O reflexo chega atrasado às 2h47 da manhã, e eu só percebo porque estou de cueca, descalço, segurando um copo d'água no escuro do corredor, e o homem no espelho do banheiro ainda está com a mão abaixada quando a minha já subiu.
Meio segundo. Talvez menos. O tempo que leva pra uma tela de celular velha carregar uma foto.
Volto pra cama e cataloguo como todo adulto funcional cataloga o que não cabe na planilha: sono ruim, apartamento novo, iluminação de poste entrando torto pela janela basculante. O kit completo. Ninguém que paga oitocentos e noventa reais de aluguel num prédio de cinco andares com porteiro eletrônico quebrado tem direito a fenômeno sobrenatural. Fenômeno sobrenatural é coisa de gente que mora em casarão. Eu moro no 7, terceiro andar, fundos, vista pra caixa d'água do prédio vizinho.
O aluguel era barato demais pra cidade. Eu sabia disso. Assinei mesmo assim, porque tem um ponto na vida adulta em que você para de perguntar por que alguma coisa é barata e começa só a agradecer e assinar antes que alguém mude de ideia.
O síndico, seu Valdir, me entregou a chave sem olhar nos meus olhos e disse uma única frase que não estava em contrato nenhum:
— O espelho do banheiro veio com o apartamento. Não tá no inventário.
Eu ri, achando que era piada de síndico. Ele não riu. Anotei como excentricidade de quem passa o dia ouvindo reclamação de vazamento. Era cláusula.
A primeira carta chega numa terça, no escaninho de alumínio amassado do térreo, junto com a conta de luz e um panfleto de pizzaria que também não pedi.
Envelope branco. Sem remetente. Selo carimbado da agência central. Endereçado a Henrique Salles, Ap. 7.
Não sou Henrique Salles. Deixo em cima da bancada da cozinha com a intenção honesta de devolver pros Correios, que é o tipo de intenção que a gente tem com a mesma sinceridade com que promete ir pra academia em janeiro. Fica lá três dias, apoiada no açucareiro, me olhando com aquela cara de envelope que sabe que vai ser aberto.
Na terceira noite eu abro. Não tenho orgulho disso. Tenho insônia, que é pior.
A letra é miúda, inclinada pra esquerda, de quem aprendeu a escrever com caderno de caligrafia e nunca desaprendeu.
Hoje percebi que o reflexo demora. Frações de segundo, nada que alguém de fora notasse. Mas eu noto. Levantei a mão direita e o reflexo levantou a esquerda um instante depois, como se precisasse processar a informação.
Dobro o papel do jeito exato que ele veio dobrado, o que é ridículo, como se fosse devolver. Vou até o banheiro. Fico dois minutos inteiros na frente do espelho levantando a mão, abaixando a mão, piscando, fazendo careta, um homem de trinta e um anos testando a física do próprio rosto às onze da noite de uma terça.
Nada. Reflexo pontual. Profissional. Um reflexo que bate o ponto no horário.
Apago a luz pra sair.
E no escuro, de canto de olho, o reflexo pisca.
Eu não pisquei.
Desço no dia seguinte até a portaria, que no meu prédio é uma guarita de vidro fumê com um senhor dentro que assiste novela no celular com volume no máximo. Pergunto pelo Henrique Salles. Antigo morador, talvez. Pra devolver correspondência.
O seu Ademir tira os olhos da novela, me mede de cima a baixo e diz:
— O senhor quer que eu guarde as cartas dele aqui, seu Henrique?
Fico um tempo parado. Ele volta pra novela como quem já resolveu um problema. Eu corrijo meu nome. Ele pede desculpas sem me olhar, diz que é a idade, que confunde os moradores, que o 7 sempre tem um rapaz parecido.
Sempre.
Subo a escada porque o elevador está com plaquinha de manutenção desde antes de eu me mudar, e na escada do segundo pro terceiro andar penso que confundir morador é o tipo de coisa que acontece mesmo. É idade. É novela. É prédio barato onde todo mundo tem a mesma cara de cansado.
É a terceira desculpa da semana. Estou ficando sem estoque.
A segunda carta chega quatro dias depois.
O atraso aumentou. Já são segundos. Levanto o braço e conto: um, dois, três, e só então o reflexo levanta. Como um eco. Pesquisei sobre alucinação visual por privação de sono. Pesquisei sobre síndico. Pesquisei sobre espelho. Ninguém nunca escreveu sobre espelho que precisa de tempo pra decidir se vai obedecer.
Leio aquilo na mesa da cozinha, com o café esfriando, e uma coisa me incomoda mais do que o conteúdo.
A data no topo da carta é de daqui a dois dias.
Viro o envelope. Carimbo dos Correios: de anteontem. Eu conto nos dedos como um estagiário confere troco. A carta foi escrita depois de ser postada. Ou foi escrita por alguém que sabia o que eu ia sentir quinta-feira.
