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Caso Nº 023 — Arquivo aberto

O Peso no Peito

Ilustração do conto O Peso no Peito

Acordo sem conseguir me mexer, e a primeira coisa que penso, com aquela lógica meio boba de quem já passou por isso antes, é: ah, de novo não.

Paralisia do sono. Tenho desde adolescente, sei o protocolo de cor — respirar devagar, não entrar em pânico, esperar o corpo destravar sozinho em alguns segundos, minuto no máximo. Já aconteceu tantas vezes que virou quase rotina chata, tipo aquele parente que aparece sem avisar e fica pouco tempo.

Só que dessa vez tem uma sombra sentada na beirada da cama.

Não é sombra de objeto, não é olho cansado interpretando escuro como forma. Tem contorno definido, ombros largos, cabeça levemente inclinada na minha direção, como quem está esperando eu notar antes de fazer o próximo movimento.

Penso: ótimo, hoje o pacote veio completo.

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Tento focar a respiração, o mantra de sempre, esperando o corpo obedecer.

Não obedece. Os segundos passam e a paralisia continua firme, o que já foge do protocolo normal, porque mesmo nos episódios mais longos que já tive isso nunca passou de uns noventa segundos, tempo suficiente pra assustar e curto o bastante pra esquecer rápido depois.

A sombra não se mexe. Só continua ali, sentada, com aquela imobilidade que eu reconheço de outros lugares — de coisa que tem todo o tempo do mundo porque não é ela quem está presa.

Tento gritar. O som não sai, óbvio, porque é basicamente regra número um de paralisia do sono, mas mesmo assim eu tento, sentindo o próprio peito vibrar com o esforço de um grito que não consegue nem chegar na garganta.

A sombra vira a cabeça um pouco mais.

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Não sei quanto tempo se passa. Isso, sozinho, já é errado o suficiente pra me apavorar mais do que a própria sombra — porque paralisia do sono tem duração, tem fim previsível, tem aquela sensação física inconfundível de estar prestes a se soltar.

Essa não tem.

A sombra levanta, devagar, e vem em direção à cama com passos que eu não ouço fazer barulho nenhum no assoalho, apesar de eu saber, com a certeza de quem mora naquele quarto há anos, que aquele piso range em pelo menos três pontos específicos que ninguém consegue evitar pisando.

Ela chega na beirada da cama do meu lado. Sinto o colchão afundar — peso real, físico, do tipo que corpo comum produz — e uma mão se apoia perto do meu ombro, dedos longos demais pra proporção normal de mão humana.

Tento fechar os olhos. Não consigo nem isso.

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— Você sabe que isso não é normal, né — a sombra fala, e a voz sai baixa, quase gentil, do tipo de tom que médico usa pra dar notícia ruim devagar.

Quero perguntar o quê exatamente não é normal — a presença dela, a duração do episódio, ou alguma coisa mais ampla que eu ainda não processei — mas a boca continua travada, e a pergunta fica presa dentro de mim junto com o grito de antes.

— Paralisia normal dura pouco — ela continua, como se estivesse respondendo pergunta que eu não consegui fazer. — Porque o corpo sabe separar sono de acordado. O seu já não sabe mais fazer isso direito. Faz um tempo, na verdade.

Isso devia me assustar mais do que assusta. Ou talvez assuste tanto que meu cérebro decidiu processar em câmera lenta, protegendo alguma coisa que ainda não estou pronta pra entender por inteiro.

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Ela aproxima o rosto do meu, e mesmo sem detalhe nenhum visível onde devia ter feições, eu sinto — não vejo, sinto — que está sorrindo.

— Quer saber uma coisa engraçada? — pergunta, com aquele tom de quem está prestes a contar segredo íntimo. — Você já fez essa pergunta pra mim antes. Muitas vezes. Sempre esquece a resposta depois.

— Que pergunta — penso, com toda a força que ainda tenho disponível, na esperança idiota de que pensamento alto o suficiente vire som de algum jeito.

Ela ouve mesmo assim. Ou finge que ouve, o que talvez dê no mesmo resultado prático.

— Se você tá dormindo, acordada, ou morta.

• • •

A pergunta fica ali, suspensa, enquanto ela se afasta um pouco, ainda sentada na beirada, ainda com a mão perto do meu ombro sem chegar a tocar de verdade.

