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Caso Nº 037 — Arquivo aberto

Maré Baixa

Ilustração do conto Maré Baixa

A lama chega no meio da minha canela quando eu paro de andar, porque tem alguma coisa errada com a maré e eu demoro mais do que devia pra admitir isso em voz alta.

Vinte e dois anos de mangue. A tabela de maré eu não consulto mais — eu sou a tabela. Sei de cabeça a hora que a água desce em cada braço do rio, sei quanto tempo tenho em cada croa antes da volta, sei o cheiro que o vento faz quando a lua vai puxar mais forte. Caranguejo não espera, boleto não espera, e conhecimento de maré é a única herança que meu pai deixou que valeu alguma coisa.

Então quando eu digo que a maré do Braço Morto desceu um metro além do que qualquer tabela, qualquer lua e qualquer vento justificam, eu não estou dando opinião.

Estou dando testemunho.

A água recuou até uma linha que eu nunca vi descoberta na vida. E meu pai nunca viu. E o pai dele, que abriu essas veredas, morreu sem ver.

E lá no fundo do canal, onde nunca deveria ter fundo visível, tem coisa saindo da lama.

• • •

Estacas.

De longe parecem tronco morto, dessas raízes de mangue que a lama engole e devolve quando quer. Mas raiz não cresce em roda.

Conto nove, dispostas em círculo largo, cada uma da grossura da minha coxa, pretas de um preto que não é podridão — madeira apodrecida esfarela, e aquelas estão inteiras, lisas, com a superfície de coisa que a lama passou muito tempo conservando em vez de comer. No alto de cada estaca, entalhes. Não decoração: marcas fundas, repetidas, do tipo que se faz com pressa e força, do tipo que se faz pra durar mais que quem fez.

No centro do círculo, a lama faz uma lombada. Um volume coberto, comprido, do tamanho de uma canoa grande.

Ou do tamanho de outra coisa que eu decidi, executivamente, às seis da manhã, com o balde ainda vazio, não nomear.

Peguei meu caranguejo em outro braço naquele dia. Rendeu pouco. Voltei pra casa calado e dormi mal, e culpei o café.

O café. Vinte e dois anos de mangue e eu culpando o café.

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Na semana seguinte a maré do Braço Morto tinha baixado mais.

Não em todo lugar — essa é a parte que eu preciso que fique registrada, porque é a parte que não tem explicação de marinha, de assoreamento, de El Niño, de nada que os homens de prancheta usam pra arquivar assunto. A maré geral do estuário estava normal. Peguei o barco, medi nos outros braços: normal, normal, normal.

Só ali. Só no Braço Morto. Como se aquele trecho específico de água estivesse sendo bebido por baixo.

O círculo de estacas agora aparecia inteiro mesmo na preamar. E a lombada do centro tinha crescido — não, errado. A lombada não cresceu.

A lama sobre ela diminuiu.

Dava pra ver, agora, que o volume tinha gomos. Segmentos. Uma sequência de arcos sob a lama, encadeados, do jeito que costela faz debaixo de pele magra.

Costela de nada que eu conheço. E eu conheço tudo que esse mangue cria — cada peixe, cada bicho de casco, cada carcaça que a água larga. Já achei boto morto, já achei boi inteiro que desceu o rio na cheia, já achei coisa que a polícia veio buscar de saco preto.

Aquilo era maior que tudo isso junto.

E estava dentro do círculo. As estacas não marcavam a coisa.

Cercavam.

• • •

Os outros pararam de ir.

Ninguém combinou nada — mangue não faz reunião. Foi acontecendo: o Deca mudou pro braço do sul alegando que o apicum de lá tava rendendo mais, mentira que todo mundo aceitou porque era mais educada que a verdade. O Nilton simplesmente não falou mais no Braço Morto, e quando eu falei, uma vez, no rancho, ele olhou pro balde dele e disse só:

— Deixa a água trabalhar.

— Trabalhar como, Nilton? A água tá sumindo.

