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Caso Nº 020 — Arquivo aberto

Debaixo da Mesa

Ilustração do conto Debaixo da Mesa

A tela do monitor mostra o Theo brincando no tapete da sala, e embaixo da mesa de centro, encostada na sombra que o móvel projeta, tem uma coisa que não devia estar ali.

Congelo com a colher de pau na mão, a panela borbulhando esquecida atrás de mim. A imagem é pequena, granulada, aquela qualidade de câmera de babá eletrônica que já é ruim em condição normal e que agora, especificamente agora, escolhe ser ainda pior — mas dá pra ver. Pernas. Mais que quatro. Dobradas naquele ângulo articulado que aranha tem e que nenhum outro bicho tem, só que essa coisa tem o tamanho errado, grande demais pra caber embaixo de mesa de centro e ainda assim, de algum jeito, cabendo.

Não se move. Só está ali, parada, na sombra, a uns três metros do meu filho de seis meses que está deitado de barriga pra cima balançando as próprias pernas no ar, rindo pra um chocalho que não faz barulho nenhum.

Penso na Bianca do 4, cujo bebê sumiu de dentro do próprio berço faz cinco dias, sem sinal de arrombamento, sem câmera de rua registrando ninguém entrando ou saindo daquela casa. Penso no filho do casal da esquina, que ficou doente do nada duas semanas atrás e morreu num hospital sem que nenhum exame conseguisse explicar o que exatamente tinha falhado dentro daquele corpinho de quatro meses.

Largo a colher. Corro.

• • •

A sala está vazia quando chego, exceto pelo Theo, que vira o rosto pra mim com aquele sorriso largo e babado de bebê que não sabe que a mãe acabou de correr feito louca por causa de nada.

Olho embaixo da mesa. Poeira. Um brinquedo de morder esquecido. Nada mais.

Pego o Theo no colo com uma urgência que ele não entende, sentindo o corpinho quente e inteiro contra o meu peito, contando mentalmente os dedos das mãos dele como se contar fosse confirmar que estava tudo intacto ainda. Ele se contorce, quer o chão de volta, quer o chocalho.

Não devolvo dessa vez. Fico com ele no colo, parada no meio da sala, olhando pra cada sombra que a luz da tarde consegue produzir nos móveis, enquanto minha cabeça monta e desmonta a mesma pergunta sem parar: será que aquilo morde? Será que foi aquilo que levou o bebê da Bianca? Será que foi aquilo que fez o filho do casal da esquina morrer sem explicação nenhuma que a medicina soubesse dar?

O fogo continua aceso na cozinha. A panela borbulhou até quase secar.

Desligo. Não sei há quanto tempo ficou ali sem ninguém olhando, e essa ausência de tempo controlado é exatamente o tipo de coisa que, nesse ponto, me apavora mais do que qualquer coisa concreta.

• • •

Passo a próxima hora sem tirar o olho do monitor, o corpo inteiro numa tensão que não relaxa nem um centímetro.

Vejo de novo às cinco da tarde. Sala, embaixo da estante dessa vez, lugar novo, como se estivesse explorando a casa em vez de ficar fixa. As pernas se dobram e esticam devagar, num movimento que parece testar distância, testar quanto tempo levaria pra alcançar o Theo se decidisse.

Corro com o coração explodindo, gritando o nome dele antes mesmo de chegar na porta da sala, como se meu grito pudesse fazer alguma diferença contra uma coisa que aparentemente não faz barulho nenhum quando se move.

Some. De novo.

Pego o Theo, verifico a pele dele inteira, procurando marca de mordida, de arranhão, de qualquer coisa que confirme contato físico que eu não vi acontecer. Nada. Ele ri, acha graça da mãe apalpando ele por todo lado, sem entender que aquilo não é brincadeira nova.

• • •

Vejo de novo às seis da tarde. Cozinha, atrás do fogão, visível só pelo reflexo estranho no metal do eletrodoméstico.

Corro. Some.

Vejo de novo às seis e meia, dessa vez no quarto, embaixo do berço vazio — porque o Theo está comigo na cozinha agora, recusando ficar longe do meu colo por mais de cinco minutos seguidos, minha paranoia já tendo virado política oficial da casa sem nenhuma votação necessária.

Ligo pro meu marido. Ele não atende. Ligo pra Bianca do 4, pra perguntar — sem saber direito o que ia perguntar — se ela tinha visto alguma coisa estranha antes do bebê dela sumir.

