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Caso Nº 026 — Arquivo aberto

Debaixo da Marquise

Ilustração do conto Debaixo da Marquise

Saio de casa correndo pra jogar o lixo fora bem no momento em que o temporal desaba de vez, aquela chuva grossa de fim de tarde que transforma rua em rio em questão de minutos, e é só quando já estou na calçada, saco de lixo pingando na mão, que reparo na Dona Iris me olhando pela janela com uma expressão que eu não sei decifrar direito — não é preocupação comum de vizinha curiosa, é mais parecido com alarme contido, tipo quem vê alguém prestes a atravessar rua sem olhar mas não tem tempo de gritar antes do carro passar.

— Volta pra dentro! — ela grita, por cima do barulho da chuva, com uma urgência que soa desproporcional pra situação de saco de lixo.

— Já tô voltando, Dona Iris, relaxa!

Ela não relaxa. Continua na janela, olhando não pra mim — pra alguma coisa atrás de mim, na direção da lixeira coletiva do prédio vizinho, coberta pela marquise que se estende ao longo de toda a fachada.

Viro pra olhar também, mais por reflexo de curiosidade do que por real preocupação, porque cinco segundos atrás minha maior ameaça na vida era saco de lixo molhando o tênis.

Tem uma forma parada debaixo da marquise. Alta, imóvel, contorno impreciso na chuva forte, mas definitivamente ali, definitivamente olhando na minha direção com uma atenção que forma nenhuma sem olhos devia conseguir produzir — o que, convenhamos, é currículo impressionante pra alguma coisa que nem se deu ao trabalho de ter rosto.

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Corro pra dentro, jogando a porta e trancando com uma pressa que eu mesmo não sei justificar totalmente, porque tecnicamente não vi nada que devesse me apavorar tanto — só uma sombra parada debaixo de marquise em dia de chuva, coisa que qualquer morador de rua ou pessoa esperando o temporal passar faria, se morador de rua tivesse o hábito de ficar completamente imóvel encarando estranho por tempo indeterminado.

A Dona Iris bate na minha porta dois minutos depois, ainda ofegante da própria pressa de descer as escadas — desempenho físico impressionante pra senhora de setenta e poucos anos, registro isso mentalmente mesmo em pânico.

— Você viu ela — não é pergunta, é constatação.

— Vi alguma coisa. O que é isso?

Ela entra sem esperar convite, senta na minha sala com aquele jeito de quem precisa contar história antes que o próprio nervoso a impeça.

— A gente não sai de casa quando chove forte à noite. Regra do bairro, desde antes de eu nascer. Minha mãe me ensinou, mãe dela ensinou pra ela.

— Por quê?

— Porque ela só anda na chuva. E só se aproxima de quem ela consegue ver claro debaixo de raio.

Ótimo. Regra de segurança transmitida por três gerações e eu descobri ela só depois de já ter sido vista, o que é exatamente o timing que eu não precisava naquele momento.

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Não durmo direito naquela noite, com o barulho da chuva continuando lá fora e a explicação da Dona Iris martelando na cabeça, meio absurda demais pra levar a sério, meio específica demais pra descartar totalmente — dilema clássico de morador urbano tentando decidir se acredita em avó do prédio ou em própria educação formal.

Na semana seguinte, chove de novo — chuva mais fraca dessa vez, chuvisco mais que temporal, e eu decido, contra o próprio bom senso recém-adquirido, que chuvisco não conta como "chuva forte" o suficiente pra regra se aplicar, com aquela lógica capenga de estudante procrastinando que decide que "revisar amanhã de manhã bem cedo" conta como ter estudado hoje.

Saio pra levar o cachorro pra fazer xixi rápido, capa de chuva, guarda-chuva, tudo protegido — pra mim, pelo menos, porque não tenho como colocar capa de chuva em cachorro sem sofrer arranhão substancial.

No fundo do quintal comunitário, perto da área coberta onde os moradores guardam bicicleta, vejo ela de novo.

Mais perto dessa vez. Não debaixo de marquise agora — parada no meio do próprio quintal, sem nenhuma cobertura sobre ela, completamente exposta à chuva fraca, e mesmo assim imóvel do mesmo jeito, como se chuva não tocasse naquele corpo do jeito que toca em corpo normal, detalhe que qualquer previsão do tempo se recusaria a explicar tecnicamente.

O cachorro para de puxar a coleira. Fica rígido, rosnando baixo, olhando pra mesma direção que eu — primeira vez que aquele animal demonstra instinto de sobrevivência superior ao meu, o que é humilhante considerando que ele come ração do chão faz cinco anos sem verificar validade.

