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Caso Nº 010 — Arquivo aberto

O Ritual do Elevador

Ilustração do conto O Ritual do Elevador

Três taças de vinho é o número exato em que eu acho corajoso fazer coisa idiota e ainda lembro de gravar pra postar depois.

Foi assim que acabei sozinha no elevador do prédio do Fábio, celular apoiado no espelho, os outros quatro rindo lá embaixo no saguão, enquanto eu decorava a sequência do desafio que a internet jurava ser "só brincadeira, nunca dá em nada".

Quarto andar. Primeiro. Quinto.

No quinto a porta abriu numa mulher parada, olhando pro chão, sem reação nenhuma quando eu disse "não" do jeito que a regra idiota mandava.

A porta fechou com ela ainda lá fora. Ninguém tentou impedir.

Achei aquilo hilário na hora. Bebida faz isso com julgamento.

• • •

Segundo andar. Fechar três vezes com a porta já fechada.

Esperei.

Nada aconteceu por um tempo comprido demais pra ser confortável e curto demais pra eu desistir — aquele intervalo exato em que o cérebro começa a contar segundos sem você pedir, um, dois, três, tentando calcular quanto tempo é razoável ficar parado dentro de caixa de metal esperando alguma coisa acontecer ou não acontecer.

As luzes piscaram.

Uma vez, rápido, quase imperceptível. Prendi a respiração sem decidir prender.

Piscaram de novo, e dessa vez fiquei olhando fixo pro teto do elevador, esperando a próxima, contando no escuro entre uma e outra, e na terceira vez ficaram apagadas por tempo suficiente pra o vinho no meu estômago virar outra coisa bem menos divertida.

Quando acenderam de novo, fizeram isso devagar — não o click instantâneo de lâmpada normal, um aumento gradual de claridade que dava tempo demais do que eu queria pra ver o painel de andares se revelando aos poucos.

Mostrava um número que aquele prédio não tinha.

A porta abriu sozinha, sem o som de sino que ela sempre fazia.

• • •

Fiquei parada olhando pro corredor do outro lado por um tempo bom antes de decidir se ia sair.

Comprido demais pra andar residencial normal. Luz vinda de lugar nenhum específico, sem sombra. Números nas portas que meu cérebro tentava processar e desistia no meio do processo.

Dei um passo pra fora.

A porta começou a fechar atrás de mim antes de eu terminar de decidir se aquilo era boa ideia. Virei tarde demais, só a tempo de ver a fresta desaparecer.

• • •

Testei uma maçaneta qualquer. Minha mão atravessou a superfície como se fosse fumaça pintada de porta.

Recuei, e foi só então que percebi o silêncio ao redor — não silêncio de lugar vazio, silêncio de lugar que estava prestando atenção.

Andei. O corredor não acabava, só mudava de leve — carpete numa cor diferente, os mesmos números impossíveis organizados de outro jeito — a sensação nítida e enjoativa de estar me movendo entre versões do mesmo prédio que nunca deveriam existir.

Foi numa dessas voltas que ouvi a respiração.

Não minha. Vinha de uma das portas — a única, entre todas, que estava entreaberta, com uma fresta de luz amarelada escapando por ela.

Não devia ter olhado. Olhei.

• • •

Tinha gente lá dentro.

Sentadas, em fileira, encostadas na parede como quem espera consulta médica que nunca chama o próprio nome. Cinco, talvez seis pessoas, roupas normais, posturas normais, o tipo de gente que você cruzaria no metrô sem reparar.

Exceto que nenhuma tinha olhos.

Não digo fechados. Digo ausentes — as órbitas lisas, seladas, como se nunca tivesse existido olho ali pra começar, a pele esticada por cima do vazio com uma naturalidade que era, sem disputa nenhuma, a coisa mais errada que eu já vi na vida.

Uma delas virou o rosto na minha direção.

Sem olho nenhum pra me ver, e mesmo assim eu senti, com absoluta certeza, que ela sabia exatamente onde eu estava parada.

• • •

Corri sem rumo, sem plano, batendo em maçanetas fantasmas, gritando um nome que não adiantava gritar porque não tinha ninguém ali que pudesse ouvir e vir.

Os passos atrás de mim não corriam. Andavam. Constantes, o volume aumentando devagar, o tipo de perseguição que não precisa pressa porque sabe que a presa cansa primeiro.

Virei um corredor. Outro. Perdi a noção de quantas vezes virei.

E então não tinha mais chão.

• • •

Não lembro de cair. Lembro de escuro, e de acordar — se é que "acordar" é a palavra certa pra descrever o que aconteceu — no meio de um corredor diferente dos outros, mais frio, com o corpo doendo de um jeito genérico que não apontava pra machucado específico nenhum.

Fiquei ali, deitada, o tempo que levou pra minha respiração normalizar.

Não sei quantas vezes desmaiei de novo depois disso. Perdi a conta dos corredores, dos elevadores que levavam pro lugar errado, das portas entreabertas que eu aprendi, rápido, a nunca mais espiar.

Em algum momento parei de tentar sair.

• • •

Encontrei ela de novo — a primeira, a que tinha virado o rosto na minha direção — sentada sozinha num corredor vazio, longe das outras, como se tivesse sido banida da própria fileira por algum motivo que eu não tinha capacidade de compreender.

Ela esticou a mão.

Não pediu nada em voz alta. Não precisou. Eu já sabia, olhando pras órbitas vazias dela, exatamente o que estava sendo oferecido em troca de quê.

Fiquei um tempo comprido só olhando pra mão estendida, pensando em casa, no Fábio, nos outros quatro rindo no saguão numa vida que já parecia distante demais pra ser minha.

Não sei dizer que decisão exatamente eu tomei. Só sei o que aconteceu depois.

• • •

Não vejo mais nada com precisão desde então — não os corredores, não as pessoas sentadas em fileira, não a diferença entre um andar impossível e outro.

Mas sinto o caminho. Sinto onde as portas ficam, mesmo sem enxergar, com uma clareza que os olhos nunca me deram enquanto eu ainda tinha.

Ando por aqui procurando a saída — porque ainda acredito que existe uma, em algum corredor que eu ainda não senti direito, atrás de alguma porta que eu ainda não toquei.

Os outros da fileira não procuram mais. Só esperam.

Eu ainda procuro.

É a única coisa que ainda é minha.

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