📖 Novos contos de terror toda semana — grátis para ler
Caso Nº 021 — Arquivo aberto

O Terreno Baldio 12

Ilustração do conto O Terreno Baldio 12

Enrolo a trena pela quarta vez e bato o pé no chão pra confirmar: catorze metros. Exatamente o que a planta diz. Exatamente nada de errado visível.

— Você é o quarto — o vigia fala do portão, sem eu ter perguntado nada.

— Quarto o quê?

— Engenheiro. — Ele cospe no mato. — Os outros três também mediram tudo direitinho.

— E?

— Um teve acidente na obra. Outro faliu do nada e sumiu da cidade. — Pausa. — O terceiro ninguém mais viu.

Guardo a trena. Não pergunto mais nada naquela hora, porque tem perguntas que a gente prefere adiar pro dia seguinte, quando ainda estiver claro e com mais gente por perto.

• • •

Passo a noite no contêiner separando papel velho, procurando o que fez o terceiro projeto travar. Encontro numa pasta amarelada uma anotação de campo, letra apressada:

*"Descida ao nível -2 pra verificação de fundação anterior."*

Nada depois disso. Última linha do caderno.

Não existe nível -2 em planta nenhuma daquele terreno. Levo o papel até o vigia de manhã, mostro a linha, aponto o dedo.

— Isso aqui. O que é isso?

Ele olha, sem se surpreender.

— Escada lá no fundo. Concreto velho, não é de construtora nenhuma que já passou por aqui.

— Desde quando?

— Antes. — Ele não olha pra mim. — Ninguém desce.

— E se eu descer?

Agora ele olha. Devagar. Avaliando.

— Aí você vira história pro próximo. — Dá de ombros. — Sem ofensa.

• • •

Encontro a escada atrás de uma pilha de entulho. Concreto rachado, descendo mais fundo do que fundação de prédio simples precisaria.

Desço naquele mesmo dia — mais por impaciência do que por coragem, o tipo de decisão que se toma às três da tarde com sol lá fora e a sensação errada de que perigo só existe depois que escurece.

Conto vinte e três degraus. No fim, um corredor curto, direto, sem ramificação nenhuma — o que já me deixa mais tranquilo do que devia, porque corredor sem ramificação parece corredor sem segredo.

Ando uns dez metros. Paredes lisas, iluminação fraca vinda de ponto nenhum reconhecível. No fim, uma porta de metal escuro, sem maçaneta.

Encosto o ouvido nela.

Silêncio.

Fico ali um minuto inteiro, sentindo o próprio ridículo da situação — engenheiro adulto grudado numa porta feito criança brincando de espião — e decido voltar. Não porque vi nada. Não porque ouvi nada de fato. Só porque o silêncio ali tinha peso demais pra ser silêncio de verdade, e corpo sabe reconhecer esse tipo de coisa antes da cabeça conseguir formular o motivo em palavra.

Subo. O vigia nem pergunta nada dessa vez, só me observa atravessar o portão com aquela cara de expectativa cansada.

• • •

Não durmo direito naquela noite, mas não é o medo que me tira o sono — é a frustração técnica de ter descido e não ter encontrado nada que justifique o histórico de acidente, falência e desaparecimento. Um corredor curto e uma porta fechada não constroem relatório nenhum convincente.

Decido descer de novo pela manhã, com equipamento melhor — lanterna de verdade, não celular, rádio pra manter contato com o vigia lá em cima, caderno pra anotar tudo em tempo real.

— Vai de novo? — ele pergunta, olhando pro meu equipamento com uma expressão que eu não sei ler direito.

— Preciso terminar o que comecei.

— Ninguém nunca precisou de verdade. — Ele me entrega um rádio velho, estático demais pra funcionar direito, mas melhor que nada. — Só quis.

• • •

Desço os mesmos vinte e três degraus. Chego no mesmo ponto de ontem.

Só que não é o mesmo corredor.

Onde ontem tinha reta curta e uma porta no fim, hoje o corredor se estende bem além de onde a parede devia estar, e se ramifica em duas direções que ontem simplesmente não existiam. A porta de metal que eu tinha encostado o ouvido nela sumiu — ou nunca esteve exatamente ali, ou o lugar decidiu, durante a noite, reorganizar a própria geografia sem me consultar.