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Volto pra dentro rápido, o cachorro tremendo tanto quanto eu, e passo a semana seguinte evitando qualquer saída em dia de previsão de chuva, checando aplicativo de tempo com uma dedicação nova e nervosa que meteorologista nenhum jamais recebeu de mim antes daquela semana.

Funciona por quinze dias.

No décimo sexto, meu filho de sete anos sai correndo atrás da bola que rolou da varanda coberta pro quintal, num momento de chuva que eu jurava ter avaliado como "só chuvisco, não chuva forte" antes de ele escapar da minha atenção por três segundos que bastaram — três segundos, ironicamente, tempo suficiente pra qualquer aplicativo de bem-estar familiar recomendar "respire fundo" e completamente insuficiente pra qualquer coisa útil de verdade acontecer.

Corro atrás dele, o coração explodindo, gritando o nome dele mais alto que o próprio trovão que estala naquele exato instante.

O relâmpago ilumina o quintal inteiro por uma fração de segundo — tempo suficiente pra eu ver, debaixo da marquise que cobre a área de bicicletas, ela virando o rosto na nossa direção, o movimento rápido e preciso demais pra qualquer coisa que devesse estar imóvel a maior parte do tempo.

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Alcanço meu filho antes de qualquer coisa acontecer — pelo menos acho que alcanço, porque o resto daquele momento fica embaçado na memória, adrenalina apagando detalhe fino demais pra reconstituir com certeza depois.

Sei que peguei ele no colo. Sei que corri de volta pra dentro. Sei que tranquei a porta com uma força desproporcional ao tamanho da fechadura, o tipo de força que ginásio nenhum ensina você a acessar em condição normal.

Sei que, olhando pela janela minutos depois, ainda vi ela lá fora — não mais debaixo da marquise, agora parada bem no meio do quintal alagado, olhando pra minha janela específica, com uma paciência que eu reconheço, tarde demais, como característica de coisa que sabe exatamente onde moro e não tem pressa nenhuma de resolver isso numa noite só.

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A Dona Iris me visita de novo no dia seguinte, trazendo um bolo que eu não tenho estômago pra comer, e conta o resto da história que tinha guardado da primeira conversa.

— Ela não pega todo mundo que vê. Só quem ela vê de novo, num raio novo, depois da primeira vez. — Pausa, olhando pras próprias mãos. — Meu marido viu ela duas vezes. Não teve terceira.

— O que aconteceu com ele?

Ela não responde direito. Só diz que "chuva forte hoje em dia é coisa que a gente aprende a temer mais que trovão", e vai embora sem terminar o bolo que trouxe — coisa que, considerando o contexto da conversa, eu também não tinha mais estômago pra insistir que ela terminasse.

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Contei duas vezes agora. Ela já me viu duas vezes sob raio, e meu filho quase virou o alvo de uma terceira aproximação que eu não sei se realmente evitei ou só adiei — distinção que, sinceramente, não sei se muda alguma coisa prática no final das contas.

Mudei rotina de casa inteira em função de previsão do tempo. Compramos gerador, porque energia cai em temporal e eu não confio mais em ficar no escuro durante chuva forte. Instalamos cortina blackout em toda janela que dá pro quintal, pra reduzir qualquer chance de raio revelar alguma coisa que eu prefiro nunca mais ver claramente — investimento em segurança residencial que nenhuma seguradora reconheceria como categoria válida de sinistro, mas que pra mim virou prioridade orçamentária número um.

Não sei se isso resolve. A Dona Iris não sabe também — trinta anos morando aqui e ela só sabe a regra, nunca soube a solução completa, só o jeito de adiar o inevitável um pouco mais.

Essa semana a previsão marca chuva forte pra sexta.

Já decidi: ninguém sai de casa. Ninguém, nem pra lixo, nem pra cachorro, nem por motivo nenhum que pareça urgente o suficiente pra valer o risco — o cachorro que aguente, ele já sobreviveu cinco anos comendo ração do chão, vai sobreviver a uma noite de bexiga cheia.

Só espero que "dentro de casa" continue sendo distância suficiente, porque depois do que vi no quintal naquela noite — ela olhando direto pra minha janela, sem pressa, com aquela paciência de quem já esperou décadas por moradores mais impacientes que eu — não tenho mais certeza nenhuma de que parede e telhado ainda contam como proteção de verdade.

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