O item 47 não existe, e eu já contei três vezes.
Estou no meio da sala principal do casarão do falecido Dr. Aristeu Vilaça — colecionador, recluso, sem herdeiro direto, o cliente perfeito da minha profissão porque morto não discute avaliação — com a listagem oficial do espólio numa mão e a prancheta na outra, e a listagem diz que esta casa contém 47 itens catalogáveis.
Eu contei 46. Três vezes. Sou avaliadora de leilão há onze anos; contar coisas é literalmente a parte do meu trabalho que eu faço dormindo. Relógio de pé, 46 objetos, e uma linha na listagem que diz:
Item 47 — [sem descrição]
Sem descrição. Numa listagem onde o item 12 é "abotoadura de ônix com engaste em prata de lei, par, circa 1920, desgaste no fecho esquerdo". O homem descreveu o desgaste de um fecho de abotoadura e deixou um item inteiro em branco.
Anoto "verificar item 47 c/ cartório" na prancheta, que é o meu jeito profissional de dizer problema do estagiário, e sigo o expediente.
Onze anos. A gente aprende a catalogar tudo, menos o instinto.
O trabalho num espólio desses leva semanas. Fotografar, medir, pesquisar procedência, estimar valor de martelo — item por item, cômodo por cômodo, sozinha na casa porque o orçamento do inventariante não cobre assistente e o silêncio, em tese, não desconta comissão.
Em tese.
O silêncio do casarão Vilaça tem uma qualidade que eu demorei três dias pra nomear: é um silêncio ocupado. Não vazio — ocupado, como sala de espera, como fila. A casa inteira parada em posição de quem aguarda ser chamado.
No quarto dia, o tinteiro de bronze sumiu.
Item 23. Fotografado, medido, etiquetado por mim na segunda-feira, sobre a escrivaninha do escritório. Na quinta, a etiqueta estava lá — colada no tampo da escrivaninha, no retângulo limpo de poeira onde o tinteiro passou décadas — e o tinteiro, não.
Conferi as janelas: trancadas. A porta: só a minha chave e a do cartório. O alarme: sem registro. Liguei pro inventariante, comuniquei "possível extravio", abri ocorrência interna, fiz tudo que o manual manda — e o manual, descobri naquela semana, é um documento otimista, escrito por gente que acredita que as coisas somem para algum lugar.
À noite, em casa, atualizando a planilha do espólio, achei a listagem oficial aberta na tela.
Item 47 — Objeto pessoal. Uso diário.
Eu não digitei aquilo. Vou repetir, porque passei a madrugada repetindo pra mim mesma: eu não digitei aquilo. O arquivo é do cartório, protegido, e o histórico de edição registrava a alteração com data da quinta-feira.
Hora: 00h00. Autor: em branco.
Como a descrição.
O manual também não cobre o que se faz quando o inventário começa a se preencher sozinho, então improvisei um protocolo pessoal: fingir vigorosamente que era erro de sistema e dobrar o ritmo pra terminar logo o serviço.
O serviço tinha outros planos.
Na semana seguinte sumiu o abridor de cartas (item 31, cabo de madrepérola). Etiqueta no lugar, objeto não. E a listagem, à meia-noite em ponto, autor em branco:
Item 47 — Objeto pessoal. Uso diário. Cabe na mão.
Depois o relógio de bolso (item 8). Item 47 — Objeto pessoal. Uso diário. Cabe na mão. Acompanha a dona.
Parei nessa palavra por um tempo que não anotei porque eu não estava mais em condições de operar prancheta.
Dona.
Todos os 46 itens da listagem pertenceram a um homem. A casa é de um homem, o espólio é de um homem, cada objeto ali passou a vida no bolso, na estante ou na parede do Dr. Aristeu Vilaça.
O item 47 tinha dona.
E a única mulher que punha os pés naquela casa há semanas era eu.
Fiz o que qualquer profissional metódica faria: virei o problema em trabalho. Se algo estava se descrevendo na minha listagem, eu ia catalogar o catalogador.
Levantei a vida do Vilaça. Não a oficial — essa cabe num obituário de três linhas. A outra, a que mora nos recibos: e recibo, no meu ofício, é confissão com carimbo. O homem comprou a vida inteira de casas de leilão, mas vendeu pouquíssimo — e as vendas que fez tinham um padrão que me arrepiou os braços na mesa do arquivo público.
A cada sete, oito anos, o Vilaça vendia um lote pequeno. Sempre objetos pessoais. Sempre descritos com uma pobreza que destoava do capricho dele: "caneta de uso diário", "óculos do proprietário anterior", "anel, procedência familiar".
Proprietário anterior. Em lotes vendidos por um homem que nunca se casou, nunca dividiu a casa, nunca teve sócio.
E cruzando as datas dos lotes com os jornais da cidade — porque a essa altura eu já tinha aceitado que meu fim de semana pertencia ao morto — cada venda acontecia meses depois de um desaparecimento na região. Uma governanta, em 74. Um restaurador de móveis, em 89. Uma avaliadora de leilões, em 2003.
