📖 Novos contos de terror toda semana — grátis para ler
Caso Nº 007 — Arquivo aberto

Os Espelhos do Décimo Primeiro

Ilustração do conto Os Espelhos do Décimo Primeiro

Segurança noturno é o tipo de trabalho que você aceita quando alguém te convence de que já não tem mais medo do escuro.

Doze anos de ronda. Doze anos de corredor vazio às três da manhã, elevador descendo sozinho, barulho atrás de porta trancada que sempre tem explicação idiota quando você abre — rato, vento, cano velho reclamando de pressão. Eu tinha construído uma carreira inteira em cima da frase "sempre tem explicação". Era meu departamento de recursos humanos particular, minha terapia de graça.

Aí veio março, e março trouxe uma exceção que meu departamento particular não sabia processar.

• • •

Fui verificar um vazamento no banheiro do décimo primeiro que o sistema tinha acusado e que, quando cheguei, simplesmente não existia. Torneira seca. Piso seco. Tudo exatamente do jeito que devia estar, exceto o espelho, que resolveu não colaborar com o resto do banheiro.

No espelho, atrás do meu próprio reflexo cansado de quem trabalha à noite há tempo demais, havia uma menina.

Uns oito anos. Parada, olhando reto pra frente, com aqueles olhos que eu vou descrever uma vez e depois nunca mais — porque não eram claros, não eram escuros, eram *leitosos*, com uma película fina por cima que se movia devagar, tipo nata esfriando em cima de leite, e por baixo dessa película alguma coisa ainda parecia estar tentando enxergar através dela.

Virei. Banheiro vazio.

Voltei pro espelho. Só eu, com a cara de quem tinha acabado de descobrir que doze anos de "sempre tem explicação" não cobriam a apólice inteira.

Terminei a ronda. Preenchi o relatório. Não escrevi nada porque não existe campo de formulário pra "vi criança com espelho de nata nos olhos", e mesmo que existisse eu ia preferir levar advertência por omissão a ser mandado pro RH conversar sobre saúde mental.

• • •

Segunda noite, eram duas.

A segunda tinha um detalhe que a primeira não tinha: um pedaço de pele faltando na bochecha, não sangrando, não ferida — só ausente, como se alguém tivesse apagado aquele trecho específico com borracha e esquecido de redesenhar, deixando ver por baixo uma superfície lisa e cinzenta que eu preferia continuar não sabendo o que era.

Ela sorriu pra mim.

Não o sorriso todo — só o lado que ainda tinha lábio.

Voltei pro espelho um segundo depois porque meu cérebro, generoso como sempre, decidiu que era importante conferir se eu tinha visto direito.

Tinha visto direito.

Desci pro térreo mais cedo do que devia e fiquei encarando o monitor de segurança até o dia clarear, passando andar por andar, corredor por corredor. Tudo vazio, tudo em ordem, tudo perfeitamente normal — porque câmera não capta o que acontece dentro de espelho, e isso, definitivamente, não estava no meu contrato quando assinei.

• • •

Tentei evitar o décimo primeiro. Durou três noites, o que já é mais disciplina do que eu tinha demonstrado em qualquer outra área da minha vida.

Na quarta o sistema acusou movimento no banheiro feminino de novo.

Subi porque é meu trabalho, e porque a alternativa era admitir pro gerente que eu tinha medo de ronda, e eu tinha uma reputação de doze anos pra proteger antes de proteger minha sanidade.

Eram quatro.

A terceira tinha as unhas compridas demais, curvadas pra dentro como garra de ave, cada uma bem mais longa que qualquer coisa que devia crescer numa mão de criança. A quarta não tinha cabelo — só o couro cabeludo, cinza, com veias finas visíveis por baixo como mapa de rio seco.

Uma delas virou o rosto na minha direção.

Devagar. Como quem finalmente resolveu prestar atenção em algo interessante.

Não vou fingir que fui corajoso. Saí do banheiro andando de costas, o que é uma manobra ridícula pra fazer sozinho às três da manhã num prédio comercial vazio, mas foi a única coordenação motora que meu corpo topou executar naquele momento.

• • •

Comecei a cobrir espelhos.

Papel kraft, fita adesiva industrial, todos os andares, todo mês checado no começo da ronda como se aquilo fosse parte oficial do procedimento de segurança. O gerente ligou perguntando o que estava acontecendo com os espelhos do prédio.

— Manutenção preventiva — falei, no tom mais profissional que consegui produzir, tipo quem realmente acredita que "manutenção preventiva" é resposta suficiente pra alguém questionando por que todo espelho do décimo primeiro andar está embrulhado feito presente de Natal ruim.

Funcionou. Por uns dias.

Até a tela do meu celular apagar durante a ronda — sem motivo, sem bateria fraca, só apagou, porque aparentemente até tecnologia agora estava do time delas — e no segundo de tela preta antes de reacender, uma delas estava lá dentro, olhando de volta, com a boca aberta demais pro tamanho do rosto.

Espelho eu cubro.