Ela atende chorando, ainda em choque, e entre soluços fala que sim, tinha visto sombra estranha na sala umas semanas antes, achou que era só cansaço de mãe de recém-nascido, ninguém mais tinha visto, ninguém acreditou nela, e agora o filho dela sumiu e ninguém sabe de nada e a polícia trata como sequestro convencional porque não existe categoria de boletim de ocorrência pra "aranha impossível levou meu filho pela sombra".

Desligo sem conseguir formular resposta nenhuma que ajude ela ou que ajude a mim mesma.

• • •

Perco a conta de quantas vezes corro naquela tarde. Cada vez mais rápido, cada vez com menos fôlego sobrando, o corpo inteiro numa exaustão que não é mais física nem mental separadamente — é as duas fundidas, sem fronteira, sem descanso possível entre um ciclo e outro.

Às sete e vinte vejo de novo, embaixo da mesa da sala, de volta ao primeiro esconderijo, como se tivesse dado a volta completa pela casa e decidido voltar à base.

Não corro dessa vez. Fico parada na cozinha, o Theo grudado no meu quadril, tremendo tanto que preciso me apoiar no balcão, pensando pela primeira vez em pegar as chaves do carro e simplesmente ir embora — fugir da própria casa, dormir num hotel, qualquer coisa que me tire de perto daquilo antes que aconteça com o Theo o que aconteceu com o filho da Bianca, ou pior ainda, o que aconteceu com o bebê da esquina.

Decido que vou. Pego a bolsa, pego as chaves, começo a andar em direção à porta com o Theo apertado contra o peito.

A campainha não toca.

• • •

Alguém já está entrando quando eu abro a porta pra sair.

Uma mulher, casaco surrado, sacola que tilinta com ferramenta que não é ferramenta de encanador nem de eletricista, parada exatamente na soleira, como se tivesse calculado o segundo exato em que eu ia abrir por conta própria.

— Ah, ótimo, você já tava saindo — ela fala, entrando sem esperar convite, olhando em volta da minha sala com o desinteresse de quem faz vistoria de rotina, não visita social. — Ia economizar meu trabalho de bater. Prefiro isso a ficar batendo palma que nem testemunha de Jeová.

— Quem é você?

— Chaveira. — Já está tirando o casaco, jogando numa cadeira sem perguntar se pode. — Você tem inquilino ilegal morando debaixo da sua mesa de centro há um tempo bom demais. Vim despejar.

Não pergunto como ela sabe. Não tenho energia sobrando pra questionar mais nada naquele dia.

• • •

— Fica aí, segura o pequeno, não solta ele por nada — ela ordena, já tirando da sacola um punhado de sal grosso e um isqueiro, com uma pressa eficiente que contrasta violento com o tom de deboche que não larga nem por um segundo. — E não grita. Grito atrapalha minha concentração e o meu senso de humor, nessa ordem.

Aperto o Theo contra o peito, recuando pra perto da parede, enquanto ela risca um círculo de sal ao redor da mesa de centro com uma velocidade de quem já fez aquilo centenas de vezes.

— A Bianca do 4 — começo, a voz tremendo — o bebê dela—

— Eu sei — ela corta, sem parar o que está fazendo. — Não vai dar tempo de resolver aquilo hoje. Prioridade é fechar a fonte antes que fique mais gente na lista. Depois a gente conversa sobre justiça retroativa, se sobrar tempo.

Acende o isqueiro, joga no centro do círculo de sal. O fogo sobe rápido, alto demais pra chama comum, e as sombras da sala inteira — cada uma, da estante, do sofá, da própria mesa — começam a se puxar na direção do fogo, escorrendo pelas paredes como líquido escuro sendo drenado.

• • •

As sombras se juntam no centro do círculo, ganhando volume, ganhando forma, até virarem a coisa que eu só tinha visto de relance na tela pequena e granulada do monitor — só que agora completa, real, as pernas dobrando naquele ângulo impossível, o corpo maior do que qualquer coisa devia ter coragem de ser dentro da minha sala.

Grito. Ela não me repreende dessa vez, só ergue uma mão pedindo silêncio sem desviar o olhar da criatura.

A coisa se debate, tenta se esticar pra fora do círculo de sal, e cada vez que uma perna cruza a linha, recolhe rápido, como se o sal queimasse mais que o próprio fogo.

— Ela é nova ainda — a Chaveira comenta, num tom quase de avaliação técnica, indiferente ao terror que eu sinto assistindo aquilo. — Não cresceu muito. Sorte grande, essa.

