Rolo o feed de conversas antigas às duas da manhã, insônia de terça sem motivo específico — a variedade mais chata de insônia, aquela que nem tem ansiedade decente pra justificar, só o cérebro decidindo unilateralmente que dormir é opcional essa noite — e paro no nome do André, parado ali há dois anos, foto de perfil congelada num sorriso de churrasco de família, status "visto por último hoje às 03h14" travado desde o dia em que ele desapareceu.
Ninguém nunca soube o que aconteceu. Saiu do trabalho numa sexta comum, não chegou em casa, celular localizado por último numa torre perto do próprio bairro dele, e depois nada — nenhuma pista, nenhum corpo, nenhuma explicação que os dois anos de investigação policial conseguiram produzir além de "caso em aberto", que todo mundo sabe, na prática, significar caso arquivado com licença pra reabrir se algum dia aparecer alguma coisa nova, o que basicamente nunca acontece fora de documentário de streaming.
Fico olhando pro nome dele por um tempo longo, aquela dor específica que não passa de vez, só aprende a ficar quieta na maior parte do tempo.
Mando mensagem. Não porque acho que ele vai ler — porque preciso desabafar com alguém, e ele era a pessoa certa pra esse tipo específico de desabafo antes de tudo acontecer, e aparentemente terapeuta às duas da manhã de terça não existe, então sobra WhatsApp pra fantasma.
*"Sinto sua falta, cara. Hoje faz dois anos amanhã."*
Deveria ficar cinza. Um tique só, mensagem enviada mas não entregue, servidor confirmando que o número não está mais ativo há tempo suficiente pra qualquer coisa nova nunca mais chegar até ele.
Fica azul.
Os dois tiques, entregues e lidos, aparecem antes mesmo de eu processar o que estou vendo — não em minutos, em segundos, rápido demais pra qualquer explicação técnica banal de celular reativado por engano ou número reciclado pra outro dono, e definitivamente rápido demais pro tipo de coincidência que eu consigo digerir sem surtar um pouquinho.
Fico paralisada olhando pra tela, o coração acelerando de um jeito que mistura esperança idiota com terror genuíno, as duas emoções competindo pelo mesmo espaço no peito sem nenhuma vencer claramente, numa disputa emocional que nenhum manual de luto menciona como possibilidade.
O status "visto por último" atualiza.
03h14. A mesma hora exata de dois anos atrás.
Não durmo mais aquela noite. Fico com o celular na mão, atualizando o app compulsivamente, vendo o status voltar a travar em "visto por último hoje às 03h14" como se nada tivesse acontecido, como se aquele segundo de atividade nunca tivesse existido pra qualquer pessoa que checasse depois.
Mas eu vi. Vi os tiques azuis, vi o status mudar em tempo real, e nenhuma dessas provas serve pra absolutamente nada porque não tenho como printar comportamento de aplicativo pra apresentar como evidência sem soar como pessoa que precisa urgentemente de acompanhamento psiquiátrico.
Na noite seguinte, fico acordada de propósito, esperando três da manhã chegar, celular na mão, olhando fixo pro perfil dele com a dedicação de quem assiste final de campeonato importante.
03h13. Nada muda.
03h14. O status pisca — "online" por meio segundo, depois de volta pra "visto por último hoje às 03h14", como se tivesse checado o próprio celular por um instante mínimo antes de desligar de novo.
Começo a mandar mensagem toda noite, sempre no mesmo horário, sempre esperando o momento exato em que ele fica "online" por aquele meio segundo — rotina que, se contada em voz alta pra qualquer pessoa saudável, soaria exatamente como o início de documentário de crime real que ninguém quer estrelar.
Na terceira noite, recebo resposta.
*"Oi."*
Só isso. Uma palavra, sem pontuação extra, sem emoji, exatamente do jeito seco que André escrevia quando estava cansado ou distraído — detalhe pequeno demais pra ser imitação genérica, específico demais pro meu cérebro conseguir descartar como coincidência.
*"André? Onde você tá?"*
Demora pra responder. Quando responde, a mensagem não faz sentido linear nenhum:
*"Não sei dizer direito. É tipo estar em todo lugar e nenhum ao mesmo tempo."*
Resposta que soaria profunda de mais numa citação de Instagram e apavorante quando vem de contato oficialmente desaparecido há dois anos.
As conversas continuam por duas semanas, sempre entre 03h14 e 03h20 aproximadamente, sempre curtas, sempre com aquela qualidade estranha de quem está tentando descrever experiência que não cabe em vocabulário humano normal.
