Arranco a última tábua podre da boca da cisterna com um puxão mais forte do que precisava, porque estou na fase da herança em que quebrar coisa velha parece produtividade, e o cheiro que sobe lá de dentro — terra molhada, ferro, e uma coisa doce por baixo que não devia estar em lugar nenhum — me faz recuar antes mesmo de olhar.
Devia ter parado aí. Todo mundo que conta esse tipo de história diz a mesma frase, "devia ter parado aí", e a gente sempre acha que é figura de linguagem.
Não é. Existe um segundo exato em que ainda dá pra parar. O meu foi esse. Passou.
O caseiro, seu Deraldo, atravessa o quintal correndo — e homem daquela idade não corre por pouca coisa.
— Não mexe nisso! Ela mandou lacrar!
Tarde. A cisterna já está aberta, escura, refletindo um círculo de céu que treme de leve.
Não tem vento nenhum.
— Lacrar por quê? — pergunto, ainda debruçada sobre a borda, olhando a água parada uns três metros abaixo. Lisa demais. Poço abandonado tem folha, tem bicho morto, tem sujeira boiando. Aquilo parecia lâmina.
Seu Deraldo para a uma distância da borda que, eu ia perceber depois, ele nunca encurtou uma única vez em três dias. Nem pra me ajudar. Nem quando gritou.
— Sua avó nunca contou nada?
— Minha avó falava de novela e de receita de bolo. Não de cisterna.
— Então ela protegeu a senhora até o fim. — Ele olha pro buraco do jeito que se olha pra cachorro grande sem coleira. — Fecha isso. Hoje. Não olha pra dentro mais que o necessário.
— O senhor vai me explicar ou eu vou ter que adivinhar?
— A senhora não vai precisar adivinhar — ele diz, e vai embora. — Ela vai se apresentar sozinha.
Na hora eu achei aquilo teatral. Velho de sítio gosta de mistério, pensei, é o entretenimento que sobra quando a antena não pega direito.
Eu era muito engraçada há três semanas. Sinto falta.
Naquela noite, lavando o rosto, meu reflexo pisca atrasado.
Nada dramático. Uma fração de segundo, o tipo de coisa que cansaço explica, e cansaço explicava tudo naquela semana — herança, inventário, caixa e mais caixa de uma vida inteira pra decidir o que vira doação e o que vira culpa guardada em apartamento pequeno.
Fecho a torneira. O reflexo fecha junto. Perfeito, sincronizado, normal.
Só que eu fico ali mais tempo do que precisava, esperando ele errar de novo. E essa é a parte que ninguém avisa: o erro do reflexo dura um segundo. A espera pra ele errar de novo é que come a sua vida inteira.
No segundo dia, encontro o caderno.
Não estava escondido. Estava na gaveta da cabeceira, com etiqueta do inventário e tudo — "diário pessoal, manter com a família" — porque minha avó era organizada até nas coisas que tinham dado errado com ela.
Não vou transcrever o caderno. Primeiro porque não é da conta de ninguém. Segundo porque a maior parte não ajuda: décadas de anotação curta, quase código, "hoje não olhei", "hoje quase", "chuva a semana toda, cobri tudo que junta água".
Uma vida inteira resumida em não olhar. Eu li aquilo com pena. Demorei uns dez dias pra ler de novo com inveja.
Só uma entrada era comprida, a mais antiga, letra de moça nova:
"Ele demora mais que eu. Todo mundo acha graça quando eu conto, dizem que é impressão. Hoje eu fiquei parada e ele continuou se mexendo."
E embaixo, com tinta diferente, anos depois:
"Curiosidade é a isca. Anota isso. Curiosidade é a isca."
Fechei o caderno. Fui direto até a cisterna conferir se as tábuas novas que o Deraldo tinha pregado estavam firmes.
Curiosidade é a isca. Eu tinha acabado de ler. Fui mesmo assim.
As tábuas estavam firmes. A água, três metros abaixo, visível pelas frestas.
Se mexendo.
Devagar, círculos concêntricos partindo do centro, como quando se joga uma pedra — só que ao contrário. Os círculos vinham da borda pro meio. A água estava se recolhendo pra um ponto, se organizando, e quando os círculos chegaram no centro, pararam todos de uma vez.
Água não faz isso. Eu trabalho com número, com regra, com coisa que fecha. Água parada em buraco lacrado não ensaia coreografia.
Fiquei olhando pela fresta tempo demais. Sei que foi tempo demais porque, quando desgrudei, o sol tinha mudado de posição e meu pescoço doía.
Não lembro de nada do que pensei nesse intervalo. É um buraco na tarde, limpo, sem borda. E o pior é que não foi desagradável. Foi como cochilar.
Alguma coisa lá embaixo passou uma tarde inteira me estudando, e eu paguei a sessão de graça, sorrindo.
Depois disso, os atrasos ficam frequentes. E ficam criativos.
O espelho do banheiro pisca depois de mim — isso já era rotina. Mas aí o vidro do armário da cozinha me mostra ajeitando o cabelo com a mão esquerda quando eu tinha usado a direita. A tela apagada do celular me devolve uma inclinação de cabeça que eu não fiz.
E a poça no quintal, depois da chuva de quinta, me mostra parada.
Eu estava andando.
