Chove há três dias na Vila Esperança, e chuva de três dias em rua sem asfalto decente vira lama, poça permanente e aquele cheiro de esgoto que a prefeitura promete resolver a cada eleição com a mesma sinceridade de quem promete parar de fumar amanhã.
Moro ali desde que nasci. Conheço cada buraco de olho fechado, sei qual poste está torto o suficiente pra cair um dia desses, sei distinguir barulho de gato brigando de barulho de gente aprontando.
O que eu não sabia — e essa é, no fundo, a única razão de você estar perdendo seu tempo lendo isso — era reconhecer pegada errada quando ela decide aparecer na porta da minha própria casa.
Vi pela primeira vez numa terça de manhã, saindo pra comprar pão, com aquele automatismo de rotina que a gente só percebe ter perdido depois que perde.
Marca de pé descalço na lama. Clara, definida, tamanho adulto.
Os dedos apontavam pra dentro do meu portão.
O rastro, seguindo pra trás dela, ia embora pela rua.
Achei estranho o suficiente pra fotografar, não estranho o suficiente pra me importar de verdade. Isso, em retrospecto, foi o primeiro dos vários erros de avaliação que essa história inteira documenta com bastante paciência.
Não sou de acreditar em muita coisa — trabalho, chego cansado, durmo cedo, vida sem espaço sobrando pra superstição de vizinho entediado. Mas doze anos de Vila Esperança ensinam a reconhecer detalhe fora do padrão, porque nesse bairro detalhe fora do padrão costuma significar problema de gente, não problema de outro mundo.
Mandei a foto pro grupo da rua com uma legenda que hoje soa quase cômica de tão inofensiva: *"Tem gente aprontando de novo, cuidado."*
Dona Ivone respondeu com áudio rindo, falando que era moleque brincando de fantasma. Seu Aderaldo, o mais velho do quarteirão, ficou "visto por último" há três dias sem responder — detalhe que eu só fui processar depois, quando já não servia mais pra nada além de arrependimento tardio.
A segunda pegada apareceu na quinta, mais perto ainda — direto na calçada em frente à minha janela, como se a distância entre nós fosse questão de agenda, não de acaso.
Mesma lógica invertida. Dedos pra dentro, rastro indo embora.
Só que dessa vez havia uma segunda fileira cruzando a primeira, indo na direção oposta com a mesma inversão — dedos pra fora, rastro vindo em direção à minha casa.
Como se tivessem dois bichos.
Ou o mesmo bicho fazendo o caminho duas vezes, ida e volta, sem nunca precisar virar o corpo pra virar o pé — o que é, convenhamos, um nível de eficiência anatômica que eu preferia continuar desconhecendo pelo resto da vida.
Fiquei olhando aquilo por um tempo bom demais, com aquele arrepio de nuca que todo morador de bairro esquisito reconhece antes mesmo de o cérebro terminar de formular a frase "vai embora daqui".
Fui trabalhar assim mesmo. Conta não espera medo se resolver sozinho.
Contei pro Bira, meu vizinho, que riu do mesmo jeito genérico que todo mundo tinha rido antes dele — aquele riso de quem prefere não pensar demais no assunto porque pensar demais dá trabalho.
— Isso é Curupira, rapaz. Coisa de mato. Aqui não tem mato há vinte anos.
— Então por que tá tendo pegada?
Ele deu de ombros com a elegância de quem transforma ignorância em filosofia de boteco. Fui embora sem resposta melhor, e com a sensação incômoda de que "não sei" e "não quero saber" tinham decidido, naquele bairro inteiro, virar sinônimos.
Naquela noite ouvi passos molhados dentro de casa.
Não "achei que ouvi". Ouvi — aquele som exato de pé descalço em chão molhado, espaçado, andando devagar pelo corredor entre meu quarto e a cozinha, com a pontualidade de quem tem hora marcada.
Acendi a luz. Corredor vazio, chão seco, tudo impecavelmente normal do jeito que só coisa muito anormal consegue parecer.
Apaguei. Os passos continuaram, mais um pouco, seguindo em direção à cozinha.
Só que a direção do som — mais fraco, mais distante — não batia com a lógica de espaço nenhuma, porque quando abri a porta de novo o barulho vinha de trás de mim, do lado errado, como se som e movimento tivessem combinado, silenciosamente, discordar só pra me irritar.
Na sexta, seu Aderaldo apareceu morto.