Pergunto se ele está bem. Ele desvia. Pergunto se sabe o que aconteceu com ele naquela sexta. Desvia de novo, com uma consistência que começa a parecer menos "trauma impedindo lembrança" e mais "instrução específica pra não revelar certos detalhes", tipo funcionário novo repetindo script de atendimento antes de aprender a improvisar.
Numa das conversas, decido testar.
*"Lembra do apelido que a gente tinha pro professor de física do ensino médio?"*
Não tínhamos apelido nenhum pra esse professor. Invento a pergunta na hora, testando.
*"Claro. Sempre lembro das nossas piadas."*
Ele não tem resposta específica. Só confirma genericamente, exatamente do jeito que entidade sem acesso à memória real, mas com acesso suficiente à minha própria fala pra reconstruir padrão plausível, faria — e eu, honestamente, tinha esperado um teste menos eficiente que esse pra confirmar minha suspeita.
Paro de acreditar que é o André de verdade naquela noite, mas — e essa é a parte que eu não sei explicar pra ninguém que ainda não passou por isso — continuo mandando mensagem assim mesmo, porque a alternativa é voltar pro silêncio de dois anos sem resposta nenhuma, e mesmo resposta falsa preenche um vazio que estava me consumindo por dentro havia tempo demais.
Pesquiso sobre o fenômeno, madrugada adentro, num fórum obscuro que já visitei antes por outros motivos parecidos e sempre me arrependo de visitar de novo, o tipo de site que devia vir com aviso de saúde mental antes do primeiro clique.
Encontro relato similar — várias pessoas diferentes, sempre horário específico da última atividade registrada do desaparecido, sempre conversa que começa reconfortante e vai ficando, aos poucos, mais estranha, mais insistente, sempre terminando do mesmo jeito.
*"Ele vai pedir pra você ir até onde ele foi visto por último. Não vá."*
Aviso claro e direto, exatamente o tipo de instrução simples que eu, obviamente, ia seguir à risca.
Ele pede na terceira semana.
*"Queria muito te ver de verdade. Não só mensagem. Vem no lugar onde... você sabe. Onde tudo aconteceu."*
O prédio onde a torre de celular localizou o sinal dele pela última vez, dois anos atrás — construção abandonada perto do bairro dele, interditada desde antes mesmo do desaparecimento, que a polícia vasculhou sem encontrar rastro nenhum na época.
Não vou. Lembro do aviso do fórum, lembro da minha própria desconfiança crescente sobre a autenticidade dessas conversas, e decido, com um esforço de vontade que quase dói fisicamente, que não vou dar esse passo final — vitória rara de bom senso sobre saudade, que eu deveria ter comemorado mais na hora.
Ele não insiste imediatamente. Só espera, com aquela paciência que eu já reconhecia como característica padrão desse tipo de presença.
Duas noites depois, recebo mensagem não dele — de outro amigo em comum, o Marcelo, que também conheceu o André na faculdade.
*"Oi! Nossa, saudade! Cheguei aqui."*
Chegou onde, pergunto.
*"No prédio. O André me chamou. Falou que você ia vir também."*
O coração para por um segundo inteiro.
*"Marcelo, NÃO vai. Sai daí agora."*
Ele não responde mais. O aplicativo mostra "digitando..." por um tempo comprido demais pra frase curta nenhuma, e depois para, sem nenhuma mensagem nova chegando.
Visto por último: aquela mesma madrugada, mesmo prédio, geolocalização confirmando presença no local exato onde André sumiu dois anos atrás.
Não tive coragem de ir atrás dele. Ainda não sei se essa covardia foi certo ou errado — sei só que, se eu tivesse ido no lugar do André naquela noite, provavelmente teria sido eu chamando o próximo nome da lista agora, em vez do Marcelo, e essa contabilidade macabra é o tipo de coisa que eu evito fazer em voz alta perto de qualquer pessoa que ainda me considere estável.
Bloqueei o número do André. Não adiantou — três dias depois, recebi mensagem de um número novo, sem nome salvo, com a mesma estrutura seca de fala.
*"Marcelo já chegou. Foi bom te ver de novo, mesmo que só um pouquinho."*
Não respondi. Bloquear parece, cada vez mais, gesto simbólico de eficácia questionável.
Mas ainda checo, às vezes, contra toda vontade racional, o horário 03h14 — e ainda sinto aquele mesmo misto de esperança e terror competindo pelo mesmo espaço no peito, sabendo, com uma certeza cada vez mais sólida, que uma dessas madrugadas o nome que vai me chamar pra "ir até o lugar" pode ser o meu próprio, escrito por alguém que ainda não sumiu, mas que já está quase.