O reflexo na poça estava parado, ereto, virado na minha direção, me acompanhando só com o rosto enquanto o resto de mim atravessava o quintal. Como quem assiste. Como quem já não precisa mais fingir o tempo todo, só nas superfícies grandes, as oficiais, onde eu ainda conferia.
Comecei a entender a matemática da coisa: ela não estava errando. Estava economizando. Imitar dá trabalho, e ela já tinha aprendido o suficiente pra saber onde eu olhava com atenção e onde não.
Ninguém confere a própria imagem na poça. Ninguém confere no vidro do armário. A gente só se olha de verdade em dois ou três espelhos da vida inteira.
Ela sabia quais eram os meus.
Procurei o Deraldo. Contei tudo — o caderno, a poça, a tarde perdida na fresta da tábua.
Ele escutou sem me interromper, o que foi pior do que se tivesse duvidado.
— Sua avó chamava de "a moça do fundo" — disse, por fim. — Não me pergunte o que é. Ela mesma passou sessenta anos sem descobrir, e olha que tentou. Padre, benzedeira, um homem que veio de longe uma vez, de terno, que passou dois dias medindo o quintal e foi embora sem cobrar e sem resolver.
— Um homem de terno?
— Faz muito tempo. Ele disse pra ela uma coisa só: que aquilo não era porta, era espelho. Que porta ele fechava, mas espelho não tem fechadura. — Deraldo deu de ombros, com o cansaço de quem repete diagnóstico alheio há décadas. — Ela entendeu na hora. Eu até hoje não.
Eu entendi. Não falei nada, mas entendi.
Não dá pra trancar uma coisa do lado de fora quando a fresta que ela usa é você.
Testei. Claro que testei — é o meu defeito de fábrica, o mesmo que destampou a cisterna. Enchi uma tigela, botei na mesa, sentei na frente com o cronômetro do celular. Método, controle, coleta de dado. Se eu ia ser assombrada, ia ser assombrada com planilha.
Trinta segundos: nada.
Um minuto: o reflexo pisca antes de mim.
Um minuto e meio: eu levanto a mão. O reflexo levanta junto. Perfeito. Sincronizado.
Foi aí que veio o frio de verdade, o primeiro honesto — porque sincronia perfeita, àquela altura, não era alívio. Era ela dizendo: já sei fazer você inteira. O atraso era só cortesia.
Dois minutos: o reflexo sorri.
Eu não sorri. Eu tenho certeza absoluta de que não sorri. Passei os dois minutos com a boca travada numa linha reta, e a mulher na água sorriu pra mim com a minha boca, do jeito que eu sorrio nas fotos, aquele sorriso que eu levei trinta anos aperfeiçoando pra parecer espontâneo.
Joguei a tigela na parede.
A água escorreu pelo azulejo, e em cada filete descendo — juro pela minha avó, que passou a vida se protegendo disso — em cada filete fino descendo pela parede tinha um pedacinho de rosto me acompanhando até o chão.
Fiz as malas na mesma noite. Vender o sítio, doar tudo, resolver por procuração — descobri que meu limite entre "pessoa racional" e "pessoa que abandona imóvel" era exatamente uma tigela de água.
E na última noite, dobrando roupa no quarto, olhei pra janela.
De noite, com a luz acesa por dentro e o breu do sítio por fora, janela vira espelho. Eu sabia disso. Todo mundo sabe disso. Tem coisa que a gente sabe e mesmo assim faz.
Meu reflexo na vidraça estava parado, me olhando, enquanto eu dobrava roupa.
Não piscando atrasado. Não errando a mão. Parado, terminado, pronto — como quem chegou no fim do serviço e agora só espera a assinatura.
E aí ele ergueu a mão e acenou. Devagar. Educado.
Não foi ameaça. Isso eu preciso que fique claro, porque é a parte que ainda me acorda de madrugada: não teve nada de ameaçador no aceno. Foi cordial. Foi o aceno de quem se despede no aeroporto de alguém que ama.
Foi um tchau.
Eu só não sei de qual lado do vidro estava indo embora quem.
Dirigi de volta pra cidade de manhã com o retrovisor virado pro teto — descobrindo, aliás, que é perfeitamente possível dirigir trezentos quilômetros sem retrovisor, desde que se tenha motivação adequada.
Moro de novo no apartamento. Trabalho, pago boleto, respondo mensagem. Evito água parada com a naturalidade discreta de quem evita um ex: nada de escândalo, só desvio de olhar, mudança de calçada, copo sempre até a boca ou vazio, nunca pela metade em cima da mesa.
Dá pra viver assim. Minha avó viveu sessenta anos. Anotava "hoje não olhei" como quem marca dia sem cigarro.
Só tem um detalhe que o caderno dela não previu, e eu ainda não decidi o que fazer com ele.
Tem uma cicatriz pequena na minha mão esquerda, de infância, de tombo de bicicleta. Sempre esteve lá. Aparece em foto antiga, minha mãe lembra do dia, tem até a marca do ponto.
No espelho do banheiro, todas as manhãs, meu reflexo levanta a mão junto comigo, perfeito, sincronizado, sem um atraso sequer há semanas.
A mão do reflexo não tem cicatriz nenhuma.
Eu conferi. Confiro todo dia. É o único erro que sobrou, pequeno, quase nada — e eu passo mais tempo do que devia me perguntando se é um erro que ela ainda não corrigiu...
...ou se é o único jeito que restou de alguém, do lado de lá, sinalizar que a que voltou do sítio não fui eu.