— Então deixa ela sumir sozinha.

Foi a conversa mais comprida que o assunto rendeu na colônia inteira. Gente de mangue tem um catálogo antigo de assunto que não se estica, e eu fui descobrindo que aquele círculo de estacas estava no catálogo antes de mim, antes do Deca, antes de todos nós — porque numa noite dessas o Nilton bebeu além da conta e falou dormindo, na rede do rancho, e o que ele falou foi:

— Não era pra descer mais. O acordo era esse. Não era pra descer nunca mais.

De manhã perguntei do acordo. Ele disse que não lembrava de sonho nenhum e passou três dias sem me olhar na cara.

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Continuei indo. Registro isso sem orgulho.

Continuei porque o caranguejo do Braço Morto, com a colônia inteira evitando o trecho, virou o melhor da região — graúdo, gordo, sem concorrência. Continuei porque tenho duas filhas e uma dívida de motor de popa e porque medo, na minha profissão, é um luxo que se paga em quilo.

E continuei — vou assinar essa parte também — porque a lombada me chamava. Não com voz. Com pergunta. Aquele tipo de coisa que se instala atrás dos olhos e cobra visita, do jeito que dente quebrado cobra a língua.

Toda semana a lama cobria menos.

Terceira semana: os gomos ganharam textura. Não escama, não couro — placa. Placas encaixadas, cor de casco de aratu queimado, com junção viva entre uma e outra. Digo viva porque numa manhã, com o sol batendo raso, eu vi a junção vedar. Apertar. Um movimento mínimo, de milímetro, o movimento que faz quem dorme e sente frio.

Quarta semana: apareceu a ponta. Uma extremidade afinando, saindo do círculo por baixo de uma das estacas — e foi aí que eu entendi a proporção e o balde caiu da minha mão e eu não abaixei pra pegar.

A lombada não era a coisa.

A lombada era um pedaço. Uma volta. O corpo entrava e saía da lama mais três vezes até onde a vista alcançava canal abaixo, em arcos, do jeito que minhoca atravessa a terra — e o círculo de estacas não cercava o bicho.

Cercava a cabeça.

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Naquela noite fui no rancho e forcei o assunto com o Nilton, na frente de todo mundo, sem educação nenhuma, porque educação é pros vivos e eu já não tinha certeza da minha categoria.

Ele negou três vezes. Na quarta, o velho Bidu — que não fala quase nada desde o derrame — bateu a mão aberta na mesa, uma vez, e apontou o queixo pro Nilton como quem manda pagar uma conta.

O Nilton pagou.

— Meu avô contava que os antigos cravaram as estacas. Antes da colônia, antes do porto, antes de tudo que tem nome aqui. — Ele falava pro copo, não pra mim. — Cravaram na seca grande, quando a coisa encalhou dormindo, e fizeram o trato: ela dorme, a água cobre, ninguém pesca em cima. A parte dos homens era não tirar da água o que dorme nela.

— E a parte dela?

— Continuar dormindo.

O rancho inteiro quieto. Lampião chiando.

— Nilton. A água tá baixando sozinha. Ninguém quebrou trato nenhum. Por que ela tá baixando?

O velho Bidu fez o único som da noite dele. Não foi palavra — foi uma expiração comprida, com um resto de voz dentro, e todo mundo ali entendeu como palavra mesmo assim:

Porque não é a água que desce.

É ela que está subindo.

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Fui embora do rancho e fiz a coisa mais burra da minha vida: fui olhar de noite.

Lua cheia, maré de sizígia, o estuário inteiro na cota certa — e o Braço Morto seco como estrada. A lama do canal rachada em placas, brilhando de sal, e o círculo de estacas no meio daquilo tudo como coroa de um afogado.

A cabeça estava quase descoberta.

Não vou descrever a cabeça. Não por estilo — por incapacidade honesta. O que a lua me mostrou não se organiza em frase: era grande demais pra caber no olhar de uma vez, então o olho ia por partes, e cada parte pedia pra não ter ido. Digo só duas coisas. A primeira: não tinha olho nenhum, e mesmo assim nunca na vida eu me senti tão minuciosamente examinado.

