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Caso Nº 008 — Arquivo aberto

Na Fila da Black Friday

Ilustração do conto Na Fila da Black Friday

Cheguei na fila às seis da tarde de quinta pra promoção que abria seis da manhã de sexta.

Doze horas de calçada por um desconto de quarenta por cento numa TV que, sendo sincero, eu nem precisava tanto assim. Mas existe uma lógica específica que toma conta de quem entra numa fila de Black Friday — não é mais sobre o produto, é sobre não ser o único trouxa que ficou de fora enquanto todo mundo levava vantagem. Capitalismo tem esse dom incrível de fazer sofrimento coletivo parecer oportunidade.

Trouxe cadeira de camping, cobertor, um powerbank que ia morrer de qualquer jeito antes da manhã. A calçada já tinha um bom pedaço de gente organizada em fila torta, cada um com seu acampamento urbano de sobrevivência ao consumo, todo mundo fingindo com muita convicção que aquilo era normal.

Era. Era completamente normal.

E esse, aliás, é o detalhe mais incômodo de tudo que vou contar: nada parecia estranho enquanto estava acontecendo.

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Por volta das dez, um cara mais velho — gorro puxado até as sobrancelhas, cadeira dobrável, aquele tipo de veterano que transforma sofrimento repetido em currículo — começou a puxar assunto.

— Quinta Black Friday minha, nessa mesma loja — ele disse, com o orgulho de quem sobreviveu a alguma coisa que ninguém pediu pra sobreviver.

— Reparou como a fila nunca anda direito? — ele continuou, baixando a voz. — Você marca posição, dorme, acorda, sempre tem gente na sua frente que jura que não tava lá antes.

Eu tinha reparado. Passei boa parte da noite contando quantas pessoas tinha na minha frente, e o número nunca batia — cento e doze, depois cento e nove, depois cento e dezoito, como se a fila respirasse devagar, inchando e desinchando no escuro.

— Cansaço — falei, mais pra convencer a mim mesmo.

Ele só deu de ombros e voltou a olhar pro celular, como quem já discutiu esse assunto tempo demais pra ainda achar necessário insistir.

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Perto da meia-noite decidi dar uma volta pelo quarteirão. Esticar as pernas, comprar café numa padaria vinte e quatro horas que eu tinha visto na esquina.

Andei uns vinte metros.

A padaria não estava lá.

Não que tivesse mudado de lugar — não estava lá porque a esquina, simplesmente, não terminava mais onde deveria terminar. Continuei andando e a calçada continuou também, um trecho a mais que eu não lembrava, com a mesma fila do mesmo lado, agora bem mais comprida do que eu tinha calculado ao entrar nela.

Virei pra voltar.

A fila estava lá também, na direção oposta.

Fiquei parado no meio da calçada com aquela sensação gelada de estar dentro de mapa que alguém dobrou errado, sem querer admitir em voz alta o que já sabia.

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Tentei atravessar a rua. A rua continuava do outro lado, com mais fila.

Tentei entrar numa transversal. Ela me devolvia pra mesma calçada.

Corri — não muito longe, o suficiente pra suar frio e sentir o peito apertar — e "correr" também só me trouxe de volta pro mesmo ponto de origem, ofegante, ao lado do cara do gorro, que nem levantou o olhar do celular dessa vez.

Não fui o único tentando.

Vi uma mulher de moletom cinza tentar a mesma coisa uns vinte minutos depois — sair caminhando decidida, voltar confusa, tentar de novo, voltar mais confusa ainda, até parar no meio da calçada gritando um nome que eu presumi ser de alguém que ela tinha ido buscar e não encontrou em lugar nenhum porque não havia lugar nenhum pra encontrar. Ninguém foi ajudar. As pessoas ao redor abaixavam o olhar, tensas, como quem já sabe que ajudar não muda nada e só chama atenção pro lado errado.

Vi um adolescente sair correndo, gritando, batendo a mão nas próprias pernas como se estivesse tentando acordar de dentro do próprio corpo. Correu até sumir de vista na curva impossível da rua e voltou minutos depois andando devagar, muito quieto, sem falar com ninguém pelo resto da noite.

E vi, perto das duas da manhã, a mão.

• • •

Foi rápido. Rápido o suficiente pra eu quase convencer a mim mesmo que não tinha visto — mas vi.

Um homem de casaco vermelho, uns dez metros à frente na fila, resolveu discutir com o ar. Gritava que já estava ali há muito tempo, que tinha família esperando, que precisava sair dali agora, agora, *agora*.

