O endereço da entrega não aparece no mapa do aplicativo, e o aplicativo paga o triplo justamente por isso.
Rua Closing, 414. Edifício Caetano. Ap. 9. Entrega às 00h00. Não deixar na portaria.
Doze anos de entrega noturna nessa cidade e eu nunca tinha ouvido falar da Rua Closing. Mas o pin cai num quarteirão de prédios velhos atrás do viaduto, entre um ferro-velho e uma igreja evangélica com letreiro de LED que pisca JESUS VOLTA em vermelho a noite toda, e eu sei chegar lá. Quem faz noite aprende os atalhos que o GPS ainda não aprendeu.
Doze anos, uma regra só, e ela nunca falhou: não olha de volta. Não pro cliente que demora pra fechar a porta. Não pro carro que acompanha a moto devagar. Não pro barulho que vem da garagem quando você já está saindo. A cidade à noite é outra cidade, com outras leis, e a principal delas é que quem olha, vira testemunha. Testemunha não recebe por corrida.
O Edifício Caetano tem a fachada de pastilha verde-água desbotada que os prédios dos anos setenta usavam pra parecer moderno, e hoje parece o banheiro de uma rodoviária. A portaria está vazia. Não abandonada: vazia. A cadeira do porteiro está quente, o rádio de pilha tocando baixinho um jogo que acabou faz uma hora.
O elevador é de grade pantográfica. Fecho a grade, aperto o 9. O painel tem botão até o 9. Lembro disso depois.
O homem do 9 já está com a porta aberta quando o elevador chega. Não abriu quando ouviu o elevador: já estava aberta, e ele, de pé no batente, na postura de quem estava parado ali tempo suficiente pra ficar completamente imóvel. Terno marrom surrado, gravata fina, cabelo branco penteado com régua. Parece ter saído de um retrato de formatura de 1962 e esquecido de envelhecer pro lado certo.
— Obrigado pela pontualidade — ele diz.
Não é agradecimento. É anotação.
Entrego a caixa. Média, lacrada com fita marrom, mais leve do que o tamanho sugere, como se viesse cheia de ar de algum lugar. Ele segura com as duas mãos, embaixo, com cuidado de quem segura bandeja de bolo. Não assina nada. O aplicativo marca entregue sozinho no exato segundo em que a caixa sai da minha mão.
Desço pela escada porque o elevador já foi chamado por alguém lá embaixo, e não tem ninguém lá embaixo.
Cataloguo como não relevante. Cinco estrelas. Gorjeta de vinte reais. Durmo bem.
A segunda entrega é um mês depois, à meia-noite em ponto. A terceira também. A quarta. O aplicativo começa a me mandar a corrida do Caetano todo dia 14, sempre com o mesmo valor, sempre pra mim, mesmo quando eu estou do outro lado da cidade. Pergunto no suporte. O robô de atendimento responde que as corridas são distribuídas por um algoritmo de afinidade baseado no seu histórico de excelência.
Afinidade. Anoto como elogio. Era cláusula.
As caixas mudam de tamanho mas não de peso. Sempre leves demais. Em abril, a caixa está molhada por dentro: a umidade vaza pela base e escorre no meu antebraço, e o cheiro não é de água. É de lago parado. Em junho, a caixa está quente. Não morna de sol: quente de corpo, aquele calor que pulsa de leve. Em agosto, no farol fechado da avenida, a caixa no baú da moto bate três vezes por dentro. Toc. Toc. Toc. Como quem testa se a tampa está firme.
Não olho. A regra é não olhar.
Mas começo a reparar no resto. Que o porteiro nunca está e a cadeira está sempre quente. Que o rádio de pilha toca sempre o mesmo jogo, com o mesmo gol aos trinta e oito do segundo tempo. Que a cada mês o homem do 9 me espera um pouco mais perto do elevador. Na primeira vez, no batente. Na quinta, no meio do corredor. Na oitava, eu abro a grade e ele já está lá, do lado de fora dela, a meio metro do meu capacete, sorrindo com a boca fechada.
— Você é o único que volta — ele diz, na oitava.
— Volto porque o aplicativo manda.
— Eu sei — ele diz. — É isso que eu valorizo.
Em julho, o Juninho some.
O Juninho fazia noite no mesmo ponto que eu, embaixo do viaduto, onde a gente espera corrida comendo pastel de rodoviária e reclamando da taxa do aplicativo. Ele me contou, numa dessas noites, que também tinha pegado umas corridas pro Caetano. Que o velho do 9 era esquisito mas pagava bem. Que na última tinha ouvido um barulho no corredor e virado pra ver.
— Só virei, mano. Reflexo.
Na semana seguinte, o perfil dele no grupo de motoboys apareceu com a bolinha cinza. A moto ficou acorrentada no poste do viaduto por três semanas, até a prefeitura recolher. No aplicativo, quando eu procuro o nome dele, aparece só: Parceiro inativo.
