Me mudei pro apartamento 7 numa sexta-feira, que já é um começo idiota pra qualquer história.
O aluguel era barato demais pra cidade. Eu sabia disso. Aluguei assim mesmo, porque tem um ponto na vida adulta em que você para de perguntar por que alguma coisa é barata e começa a só agradecer e assinar o contrato antes que alguém mude de ideia.
O síndico me entregou a chave sem me olhar nos olhos e disse só: — O espelho do banheiro veio com o apartamento. Não tá incluso no inventário.
Eu não perguntei o que isso significava. Devia ter perguntado.
O primeiro problema foi o sono. Não que eu não dormisse — dormia, só que o sono não fechava direito.
Numa das primeiras noites acordei às 2h47 sem motivo aparente. Fui até a cozinha beber água. Passei pela soleira do banheiro no escuro. De canto de olho, o espelho pegou minha passagem.
O reflexo tinha aparecido tarde. Frações de segundo. Nada que qualquer pessoa em condições normais teria notado.
Voltei pra cama. Cataloguei como: exaustão, falta de calibração visual no escuro, não relevante.
A primeira carta chegou três dias depois da mudança. Envelope branco. Sem remetente. Endereçado a Henrique Salles, Ap. 7. Não sou Henrique Salles.
Joguei em cima da bancada com intenção de devolver pro correio. Esqueci. Na terceira noite, abri.
A letra era miúda, inclinada pra esquerda. "Hoje percebi que o reflexo demora. Frações de segundo, nada que alguém de fora notasse. Mas eu noto. Levantei a mão direita e o reflexo levantou a esquerda um momento depois, como se precisasse processar a informação."
Dobrei o papel. Fui até o banheiro. Fiquei parado na frente do espelho por dois minutos inteiros testando. Nada. Reflexo normal.
A segunda carta chegou. "O atraso aumentou. Já são segundos inteiros. Levanto o braço e conto: um, dois, três, e então o reflexo levanta o braço. Como um eco. Pesquisei sobre alucinações visuais relacionadas a privação de sono."
Li a frase de novo. Durmo mal desde que cheguei aqui.
Fui até o banheiro. Desliguei a luz. Virei pra sair. E no escuro, o reflexo piscou. Eu não tinha piscado.
A quarta carta estava aberta em cima da bancada quando acordei. Não me lembro de ter aberto.
Na última linha: "Hoje o reflexo me olhou. Não pro meu reflexo — pra mim, do outro lado. E sorriu. Eu não estava sorrindo."
Abaixei a carta. No espelho, o reflexo tinha abaixado a carta antes de mim. Levantei os olhos. O reflexo levantou os olhos antes.
E então sorriu — com aquela antecedência de um segundo que eu já conhecia.
Eu não estava sorrindo.
Pesquisei Henrique Salles. Nota de falecimento. Jornal de bairro. Três anos atrás. Henrique Salles, 34 anos, encontrado no Apartamento 7.
Três anos atrás. As cartas tinham chegado essa semana.
Em cima da pilha de envelopes abertos, havia um envelope novo. Branco. Sem remetente. Endereçado ao próximo inquilino. Sem nome — só "ao próximo inquilino, Ap. 7."
A letra era minha.
Coloquei em cima da geladeira. Fiz café. Sentei nessa cadeira e escrevi tudo isso porque precisava de uma sequência cronológica fora da minha cabeça.
Não vou abrir o envelope. Não faz sentido abrir — eu já sei o que está escrito lá dentro.
Não vou abrir. Mas vou. Porque sempre vamos.
Fim do caso.