Celular eu carrego no bolso, tipo idiota, achando que isso resolvia alguma coisa.

• • •

Foi quando entrou em casa que a piada parou de ser engraçada — se é que em algum momento tinha sido.

Sete da manhã, banheiro de casa, ainda de roupa amassada do plantão, e no espelho da pia, atrás do meu próprio reflexo com cara de quem não dormiu direito desde março, uma criança nova. Sem os dois olhos — só as órbitas, escuras, vazias, e mesmo assim eu tinha a certeza absurda de que ela estava me encarando de dentro daquele vazio.

Saí sem escovar os dentes. Aquela semana passei sem escovar os dentes basicamente inteira, o que é um detalhe idiota pra se preocupar quando você está tentando não enlouquecer, mas o cérebro guarda essas coisas menores pra distrair você do pânico principal.

Cobri tudo em casa. Espelho do banheiro, do quarto, aquele pequenininho de corredor que veio junto com o apartamento e que eu nunca tinha notado antes de precisar odiar. Cobri com lençol, toalha, papelão, qualquer coisa que servisse.

A janela da cozinha reflete de noite.

A tela do notebook reflete no brilho mínimo.

A porta do micro-ondas, fechada, com aquele vidro escuro — reflete perfeitamente bem, obrigado.

Você não faz ideia de quantas superfícies reflexivas existem num apartamento até você desenvolver esse tipo de paranoia específica de nível profissional.

• • •

Parei de dormir de verdade — não de dormir, de *descansar*, que é diferente. Ficava numa espécie de vigília cansada às três da manhã calculando quais superfícies do quarto podiam refletir alguma coisa se eu olhasse pro lado errado.

A janela do quarto, se a rua tivesse luz suficiente e o ângulo fosse ruim o bastante.

Preguei lençol na janela. Voltei pra cama. Fiquei olhando pro teto, que não reflete nada, que é a única superfície do planeta em que eu ainda confiava.

Fechei os olhos.

E lá estavam elas — as quatro, completas agora, com todos os detalhes que eu tinha ido colecionando andar por andar, noite por noite: a nata nos olhos, o pedaço de bochecha faltando, as unhas curvadas, o couro cabeludo exposto — todas de uma vez, atrás das minhas próprias pálpebras, que não são superfície reflexiva de nenhum tipo, que são só pele de dentro pra fora, e que aparentemente também não contavam mais como território seguro.

Foi aí que entendi que cobrir espelho era remédio pra sintoma errado.

O problema, com todo o meu sarcasmo particular, não estava em nenhuma superfície do apartamento.

Estava em mim.

• • •

Ela apareceu numa quarta à meia-noite, e a primeira coisa que pensei foi que finalmente alguém tinha vindo me demitir formalmente por embrulhar todos os espelhos do prédio em papel kraft.

Casaco escuro, cabelo preso, sacola de ferramentas que tilintava de um jeito que não era chave de fenda nem alicate. Vinte e poucos anos, talvez, com a expressão de quem já tinha visto coisa demais pra se impressionar com qualquer coisa nova.

— Prédio fechado — falei, no automático.

— Eu sei — ela disse. — Fecha a porta atrás de mim, por favor. Não gosto de trabalhar com corrente de ar.

— Quem é você?

Ela não parou de andar em direção ao elevador.

— Uma chaveira.

— Chaveira de quê? Não vi nenhuma van de chaveiro lá fora.

— Do tipo que não conserta fechadura. — Ela apertou o botão do décimo primeiro sem esperar convite. — Do tipo que fecha o que abriu do lado errado. Você tem problema com espelho, eu tenho ferramenta pra isso. Vai me ajudar a subir ou vai continuar perguntando meu currículo?

Fechei a porta. Subi com ela.

• • •

No décimo primeiro ela andou devagar pelo corredor, os dedos roçando na parede como quem sente temperatura de forno.

— Quantas você viu de uma vez?

— Quatro.

— Detalhes?

Contei. Ela anotou num caderninho preto sem reagir a nenhuma das partes que, pra mim, tinham custado meses de sono — a pele faltando, as unhas, o couro cabeludo, a nata. Pra ela era só inventário.

— Alguém mandou elas pra cá — ela disse, sem levantar o olhar do caderno. — Eu vim fechar a porta que deixaram aberta.

— Quem mandou?

— Informação irrelevante pra sua parte do trabalho.

— E qual é minha parte?

Ela guardou o caderno.

— Ficar vivo até eu terminar. E se possível, quieto. As duas coisas, se não for pedir muito.

Achei ótimo o nível de otimismo profissional dela.

• • •

O ritual levou duas horas montando espelhos pequenos em círculo no corredor, cada um posicionado com um ângulo que eu não entendia o critério e que ela ajustava com a paciência irritante de quem faz aquilo há mais tempo do que eu tenho de carteira assinada.

— Fica fora. Não toca em nada — ela disse. — Regra simples. Até você consegue seguir.

Fiquei. A ironia dela era, no mínimo, consistente com a minha.