A segunda: uma das nove estacas estava caída.

Não podre. Não quebrada.

Empurrada. De dentro pra fora, com a base erguida da lama e o entalhe do topo rachado ao meio — e ao redor da base, marcas compridas no barro seco, paralelas, fundas, como as que ficam na madeira do barco quando eu arrasto ele sem rolete.

Alguma coisa tinha começado a desfazer a cerca.

Pelo lado de dentro.

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Existe um tipo de homem que teria ido embora naquela noite e nunca mais voltado, e durante muitos anos eu me achei desse tipo, e o mangue achou graça.

Voltei na manhã seguinte com o facão, o balde e uma teoria de gente desesperada: se a parte dos homens era não tirar da água o que dorme nela, talvez a recíproca segurasse — devolver água. Passei o dia cavando uma sangria do braço vivo pro morto, sozinho, com a lama até a cintura e as filhas na cabeça, abrindo caminho pra maré voltar a cobrir o que estava acordando.

A água entrou no fim da tarde. Correu pela vala, alcançou o canal seco, espalhou.

E parou.

A três braças do círculo, parou. Água corrente, com declive a favor, parou — fez uma linha na lama, redonda, obediente, contornando as estacas na distância exata de quem respeita, e ficou ali tremendo sem coragem de avançar, e eu fiquei na beira olhando a física do mundo pedir licença e ser negada.

Atrás da linha d'água, na lama seca, a segunda estaca rangeu.

Não caiu. Só rangeu. Um aviso curto, de coisa testando a folga — e junto do rangido, por baixo da sola do meu pé, fundo na terra, uma acomodação vasta e lenta se espalhou pelo mangue inteiro, e todos os caranguejos de todas as tocas até onde a vista alcançava saíram ao mesmo tempo e começaram a andar embora.

Todos. Na mesma direção.

Caranguejo não faz isso. Caranguejo não faz nada junto.

Eu fui atrás deles. Foi a decisão profissional mais acertada da minha carreira.

• • •

Faz onze dias.

A colônia não fala do assunto, mas a colônia inteira mudou de braço, e o rancho agora fecha antes de escurecer, e o velho Bidu passou a dormir de dia e ficar acordado de noite, sentado na porta, virado pro lado do Braço Morto, contando alguma coisa nos dedos que só ele sabe.

Ontem apareceu um homem na vila perguntando do canal. De fora, roupa escura, sem prancheta e sem crachá — perguntou pouco, do jeito de quem confere em vez de descobrir. Quis saber quantas estacas ainda estavam de pé.

Sete, respondi. Antes de sair, ele olhou pro céu, pro rio, pra lua nascendo cedo, e disse baixo, mais pra ele que pra mim:

— Então ainda dá tempo. Não pisem lá dentro do círculo. O que segura não é a madeira.

Foi embora canal abaixo, sozinho, na direção que nem os caranguejos aceitam mais.

Não voltou ainda. A maré, desde anteontem, parou de baixar — parou, não subiu — como quem prende a respiração pra escutar melhor.

Eu vou continuar pescando, porque boleto não aceita lenda, e as minhas filhas comem do que a lama me dá desde antes de saberem mastigar.

Mas agora eu pesco de dia, no braço do sul, longe — e mesmo assim, toda madrugada, na hora exata em que a tabela diz que a água do Braço Morto deveria estar no fundo, eu acordo sem despertador, com o coração batendo devagar e forte, e fico escutando o mangue no escuro.

Porque tem um som novo lá desde a noite da estaca caída. Baixo, ritmado, longe, com pausa comprida entre um e outro.

Meu pai me ensinou todos os sons desse estuário.

Esse, eu estou aprendendo sozinho.

E ele está ficando mais espaçado a cada noite — do jeito exato que a respiração fica quando alguém, muito devagar, para de fingir que dorme.

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