Na quinta-feira, no banheiro, levanto o braço pra pegar a toalha e conto sem querer: um, dois, três.
E o reflexo levanta o braço.
A partir daí as cartas chegam sem o carimbo dos Correios. Aparecem no escaninho. Depois aparecem debaixo da porta. Depois aparecem em cima da bancada da cozinha, já abertas, dobradas do jeito que eu dobro.
Ligo pra imobiliária. A moça do atendimento, que tem voz de quem lê roteiro, abre o meu cadastro e confirma que não existe nenhuma pendência de correspondência no meu imóvel. Peço o histórico de inquilinos. Ela diz que por questões de privacidade não pode informar. Pergunto, então, por que o espelho do banheiro não está no laudo de vistoria. Escuto ela digitando.
— O item espelho consta como "não removível pelo locatário", senhor.
— Não removível como? Parafusado?
Um silêncio de três segundos, o tempo exato que o meu reflexo levou pra levantar o braço na quinta.
— Só consta assim, senhor. Posso ajudar em algo mais?
Não pode. Ninguém pode. A imobiliária é uma instituição que existe pra garantir que o aluguel caia no dia cinco, e não pra garantir que o espelho de um apartamento obedeça ao homem que paga o aluguel.
A quarta carta está aberta em cima da bancada quando eu acordo. Não lembro de ter aberto. Na última linha:
Hoje o reflexo me olhou. Não pro meu reflexo. Pra mim, do outro lado. E sorriu. Eu não estava sorrindo.
Abaixo a carta devagar.
No espelho pequeno da porta do armário da cozinha, que eu nem lembrava que existia, o reflexo já tinha abaixado a carta. Antes de mim. Com aquela antecedência de um segundo que já virou um tipo de sotaque.
Levanto os olhos. Ele já tinha levantado.
E então sorri. Ele sorri. A ordem, a essa altura, é uma formalidade que nenhum dos dois respeita mais.
Eu não estava sorrindo.
Arranco o espelho do armário com as mãos. Sai fácil, colado com fita dupla-face de loja de um real, e quebra no chão em seis pedaços. Em cinco deles, a cozinha vazia. No sexto, o maior, o reflexo continua de pé, olhando pra baixo, pros cacos, com a cara de paciência de quem já viu outro morador fazer exatamente isso.
Pesquiso Henrique Salles do jeito que se pesquisa morto no Brasil: jornal de bairro, nota de falecimento, página de condolências com três comentários e um anúncio de coroa de flores.
Henrique Salles, 34 anos, encontrado sem vida no apartamento onde residia. A família agradece as orações.
Três anos atrás. Apartamento 7.
Desço até a guarita de vidro fumê. O seu Ademir não está. No lugar dele tem o livro de ocorrências do condomínio, aberto em cima da mesa, e eu leio de cabeça pra baixo, porque é o único jeito de ler sem pedir licença.
Uma linha só, de três anos atrás, na letra do seu Valdir:
Ap. 7 — espelho permanece.
Nenhuma explicação. Nenhuma outra menção ao 7 no livro inteiro. Só essa linha, e embaixo dela, com a mesma caneta, a data da minha mudança.
Faço o que qualquer pessoa racional faz: compro um lençol e cubro o espelho do banheiro. Prendo com fita crepe nos quatro cantos. Tomo banho de olhos fechados, escovo os dentes de costas pra pia, faço a barba por tato como um preso de filme antigo.
Funciona por duas noites.
Na terceira, às 2h47, acordo com um barulho que levo um tempo pra identificar porque nunca ouvi antes de dentro de casa.
Papel sendo dobrado.
Vou até o banheiro com o celular na mão, a lanterna acesa. O lençol continua preso nos quatro cantos. Mas está estufado no meio, pra fora, como se alguma coisa do outro lado estivesse encostada nele, de frente pra mim, na altura do meu rosto.
E na pia, embaixo do lençol, um envelope novo.
Branco. Sem remetente. Endereçado ao próximo inquilino, Ap. 7.
A letra é minha.
Coloquei o envelope em cima da geladeira. Fiz café. Sentei nesta cadeira da cozinha e escrevi tudo isso porque precisava de uma sequência cronológica fora da minha cabeça, e porque escrever à mão, com caneta, numa folha que eu posso ver, é a única coisa que ainda faço antes dele.
Pelo menos é o que eu acho.
O lençol do banheiro está no chão agora. Eu ouvi cair às 4h10. Não fui ver.
Não vou abrir o envelope. Não faz sentido abrir. Eu já sei o que está escrito lá dentro, porque estou terminando de escrever agora, e a última frase é esta.
Do banheiro, alguém acabou de dobrar a folha.
Antes de mim.