Ela começou a falar baixo — não pra mim, pros espelhos —, numa cadência que soava mais chave sendo virada do que idioma sendo falado. Os espelhos começaram a mostrar as crianças, todas ao mesmo tempo, cada uma na sua superfície — a da nata, a da bochecha ausente, a das unhas, a sem cabelo — e dessa vez elas não olhavam pra frente. Olhavam pra dentro, como se o vidro tivesse virado corredor de verdade e elas estivessem enfim vendo o caminho de saída.

A Chaveira não parou a cadência.

Eu, atrás dela, com as mãos enfiadas no bolso e o coração fazendo hora extra sem pedir autorização, olhei pro espelho do centro.

• • •

Não era criança de olhos brancos.

Era eu. Uns sete anos, blusão que eu reconheci antes de reconhecer o resto, cabelo cortado do jeito que minha mãe cortava porque salão custava caro. A expressão era a que eu fazia quando estava com medo e tentava não parecer — reconheci porque era a mesma expressão que eu provavelmente estava fazendo naquele exato momento, trinta e tantos anos depois, no mesmo corredor.

Levantou a mão. Palma aberta.

O gesto que criança faz quando quer que você venha.

— Não olha pro centro — a Chaveira disse, sem desviar da cadência.

Eu já estava olhando havia um tempo longo demais.

— Escuta — ela falou mais alto, percebendo que a atenção já tinha ido embora e estava tentando puxar de volta com a voz. — Não é você lá dentro. É armadilha. Fica onde tá.

Eu de sete anos sorriu, com dentes de leite intactos, exatamente como eu lembrava de sorrir naquela idade, e isso — mais que qualquer olho branco, mais que qualquer unha torta — foi o que quebrou alguma coisa em mim.

Dei um passo.

A Chaveira segurou meu casaco. Puxou.

— Para —

Não parei, porque o corpo já não estava consultando decisão nenhuma. A mão do meu eu de sete anos atravessou o vidro — física, quente, com a temperatura errada de coisa viva — e fechou no meu pulso antes de eu processar que o vidro tinha deixado de ser barreira.

A Chaveira largou meu casaco pra segurar meu braço com as duas mãos, puxando com o corpo inteiro, xingando baixo num idioma que eu também não reconhecia — e por um segundo achei que ela ia conseguir.

Não conseguiu.

• • •

Não vou fingir que entendi tudo o que aconteceu no instante em que o vidro deixou de ser vidro.

Sei que a Chaveira caiu pra trás quando meu braço escapou das mãos dela. Sei que ela se levantou rápido, gritando alguma coisa pros espelhos que não era mais súplica — era comando, era ordem, era a mesma cadência de antes só que mais dura, mais rápida, como quem decide fechar a porta com o que sobrou do lado de fora dela.

Sei que os espelhos pararam de mostrar as outras crianças.

Sei que o corredor, um segundo depois, estava com todos os espelhos limpos — só reflexo normal, luz normal, corredor normal — e que a Chaveira ficou parada ali, ofegante, olhando pro espelho do centro com uma expressão que eu reconheci mesmo sem estar mais do lado de fora pra ver com meus próprios olhos.

Ela tinha fechado a porta.

Só não tinha conseguido tirar todo mundo de dentro antes.

• • •

Não sei quanto tempo faz.

Aqui dentro tempo não conta do jeito que contava lá fora — não tem noite, não tem dia, só essa distância curta e infinita entre o vidro e o corredor, onde eu consigo ver tudo que acontece do outro lado mas não consigo fazer nada além de olhar.

As outras três crianças sumiram com o fechamento. Só eu fiquei — porque fui eu que atravessei, porque fui eu que caí na armadilha que era literalmente feita da minha própria cara.

Descobri, depois de um tempo que não sei medir, que consigo escrever.

Não com a mão — não tenho mais a certeza de ter mão do jeito que tinha antes. Escrevo na superfície do vidro, do lado de dentro, com o que sobrou de mim, e às vezes, se a pessoa do outro lado ficar tempo suficiente olhando, ela vê.

Vejo funcionários passando pelo corredor. Vejo faxineiras que evitam o décimo primeiro andar sem saber dizer por quê. Vejo, de vez em quando, alguém parar de propósito em frente ao espelho do centro — geralmente à noite, geralmente sozinho, geralmente com aquele tipo de curiosidade idiota que eu também tinha antes de virar o que sou agora.

Tento escrever rápido, antes que a pessoa vá embora.

Às vezes escrevo pedindo ajuda.

Às vezes, nas noites piores, escrevo pedindo outra coisa — que alguém quebre o vidro, que alguém, qualquer coisa, faça esse corredor parar de existir pra que eu possa parar de existir junto.

As pessoas que veem geralmente saem correndo.

Não julgo. Eu também teria saído correndo.

Só queria que uma vez, uma única vez, alguém ficasse tempo suficiente pra terminar de ler.

Gostou deste caso?

Os contos são gratuitos, mas levam tempo pra escrever. Se este te tirou o sono, considere apoiar o trabalho.

Comprar o livro na AmazonApoiar via Pix