do que continuar olhando pra aquele risco e sentir o arrepio que sentia sem entender por quê.
Fico chocada que nem todo mundo com o sumiço do seu Nivaldo. Ofereço ajuda pra família, decido, com aquela indignação de cidadã de bem, que vou "investigar" por conta própria — afinal, eu era próxima dele, eu me importava de verdade, e as pessoas que se importam de verdade são exatamente as que deveriam fazer alguma coisa quando o sistema falha.
Bato de porta em porta com um bloquinho de anotação, perguntando se alguém viu movimento estranho. Ninguém viu. Mas no corredor do terceiro andar, exatamente em frente à porta dele, encontro outra mancha — menor, quase escondida no rodapé, do tipo que só aparece se você já está procurando.
O coração acelera. Alguém fez isso com ele, penso, sentindo um misto de pavor e determinação crescer junto — alguém entrou nesse prédio, machucou um homem indefeso de oitenta e dois anos, e deixou rastro pequeno demais pra qualquer perito notar numa vistoria de rotina.
Fotografo a mancha com o celular, mão tremendo, decidida a levar pra polícia se aparecer mais alguma coisa.
Não percebo — porque como eu perceberia — que a última pessoa que visitou o seu Nivaldo antes dele sumir fui, segundo o próprio porteiro confirma na câmera de segurança, eu.
A dona Marisa do 7º é a próxima que recebe minha visita de cuidado, e eu levo guisado pra ela também, porque é o que faço, porque me orgulho genuinamente de ser esse tipo de pessoa numa cidade que esqueceu como cuidar dos próprios velhos.
— Você lembra do seu Nivaldo? — ela pergunta, servindo chá que eu não bebo muito. — Que coisa horrível, não é? Ninguém sabe de nada.
— Terrível — concordo, sentindo alguma coisa esquisita passar rápido pela minha cabeça, uma sombra de memória que não fecha direito. — Espero que apareça bem.
Não vou aparecer bem. Alguma parte de mim sabe disso com uma certeza que eu não sei de onde vem, e escolho, com a mesma facilidade que escolho ignorar caroço estranho no próprio corpo, não examinar essa certeza de perto.
Fico com a dona Marisa a tarde inteira. De novo, não lembro direito de sair.
Ela some na semana seguinte.
Volto a investigar, agora com mais urgência ainda, porque duas pessoas próximas a mim, especificamente, sumiram em menos de dois meses, e a coincidência começa a parecer padrão — um padrão que só eu, aparentemente, estou disposta a perseguir com atenção séria.
Encontro a terceira mancha no elevador de serviço, no canto perto do botão do subsolo, quase invisível sob a luz fraca da cabine. Fico ali parada, encarando aquilo, sentindo um arrepio que sobe pela nuca com uma clareza física que eu nunca tinha sentido antes por medo nenhum na vida.
Alguém está fazendo isso de propósito, penso, com aquela lógica de quem monta teoria de detetive amador sem perceber que está construindo o mapa do próprio crime. Alguém sabe que eu ando visitando os idosos do prédio. Alguém está deixando rastro perto de mim, talvez pra me avisar, talvez pra me testar, talvez — e esse pensamento me gela por completo — porque sabe que eu sou a próxima a notar.
Durmo mal aquela noite, revirando teoria, sentindo terror genuíno de estar perto de alguma coisa perigosa, sem imaginar que a coisa perigosa não estava perto.
Estava em mim, o tempo inteiro, deixando aquelas manchas com as próprias mãos que eu usava, horas depois, pra mexer guisado.
— Você é a única que se importa de verdade — o síndico me fala, apertando minha mão com gratidão exagerada, depois de mais uma rodada de perguntas de porta em porta que não rendeu nada além de vizinho irritado e mais um dia perdido de trabalho tirado pra "investigação". — Se todo mundo fosse que nem você, esse prédio seria diferente.
Aceito o elogio com o mesmo orgulho de sempre, sem perceber que "a única que se importa de verdade" e "a única que estava perto dos dois antes de sumirem" são, matematicamente, a mesma frase vestida de roupa diferente.
O guisado continua saindo ótimo naquelas semanas. Melhor que nunca, na verdade — mais macio, mais saboroso, com aquele tempero que eu não sei explicar direito de onde veio.
O seu Aderbal do 5º é o terceiro, dois meses depois, e dessa vez até eu reparo que o padrão está ficando desconfortável demais pra ignorar.
— Preciso parar de visitar gente sozinha nesse prédio — brinco com a Duda, meio de brincadeira meio não, enquanto mexo o guisado daquela semana. — Parece que sou eu quem traz praga.
Ela ri. Eu rio junto, achando graça de mim mesma, sem perceber que os meus dedos, enquanto falo isso, estão vermelhos de um jeito que tempero de guisado não deixa.
Levo tigela pro seu Aderbal naquela mesma tarde. Ele agradece com aquele sorriso cansado de sempre.
Não lembro de sair.
Três dias depois, encontro a quarta mancha — dessa vez maior, mais fresca, exatamente na porta do apartamento dele, um borrão longo que vai da soleira até o corredor, como se alguma coisa pesada tivesse sido arrastada por ali sem muito cuidado de esconder o rastro.
Chamo a polícia eu mesma, dessa vez, sem esperar mais ninguém tomar iniciativa. Fico ao lado do investigador enquanto ele examina, apontando cada detalhe que eu tinha catalogado nas semanas anteriores, sentindo aquela mistura estranha de orgulho e pavor de quem finalmente tem prova suficiente pra ser levada a sério.
— A senhora tem sorte de não ter cruzado com quem fez isso — ele comenta, sério. — Esse tipo de gente não costuma deixar testemunha.
Concordo, sinceramente assustada, sem entender por que a frase dele soa, de um jeito que eu não sei nomear, mais próxima da verdade do que ele mesmo imagina.
Naquela noite, decido fazer inventário do freezer, porque preciso descongelar alguma coisa pro guisado de amanhã e a carne que uso sempre vem embrulhada num papel específico que eu nunca examino direito — só pego, descongelo, cozinho, sem questionar de onde veio ou quando exatamente eu comprei.
Encontro o pacote de sempre. E, atrás dele, empurrado pro fundo, outro pacote que eu não lembro de ter guardado.
Abro por curiosidade banal, só pra checar validade antes de descartar.
Um coração. Humano, com um fio de fita adesiva ainda colado numa das câmaras, uma letra tremida de idoso quase apagada. Um N.
Nivaldo, na cadeira dele, meus dedos afundando no peito dele. Marisa, o chá que ela sempre insistia em servir, o barulho baixo que ela fez. Aderbal, o corredor, o arrasto até a porta.
Tudo de uma vez, rápido, um estalo só, e depois nada — a mesma lembrança de sempre, só que dessa vez sem a cortina de esquecimento na frente.
— Ah — falo sozinha, baixinho, quase rindo da própria distração. — Era eu.
Embrulho o coração de novo, guardo no fundo do freezer, e volto a mexer o guisado, porque amanhã é dia de visitar a dona Marisa do 9º, e guisado bom não se faz sozinho.