Vou dizer sem suavizar, porque o bairro inteiro já sabe e discrição a essa altura seria só má vontade minha: encontraram ele no próprio quintal, de bruços, com as costas abertas de um jeito que a perícia da cidade não conseguiu explicar direito no laudo — corte comprido, limpo demais pra ser faca comum, indo da nuca até a base da coluna, como se alguma coisa tivesse aberto ele só pra conferir o que tinha dentro e decidido, com bastante calma, que não gostou do resultado.
O detalhe que ficou girando no grupo da rua, entre um áudio de choro e outro de indignação performática, foi sobre as pegadas ao redor do corpo.
Todas apontando pra dentro da casa dele.
Nenhuma saindo.
Isso é o tipo de simetria que eu preferia continuar não entendendo.
Fui até lá antes da perícia terminar de isolar o quintal, movido por aquela curiosidade idiota que já matou personagem demais nesse tipo de história pra eu não saber, teoricamente, que devia ter ficado em casa. Teoria e prática, como sempre, mantendo distância respeitosa uma da outra.
As pegadas formavam um círculo perfeito ao redor do corpo — dúzias delas, sobrepostas, como se aquilo tivesse circulado a vítima repetidas vezes antes de decidir agir, ou depois, sem pressa nenhuma, admirando o próprio trabalho com o orgulho de quem entrega serviço bem-feito.
Reparei que nenhuma pegada tinha peso de calcanhar de verdade — fundas na frente, quase inexistentes atrás, como se aquilo andasse na ponta dos dedos, ou como se os pés estivessem, de fato, instalados ao contrário no corpo, e a "frente" que a gente enxerga no rastro fosse, na verdade, sempre a direção real de onde tinha vindo.
Pensei, com aquele humor ácido que aparece nos piores momentos porque é a única defesa disponível: aposto que ela também erra o caminho pro banheiro achando que tá indo pra frente.
Não ajudou. Piadas raramente ajudam quando tem cadáver no meio, mas fazem o próprio pânico ficar mais suportável por alguns segundos.
Não dormi direito depois disso. Quem dormiria, exceto talvez alguém com problema sério de prioridade.
Passei a trancar tudo — porta, janela, o vão da churrasqueira que nem gato magro passaria. Comprei lanterna nova, pilha reserva, todo aquele kit de precaução que parece exagero até o dia em que para de parecer.
Na terceira noite depois da morte do seu Aderaldo, os passos molhados voltaram — mas dessa vez não vinham de lugar específico. Vinham de todo lado, um pouco de cada direção, como se a casa inteira tivesse encharcado de pegada invisível se movendo em rotas diferentes ao mesmo tempo, numa coreografia que eu definitivamente não tinha me inscrito pra assistir.
Fiquei parado no meio do quarto, luz apagada, o coração competindo em volume com o barulho lá fora.
Foi quando ouvi o arranhar na porta.
Baixinho. Quase educado — o tipo de arranhar que não é desespero de quem quer entrar à força, é a paciência tranquila de quem sabe que a porta, mais cedo ou mais tarde, vai ceder sozinha.
Não abri. Fiquei sentado no chão, encostado na cama, lanterna apagada porque acender parecia, por algum instinto que eu não soube justificar em voz alta, a pior decisão possível daquele momento específico.
O arranhar parou. Esperei mais um tempo comprido.
Fui até a janela, só uma fresta, o suficiente pra espiar.
A pegada estava lá, fresca, na porta de casa, dedos apontando pra dentro.
E o rastro, dessa vez, não ia embora.
Terminava ali. Bem na soleira.
Como se tivesse decidido, finalmente, que já ia embora vezes suficientes pra fingir educação.
Fiz a burrice inevitável que todo protagonista desse tipo de história comete e que eu jurava, até aquela noite específica, que nunca cometeria: abri a porta.
Não por coragem. Porque a alternativa — esperar sem saber quando, sem controle nenhum sobre o momento — tinha virado insuportável mais rápido do que qualquer medo direto conseguiria ser.
Rua vazia. Chuva fina, poste de luz fraca, o esgoto de sempre escorrendo em algum lugar longe o suficiente pra ser só ruído de fundo.
Segui o rastro com a lanterna, porque aparentemente burrice tem camadas e eu ainda não tinha esgotado as minhas, até o terreno baldio que o bairro inteiro usa só pra descartar entulho e más decisões.
Debaixo do pé de manga solitário no meio do terreno, ouvi a respiração.
Não minha. Perto, baixa, regular, vindo de um ponto que a copa da árvore escondia da luz.