Uma mão comprida demais, com uma articulação a mais do que deveria ter, saiu de algum ponto entre as sombras da marquise da loja fechada e fechou no ombro dele.

Ele não gritou. O som simplesmente parou de sair.

E ele sumiu — não foi puxado pra dentro da loja, não caiu, não se foi andando. Simplesmente parou de estar ali, no espaço de um piscar, como se alguém tivesse apagado aquele pedaço específico da realidade e continuado a fila normalmente ao redor do vazio deixado.

Ninguém comentou.

Ninguém olhou pro lugar onde ele tinha estado.

Foi nesse momento que o cara do gorro, sem que eu pedisse, tirou do bolso um saco plástico surrado com três páginas dobradas dentro.

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— Teve um cara aqui, 2019 — ele disse, a voz baixa, sem o tom de piada que eu esperava depois de tudo que tinha acabado de ver. — Sumiu no meio da noite. Mas diferente do que você acabou de ver. Ele sumiu por conta própria.

Peguei as páginas com a mesma urgência de quem agarra boia sem saber nadar.

Letra apagada de tanta fotocópia. Texto incompleto de um jeito irritante — falava de "pagar com o que for seu" sem detalhar, mencionava sal, um círculo riscado com o pé, "oferenda do que a fila descarta". No fim, uma frase mais legível que o resto:

*"Fogo fecha o que promessa abre."*

Não fazia sentido completo. Mas eu tinha acabado de ver um homem inteiro desaparecer de uma fila de eletrodomésticos, então "sentido completo" já não era exatamente o parâmetro disponível.

• • •

Afastei da fila principal pro canto onde o lixo da noite tinha se acumulado.

Risquei um círculo no chão com o pé. Empilhei o lixo no centro. Sal eu não tinha — improvisei com um saquinho de amendoim salgado, espalhando os grãos ao redor com as mãos tremendo mais do que eu gostaria de admitir. Cortei a ponta do dedo com a chave do carro, deixei pingar em cima da pilha.

Risquei o fósforo.

O lixo pegou fogo com uma facilidade que lixo úmido de calçada não costuma ter.

Fiquei ajoelhado ali, olhando pro fogo baixo, esperando alguma coisa se abrir, sentindo aquela onda quente de esperança idiota subir no peito com uma força que eu não sabia mais que ainda tinha disponível depois de tudo. Fiquei rezando — literalmente rezando, algo que eu não fazia desde criança — pra que aquilo funcionasse, pra que aquele fosse o momento em que eu virasse o próximo boato contado pra próxima geração de gente entediada numa calçada.

O fogo apagou sozinho.

O círculo de sal ficou só sal.

Nada se abriu.

• • •

Eu já sabia, antes mesmo de olhar pro lado, que a mão vinha vindo.

Corri.

Não adiantou — sabia que não ia adiantar antes mesmo de dar o primeiro passo, porque tinha visto a mulher de moletom correr e voltar, tinha visto o adolescente correr e voltar, sabia exatamente como aquilo terminava e corri assim mesmo, porque o corpo às vezes ignora o que a cabeça já sabe.

Ouvi os passos atrás de mim, pesados, irregulares, sem pressa nenhuma porque não precisava de pressa.

A mão fechou no meu ombro no meio de um passo.

• • •

Acordei dentro da loja.

Não vou tentar explicar a transição porque não houve nada pra explicar — só um corte, um "antes" que virou "depois" sem nada perceptível entre os dois.

Prateleiras. Fileiras e mais fileiras de prateleiras, se estendendo além de qualquer limite razoável de loja de eletrônicos, cheias de televisão, de fone de ouvido, de eletrodoméstico embalado, tudo em promoção, tudo com etiqueta vermelha, tudo absolutamente inútil pra mim agora.

Gente andando entre os corredores, empurrando carrinho vazio, sem falar, sem se olhar.

Reconheci o homem de casaco vermelho três corredores à frente, parado em frente a uma prateleira de liquidificador, olhando pra caixa sem tocar.

Fiquei parado onde estava.

Peguei um carrinho sem decidir pegar.

Andei um corredor sem decidir andar.

As prateleiras continuavam. E continuavam. E continuavam.

Em algum momento, sem perceber exatamente quando, parei de tentar sair do corredor.

Fiquei olhando pra uma TV de sessenta e cinco polegadas, com etiqueta de quarenta por cento de desconto, embalada, brilhando debaixo da luz branca do teto.

Nunca vou usar aquela TV.

Fiquei olhando pra ela assim mesmo.

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