Tento me lembrar da última coisa clara antes desse momento — fui dormir, isso eu lembro, escovei os dentes, apaguei a luz, deitei do lado direito como sempre durmo. Tento lembrar do dia anterior a esse, e a memória fica mais nebulosa do que devia, os detalhes embaçando nas bordas do jeito que sonho costuma embaçar quando você tenta examinar de perto demais.

Tento lembrar se já tinha essa conversa antes. Alguma coisa dentro de mim, num lugar que eu não consigo acessar totalmente, sussurra que sim — que essa mesma sombra, essa mesma pergunta, esse mesmo peso no peito já aconteceram, talvez várias vezes, e que toda vez eu esqueço de novo assim que o episódio "termina", se é que ele algum dia realmente termina.

— Você vai esquecer dessa também — ela comenta, quase com pena. — Sempre esquece. É por isso que eu ainda consigo perguntar.

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— Mas dessa vez — ela continua, inclinando a cabeça de novo, mais perto — acho que vou te dar uma pista. Só porque você já perguntou gentil o suficiente algumas vezes.

A mão finalmente encosta no meu ombro. Não é fria como eu esperava. É morna, quase confortável, o tipo de toque que devia acalmar e em vez disso aperta alguma coisa no meu peito que eu não sei nomear.

— Presta atenção no despertador quando conseguir se mexer de novo — ela sussurra, próxima o suficiente pra eu sentir a respiração dela, se é que aquilo respira de verdade. — Se ele marcar a hora certa, você tá bem. Se não marcar...

Ela não termina a frase. Só se levanta, devagar, os passos de novo sem som nenhum no assoalho que eu sei que range.

• • •

O corpo destrava de uma vez, sem aviso, o tipo de liberação súbita que faz eu me sentar na cama ofegante, puxando ar como se tivesse ficado minutos sem respirar de verdade.

O quarto está vazio. Luz do relógio digital piscando na cômoda, números embaçados até meus olhos ajustarem ao escuro.

Fico sentada, coração disparado, tentando decidir se olho ou não olho pro despertador — porque de repente aquele gesto banal, checar as horas, virou a coisa mais aterrorizante que eu preciso fazer naquela noite.

Olho.

Os números piscam, incertos, como se o próprio relógio estivesse hesitando antes de mostrar o que tem pra mostrar.

• • •

Não vou dizer qual hora estava marcada.

Não porque seria spoiler bobo de história — porque, honestamente, não tenho certeza absoluta do que vi. Lembro de olhar. Lembro de sentir alguma coisa gelar dentro de mim ao ver os números. Não lembro, com clareza suficiente pra jurar em qualquer depoimento, se a hora batia ou não com o que devia bater.

O que lembro, com uma nitidez perturbadora, é de ter voltado a dormir logo depois — o que não faz sentido nenhum, considerando o nível de pavor que eu deveria estar sentindo, mas que aconteceu mesmo assim, como se alguma parte de mim tivesse decidido, sem me consultar, que já sabia a resposta e preferia não confirmar acordada.

Acordei de manhã na hora normal. Fui trabalhar. Vivi o dia inteiro com uma sensação vaga de que faltava alguma coisa, sem conseguir nomear o quê.

• • •

Isso foi há três semanas.

Desde então, tenho paralisia do sono quase toda noite — o que também não é normal, porque antes acontecia uma vez a cada muitos meses, não diariamente.

Às vezes vejo a sombra. Às vezes não vejo nada, só sinto o peso, só sinto que o quarto está mais cheio do que devia estar.

Parei de checar o despertador depois daquela primeira vez. Decidi, com uma covardia que eu reconheço plenamente e não me orgulho, que prefiro não confirmar de novo — porque enquanto eu não confirmar, ainda existe a possibilidade confortável de que estava tudo certo, que era só imaginação, que eu sou só uma pessoa comum com problema comum de sono que virou um pouco mais frequente por estresse.

Não vou checar de novo.

Se alguém está lendo isso achando estranho eu escrever esse relato em vez de simplesmente ir a um médico do sono, resolver com remédio, terminar com isso de vez — eu também acho estranho. Eu também não sei explicar por que não fiz isso ainda.

Só sei que, às vezes, no meio do dia, num momento qualquer sem nada de especial acontecendo, eu paro e penso na pergunta dela.

Se eu tô dormindo. Acordada. Ou morta.

E, o mais perturbador de tudo: não consigo, com convicção total, escolher nenhuma das três.

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