Apontei a lanterna pra cima.
Não vou tentar reconstruir com precisão o que estava agachado ali entre os galhos mais baixos, porque minha cabeça, até hoje, se recusa a organizar aquilo numa imagem que eu consiga repetir sem o estômago protestar. Direi só: forma geral de gente. Pele escura, molhada, brilhando errado sob a luz da lanterna. E os pés — o único detalhe que a luz pegou com clareza suficiente antes de tudo acelerar rápido demais — virados exatamente como eu já desconfiava.
Pra trás. O corpo de frente pra mim, os pés apontando na direção oposta, presos ao tornozelo num ângulo que nenhuma anatomia decente deveria tolerar sem quebrar.
Ela pulou — porque alguma coisa na postura me fez pensar "ela", sem nenhum motivo lógico que eu conseguisse defender depois.
Não veio andando. Cruzou os três metros entre nós antes de eu conseguir recuar um passo inteiro.
Corri, sem dignidade nenhuma, tropeçando em raiz e lixo, sentindo o barro roubar velocidade a cada passada. Ouvi ela atrás de mim — não correndo do jeito que gente corre, mais um deslizar rápido, como se o pé virado ao contrário servisse melhor pra empurrar do que pra pisar.
A garra rasgou a parte de trás da minha camisa e abriu um risco de dor quente na pele, do tipo que só é processado como corte de verdade um segundo depois de já ter acontecido.
Não parei pra medir o estrago. Corri mais, com aquele único pensamento coerente sobrando no meio do pânico: *pelo menos agora tenho história boa pra contar, se sobreviver pra contar alguma coisa.*
Cheguei em casa com a camisa grudada de sangue nas costas e o coração fazendo barulho suficiente pra acordar o quarteirão. Tranquei a porta duas vezes, encostei um armário na frente por uma precaução que provavelmente não servia pra nada contra o que tinha acabado de me perseguir.
Fiquei sentado no chão da sala a noite inteira, sangrando um corte que doía menos do que devia — detalhe que, em retrospecto, era provavelmente o mais assustador de todos, porque ferimento que não dói do jeito certo geralmente significa que alguma coisa além do corte físico também ficou pra trás, alojada em algum lugar que eu não sei nomear.
De manhã, limpando o machucado no espelho do banheiro, contei quatro linhas paralelas nas costas, já fechando, já cicatrizando rápido demais pra ferida daquele tamanho.
E no chão do banheiro, perto da porta, uma pegada molhada. Fresca. Dedos apontando pra dentro.
Rastro nenhum saindo.
Não conto mais essa história esperando que alguém acredite — o bairro decidiu, coletivamente, que foi assalto que deu errado com o seu Aderaldo, e que meu corte nas costas foi "cachorro do vizinho, com certeza", apesar de eu não conhecer vizinho nenhum com cachorro do tamanho daquela garra.
Mudei as fechaduras. Não adiantou nada — a pegada do banheiro, a primeira, ainda está lá, não desaparece, não seca, permanece fresca todo santo dia, não importa quanto eu esfregue, como se o chão tivesse decidido, por conta própria, guardar aquilo como lembrança permanente.
Às vezes ainda ouço o som do pé molhado andando pelo corredor, com aquela discrepância cruel entre som e direção que aprendi, do jeito mais difícil possível, a nunca mais tentar entender.
Parei de seguir rastro. Aprendi isso, pelo menos — pequena vitória num currículo que, de resto, é só uma lista de decisões questionáveis.
Estou terminando de escrever isso agora, tarde da noite, com a chuva voltando lá fora depois de uns dias de trégua.
Levantei os olhos da tela por hábito, aquele gesto automático de quem checa a janela sem esperar encontrar nada.
Tinha alguma coisa parada do lado de fora do vidro.
Só a sombra, no início — alta demais, imóvel, encostada contra a escuridão da rua como quem sempre esteve ali e só decidiu, hoje, deixar de se esconder.
E então os olhos.
Dois pontos pequenos e úmidos, brilhando com uma luz própria que não refletia poste nenhum, olhando direto pra dentro de casa, direto pra mim, com a paciência tranquila de quem já esperou tempo suficiente e decidiu, finalmente, que hoje é o dia.
Não vou fechar a cortina.
Acho que, no fundo, sempre soube que essa história não ia terminar com "e eles viveram felizes".
Só espero que doa menos do que doeu com o seu Aderaldo.



