Deixa eu te contar uma coisa sobre trabalhar com entrega noturna que ninguém te conta antes de começar.
O mundo à noite é diferente. Não poeticamente diferente — diferente mesmo, estruturalmente, como se as regras fossem outras e a cidade soubesse disso e simplesmente não tivesse achado necessário te avisar.
A regra é simples: não olha de volta.
Doze anos fazendo entrega noturna nessa cidade. Funcionou todo esse tempo. Até o apartamento 9 do Edifício Caetano.
A primeira entrega foi numa quinta-feira de outubro. Caixa média, lacrada. Endereço: Rua Closing, 414, Edifício Caetano, Ap. 9. Meia-noite em ponto.
O homem que abriu parecia ter saído de um arquivo de fotos de décadas atrás — terno surrado, cabelo branco impecavelmente penteado. Ele estava esperando com a postura de quem estava parado ali há tempo suficiente pra ficar completamente imóvel.
— Obrigado pela pontualidade — ele disse, num tom que não era agradecimento. Era avaliação.
Arquivei na pasta não relevante. Dormi bem.
Os meses passaram com a consistência de metrônomo. As caixas variavam em tamanho mas não em peso — sempre mais leves do que o volume sugeria. Abril a caixa estava molhada por dentro. Agosto a caixa estava quente.
A entrega de setembro foi diferente antes de eu chegar ao prédio. A porta do Ap. 9 estava aberta. Não entreaberta — aberta, setenta graus.
Bati mesmo com a porta aberta. Protocolo. Ninguém respondeu.
Não entrei por curiosidade. Entrei porque a alternativa era registrar entrega não realizada no sistema, e avaliação afeta os pedidos que o algoritmo me manda. Doze anos de regras sólidas destruídas por métrica de app.
A sala era maior do que devia ser. As caixas estavam todas lá — meses de entrega, abertas, o conteúdo disposto no chão em padrão de geometria, de um símbolo visto de cima.
O homem estava de costas no centro da sala.
— Pontual até o fim — ele disse, sem virar. — Você veio aqui onze vezes. Doze, com essa. Precisa ser alguém que atravessa o limiar voluntariamente, repetidamente, durante meses.
Vi onde a caixa se encaixava. Vi onde eu me encaixava.
O homem começou a virar. Eu já estava andando pra trás.
Não vou descrever o que tinha no lugar do rosto dele quando virou. Não vou descrever porque descrever significa olhar de volta, e a regra é não olhar de volta.
Saí andando. Não correndo. Figurante. Personagem de fundo.
Ouvi alguma coisa atrás de mim no corredor. Não olhei. Ouvi no elevador. Não olhei. Ouvi na calçada, a uma distância impossível. Não olhei.
Olhei pro celular de manhã. Nenhum registro da entrega de setembro no histórico. Onze entregas. Só onze.
Pesquisei Rua Closing, 414. Na foto de satélite, o prédio tinha oito andares.
Voltei a trabalhar na sexta. O que mais você quer que eu fizesse.
A regra continua sendo não olhar de volta. Talvez agora com mais convicção, porque antes era filosofia e agora é dado empírico.
Figurante sobrevive sendo figurante. Pelo menos é o que eu preciso continuar acreditando.
Fim do caso.