Testo o rádio. Estática. Chamo o vigia. Estática mais funda, quase resposta, quase não.

Ando mesmo assim, porque voltar sem entender significaria repetir a mesma frustração de ontem, e frustração acumulada tem um jeito de virar teimosia perigosa em qualquer profissional que se preze.

• • •

Numa das ramificações, encontro o capacete do terceiro engenheiro.

Chão do corredor, largado de lado, sem amassado, sem sangue — só ali, como quem tira o próprio capacete no meio de um passo e esquece de continuar carregando.

Levanto, viro pros dois lados. Nenhum rastro do dono além da poeira fina que as minhas próprias botas acabaram de perturbar.

É nesse momento que ouço a respiração.

Vem de algum lugar atrás de mim, no corredor que eu já tinha percorrido — funda, lenta, grande demais pra pulmão de qualquer coisa que eu queira encontrar ali.

Não corro dessa vez. Fico parado, tentando localizar a direção exata, e é aí que vejo, na parede à minha esquerda, uma sombra comprida se esticando devagar pelo concreto, sem corpo visível que a projete, crescendo na minha direção com uma paciência que sombra nenhuma normal deveria ter.

Aí sim corro.

• • •

Perco a conta de quantas ramificações atravesso, quantas vezes viro errado, quantas vezes acho que reconheço um trecho de corredor e descubro, dois passos depois, que não reconheço nada.

Em algum ponto, exausto, sento encostado numa parede pra recuperar o fôlego, e é ali que percebo que estou com fome — fome de verdade, do tipo que só vem depois de muitas horas sem comer, não depois de uma manhã de exploração.

Confiro o relógio. Parado. Bateria normal, ponteiros travados na mesma hora de quando desci.

Ando mais. Encontro, finalmente, uma escada — não sei se é a mesma, não sei se importa nesse ponto. Subo com as pernas fracas, o corpo inteiro gritando por comida e água e sono, com a sensação nítida de ter passado dois dias inteiros lá embaixo, talvez mais, o suficiente pra eu já estar formulando mentalmente o pedido de desculpa que vou dar pra minha família por ter sumido tanto tempo sem avisar.

• • •

O sol lá fora está exatamente na mesma posição de quando desci.

O vigia está no mesmo lugar, olhando pro relógio de pulso com uma cara confusa.

— Voltou rápido — ele comenta. — Nem quarenta minutos.

— Quarenta minutos?

— Menos, até. Trinta e oito, talvez.

Fico parado no portão, olhando pras próprias mãos sujas de poeira que não deveria existir em quarenta minutos de exploração, sentindo o estômago vazio que não deveria estar vazio depois de tão pouco tempo, processando a diferença entre o que meu corpo tinha vivido e o que o relógio do mundo lá fora insistia que tinha realmente acontecido.

— Achou o que precisava? — ele pergunta.

— Vou recomendar cancelamento.

Ele assente devagar, sem surpresa nenhuma.

— É o que os outros dois disseram.

— E o terceiro?

— Esse não chegou a dizer nada.

• • •

Escrevo o relatório naquela mesma noite: "instabilidade estrutural de origem não identificável." Frase vazia o suficiente pra passar em qualquer auditoria, vazia o suficiente pra não mencionar sombra crescendo em parede, nem tempo que se comporta de um jeito que nenhum manual de engenharia jamais catalogou.

Entrego de manhã. Recebo o pagamento — pontual, rápido, sem nenhuma cobrança de ajuste.

Vou embora sem olhar pra trás pro terreno.

Três meses depois, vejo a notícia numa página de bairro: quinta construtora, novo contrato, novo engenheiro.

Foto pequena. Rosto jovem. Currículo curto.

Eu, três meses atrás.

Penso em ligar. Penso na frase que eu diria — "desce uma vez só, não desce duas, o lugar muda quando você não tá olhando" — e em como isso soaria pro rapaz do outro lado da linha.

Não ligo.

O terreno continua baldio pra quem passa na rua, mato alto, catorze metros de frente esperando o próximo currículo barato disposto a descer a escada errada duas vezes.

Gostou deste caso?

Os contos são gratuitos, mas levam tempo pra escrever. Se este te tirou o sono, considere apoiar o trabalho.

Comprar o livro na AmazonApoiar via Pix