O nome dela era Marta. A foto do jornal mostra uma mulher de óculos, prancheta na mão, sorrindo na porta de um casarão.
Deste casarão.
O lote vendido pelo Vilaça oito meses depois incluía: "óculos femininos, aro fino, uso diário".
Voltei na segunda-feira. Registro isso e sei como soa.
Voltei porque contrato de espólio tem multa, porque onze anos de reputação não se abandonam por uma teoria que eu não conseguiria nem terminar de contar em voz alta sem ser convidada a procurar ajuda — e porque, no fundo, com a arrogância específica de quem trabalha com método, eu achava que entender o mecanismo era o mesmo que estar fora dele.
A casa me recebeu com o silêncio ocupado de sempre, e com uma novidade.
Todas as etiquetas dos objetos sumidos — o tinteiro, o abridor, o relógio — estavam descoladas dos móveis e coladas, uma embaixo da outra, na moldura do espelho grande do vestíbulo, que era o item 2 da listagem e que eu passei a evitar não pelos motivos clássicos, mas porque um espelho com uma coluna de etiquetas de inventário coladas na moldura parece, exatamente, uma ficha em preenchimento.
E à meia-noite daquele dia, a linha nova:
Item 47 — Objeto pessoal. Uso diário. Cabe na mão. Acompanha a dona. Anota tudo.
Olhei pra minha mão direita.
Pra prancheta. Pra caneta presa nela, a minha caneta, a de sempre, a que meu pai me deu na formatura, a que eu uso todo santo dia, que cabe na mão, que me acompanha, que anota tudo —
E entendi, com onze anos de atraso técnico, o que a listagem estava fazendo desde a primeira linha.
Ela não estava descrevendo um objeto que sumiu.
Estava especificando uma encomenda.
Larguei a prancheta no chão do vestíbulo — descolar a caneta da minha mão exigiu uma decisão consciente, dedo por dedo, porque a mão não queria, a mão discordava, a mão tinha onze anos de jurisprudência a favor de segurar aquela caneta — e fui até a porta.
A chave girou. A fechadura abriu. A porta, não.
Não emperrada: indisposta. O mesmo peso educado de gaveta de arquivo morto, de coisa que não nega, apenas informa que o expediente para este tipo de solicitação já encerrou.
Atrás de mim, no espelho do vestíbulo, uma etiqueta nova se colou na moldura. Ouvi. Etiqueta colando faz um som mínimo e eu ouvi, no silêncio ocupado, nítido como martelo de leilão.
Falei com a casa. Em voz alta, no vestíbulo, com a dignidade possível de uma mulher negociando com um imóvel:
— Eu não sou item. Eu sou a avaliadora. Vocês precisam de mim do lado de fora. Item não assina laudo. Item não bate martelo. Item não dá procedência.
O silêncio ocupado considerou. A casa inteira fez a pausa de comprador experiente recebendo uma contraproposta, o ar mudou de peso, e a porta — sem drama, sem ranger — abriu.
Saí andando devagar. Corrida se faz de presa, e eu tinha acabado de me recadastrar como fornecedora.
Entreguei o laudo na semana seguinte, por e-mail, alegando obra na casa. O espólio foi a leilão com 43 itens — três extravios registrados, seguro acionado, ninguém questionou porque extravio em espólio é a coisa mais normal do mundo, e a normalidade, eu descobri, é o melhor esconderijo que uma casa pode ter.
O casarão foi arrematado por um comprador de fora, num lance único, sem visita prévia. Colecionador, disseram no cartório. Recluso.
Eles se encontram, essas casas e esses homens. Sempre se encontraram. Não é da minha alçada — meu laudo vai limpo, minha parte termina no martelo.
É o que eu repito, todas as noites, com resultados decrescentes.
Porque a listagem oficial, protegida, arquivada no cartório com autenticação e fé pública, tem 47 linhas até hoje. Conferi ontem. A última diz:
Item 47 — Objeto pessoal. Uso diário. Cabe na mão. Acompanha a dona. Anota tudo. Em trânsito.
Em trânsito.
E a minha caneta — a da formatura, a que eu larguei presa na prancheta no chão do vestíbulo do casarão Vilaça, a que eu vi pela última vez a três metros de um espelho com etiquetas na moldura — estava hoje de manhã na minha mesa, no meu escritório, no pote de sempre.
Com uma etiqueta de inventário colada no corpo. Numeração antiga, tinta do cartório, caligrafia que eu conheço de listagem inteira examinada à lupa.
47.
Eu não peguei a caneta. Estou escrevendo isto com outra, comprada hoje, na papelaria da esquina, paga em dinheiro como se isso fizesse diferença.
Mas o pote fica na minha mesa. E a mesa fica na minha casa. E a etiqueta diz que o item 47 acompanha a dona — e eu passei onze anos aprendendo que, quando a descrição e o objeto finalmente batem, o inventário não está errado.
Está concluído.
E coleção nenhuma aceita ficar incompleta.