A criatura vai encolhendo dentro do fogo, perna por perna se recolhendo pro corpo, o corpo diminuindo até o tamanho de um inseto grande, depois de uma bolinha escura, quase nada.

A Chaveira tira da sacola um frasco de vidro pequeno, coberto de símbolos gravados na superfície inteira, e abre a tampa pra guardar o que sobrou.

A coisa reage antes de encolher de vez — um último espasmo de perna, rápido, ainda com força suficiente pra acertar o frasco na mão dela.

O vidro racha, depois estilhaça de vez no chão, os símbolos se perdendo em cacos espalhados pelo tapete.

— Ah, seu merda — ela resmunga, sem alterar muito o tom, como quem xinga trânsito ruim, já enfiando a mão de novo na sacola atrás de alternativa. — Vidro velho. Devia ter trocado semana passada.

• • •

Sem tempo pra procurar outro recipiente adequado, ela vai até a cozinha e abre meu armário de utensílios de bebê com a familiaridade de quem já sabia exatamente onde estava, pega a primeira mamadeira vazia que encontra.

— Serve — fala, mais pra si mesma que pra mim, encaixando a criatura já minúscula lá dentro e fechando a tampa com um clique seco.

Depois, com um marcador preto que tira do próprio bolso, desenha um símbolo na base da mamadeira — círculo cortado por linhas que não se encontram no centro, o mesmo tipo de desenho que eu já tinha visto antes, sem lembrar onde — e mais dois símbolos menores ao redor da tampa, riscados rápido mas com precisão de quem já fez aquele traço centenas de vezes.

• • •

— Selado — fala, examinando o próprio trabalho por um segundo antes de guardar a mamadeira dentro da sacola dela mesma, não na minha cozinha, não no meu armário.

— Espera — falo, confusa. — Você vai levar?

— Levo, sim. — Ela já está fechando a sacola, casual, como quem termina compra de supermercado. — Você não vai querer isso na sua casa, mesmo selado. Eu guardo, eu cuido, você não precisa se preocupar de novo com o que tem dentro dessa mamadeira. É basicamente o serviço completo.

— E se ela sair de novo?

— Não sai. — Ela olha pra mim com uma seriedade rápida, a única vez na noite inteira que o sarcasmo dá uma pausa de verdade. — Não desse jeito. Não desse selo.

Guarda a sacola no ombro, casual de novo, como se o segundo sério nunca tivesse acontecido.

— Vocês tiveram sorte — continua, olhando pro Theo no meu colo, depois pra mim. — Ela só levou dois bebês antes de eu chegar. Nem cresceu direito, nem ganhou força de verdade. Podia ter sido bem pior.

— E a Bianca? O filho dela?

— Não volta — ela responde, sem suavizar, sem rodeio. — Isso já era antes de eu chegar. Mas o ciclo parou aqui. Mais ninguém desse bairro entra pra lista.

• • •

Ela caminha até a porta, veste o casaco de volta, e para com a mão na maçaneta.

— Ele vai crescer bem — fala, olhando pro Theo com uma expressão que por um segundo quase parece gentil antes de voltar pro sarcasmo de sempre. — Só evita deixar mesa de centro perto de sombra, se puder escolher. Manias de decoração, sabe como é.

Sai. Não ouço carro nenhum ligar lá fora. Não vejo ela de novo pela janela.

• • •

O Theo dormiu tranquilo aquela noite, pela primeira vez em semanas sem acordar chorando.

Eu não dormi nada.

Fiquei sentada na cadeira da sala, olhando pra mesa de centro vazia, sabendo que a Bianca do 4 ia passar o resto da vida sem resposta nenhuma sobre o próprio filho, enquanto o meu dormia em segurança a poucos metros de mim, e essa diferença — essa sorte que não tinha nada a ver com mérito nenhum meu — pesava mais do que qualquer alívio conseguia aliviar.

Não fiquei com nada daquela noite além da própria lembrança — nem frasco, nem mamadeira, nem símbolo nenhum guardado em armário pra eu checar de madrugada. A Chaveira levou tudo embora junto com ela, e por mais estranho que seja admitir, isso também doeu um pouco: não ter nem o objeto pra confirmar que aquilo realmente aconteceu, só a certeza de ter acontecido gravada em algum lugar que nenhuma prova física sustenta.

Às vezes, tarde da noite, olho pra mesa de centro e imagino a mamadeira selada, em algum lugar que não é minha casa, guardada por alguém que provavelmente já esqueceu meu nome no meio de outro caso qualquer.

Espero que continue selada.

Espero que ela cuide bem.

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