Na entrega de julho, o homem do 9 pega a caixa e, antes de fechar a porta, diz, sem que eu pergunte nada:
— O outro olhou.
E sorri com a boca fechada, como quem comenta o tempo.
A entrega de setembro já está errada antes de eu chegar.
Chove. Daquelas chuvas de setembro que lavam a fuligem dos viadutos e devolvem tudo pro asfalto em forma de lama preta. O letreiro da igreja pisca JESUS VOLTA em vermelho, e na água empoçada da calçada o reflexo diz outra coisa, que eu não leio porque não olho pra reflexo de letreiro.
A porta do 9 está aberta. Não entreaberta. Aberta, setenta graus. O corredor do apartamento está escuro, e de dentro sai um ar frio com cheiro de caixa de papelão guardada muito tempo num lugar fechado.
Bato no batente mesmo com a porta aberta. Protocolo.
Ninguém responde.
O aplicativo vibra no meu bolso: O cliente solicitou entrega dentro do imóvel. Recusar pode impactar sua avaliação.
Eu não entro por curiosidade. Quero deixar isso registrado, porque é a única parte desta história de que eu ainda me orgulho. Entro porque a alternativa é marcar entrega não realizada, e entrega não realizada derruba a nota, e nota baixa faz o algoritmo parar de te mandar corrida, e sem corrida não tem aluguel. Doze anos de regra sólida, derrubados por uma métrica de aplicativo. Se um dia escreverem o meu nome numa lápide, que escrevam isso embaixo: morreu pela avaliação.
A sala é maior do que devia ser. O prédio tem fachada estreita, dois apartamentos por andar, e a sala do 9 se estende pra trás muito além de onde a parede de fora termina, como se o apartamento continuasse por dentro do prédio vizinho, e depois do outro, e depois do quarteirão.
As caixas estão todas lá. Doze meses de entrega, abertas. O conteúdo não está dentro: está disposto no chão, em fileiras, formando um desenho que eu só entendo quando subo os olhos e vejo de cima, pelo reflexo do vidro da janela. É um símbolo. Ou um mapa. Ou um formulário.
E há um espaço vazio no desenho. Do tamanho exato da caixa que eu tenho na mão.
Ao lado do espaço vazio, outro espaço vazio. Mais comprido. Do comprimento de um homem deitado.
O homem do 9 está de costas, no centro da sala.
— Pontual até o fim — ele diz, sem virar. — Você veio onze vezes. Doze, com esta. Precisava ser alguém que atravessa o limiar por vontade própria, repetidas vezes, durante um ano inteiro. Ninguém faz isso de graça. Você fez pelo triplo da tarifa.
Eu entendo onde a caixa se encaixa. Entendo onde eu me encaixo.
Ele começa a virar.
Eu já estou andando de costas.
Não vou descrever o que havia no lugar do rosto dele quando terminou de virar, porque descrever é olhar de volta, e eu não olhei. Vi o começo da curva. A gola. O cabelo branco penteado. E depois o cabelo continuou, e continuou, e não chegou nunca à parte da frente, e eu fechei os olhos.
Saio andando. Não correndo. Correr é coisa de quem é perseguido, e eu sou só um figurante saindo de cena. A regra é não olhar.
Ouço alguma coisa atrás de mim no corredor. Não olho. Ouço na escada, a meio lance de distância, descendo no mesmo ritmo que eu, degrau por degrau. Não olho. Ouço na portaria, onde o rádio de pilha grita gol aos trinta e oito do segundo tempo. Não olho. Ouço na calçada, na chuva, a uma distância que não é possível pra quem ficou lá dentro.
Ligo a moto sem olhar no retrovisor. Pela primeira vez em doze anos, arranco com o retrovisor virado pro chão.
De manhã, abro o aplicativo. O histórico mostra onze entregas no Edifício Caetano. A de setembro não existe. A gorjeta de setembro também não, o que é a parte que mais me ofende.
Procuro a Rua Closing no mapa da prefeitura. Não existe. Procuro o Edifício Caetano na foto de satélite, atrás do viaduto, entre o ferro-velho e a igreja. Encontro. Fachada de pastilha verde-água.
Oito andares.
Voltei a trabalhar na sexta. O que mais você queria que eu fizesse. O aluguel não sabe o que eu vi.
A regra continua sendo não olhar de volta. Talvez agora com mais convicção, porque antes era filosofia e agora é dado empírico.
No dia 14 de outubro, às 23h40, o aplicativo vibra no meu bolso. Corrida nova. Valor triplo.
Entrega às 00h00. Item: 1 volume. Não deixar na portaria.
O endereço de entrega é o meu.
O botão de recusar está cinza. A corrida já foi aceita. Pelo histórico de excelência.
São 23h58.
O interfone ainda não tocou.




