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Caso Nº 012 — Arquivo aberto

Ver Além

Ilustração do conto Ver Além

Baixei o app porque era sexta à noite, eu não tinha absolutamente nada melhor pra fazer, e "Ver Além" com ícone de olho dentro de triângulo é exatamente o tipo de bobagem que curiosidade mal alimentada consegue justificar às dez da noite.

Zero avaliação na loja. Tamanho de arquivo suspeito demais pra prometer o que prometia. Baixei assim mesmo, porque sou eu, e autopreservação nunca foi meu talento mais desenvolvido.

O app pediu câmera. Normal. O menu de três opções — Ver Auras, Ver Portais, Ver Entidades — não era normal, mas parecia gracinha de horóscopo de internet o suficiente pra eu não me preocupar de verdade.

Toquei em "Ver Auras" primeiro. Ganhei um contorno azul suave ao redor do meu próprio corpo no espelho, pulsando devagar.

Fofo. Genuinamente fofo. Programador tinha talento, decidi, sem imaginar que "talento" seria a palavra menos relevante da noite inteira.

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"Ver Portais" já foi mais estranho — rachadura fina e luminosa cruzando a parede do quarto, que eu conferi a olho nu na mesma hora, feito idiota que precisa se convencer duas vezes da mesma coisa ruim.

Um canto perto do banheiro tinha rachadura mais forte que as outras.

Parei de rir. Fui beber água só pra ter desculpa de sair do quarto.

Voltei quarenta minutos depois porque curiosidade, aparentemente, tem prazo de validade mais curto que bom senso.

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"Ver Entidades" estava discretamente ali, esperando com toda a paciência de quem sabe que você vai voltar de qualquer jeito.

Toquei.

Perto do guarda-roupa, a tela mostrou uma forma que meu olho nu insistia em ver como espaço vazio. Alta, magra, escura demais pra qualquer detalhe generoso.

Abaixei o celular. Vazio, claro.

Levantei de novo. A forma tinha se movido um passo mais perto — o tipo de atualização que nenhum app deveria entregar sem aviso prévio nos termos de uso.

Ela virou — só a parte de cima, onde presumivelmente ficaria um rosto se aquilo se dignasse a ter um — e olhou direto pra câmera.

Direto pra mim. Do outro lado da tela.

Larguei o celular no carpete.

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Devia ter fechado o aplicativo naquele momento exato e vivido o resto da vida fingindo que sexta-feira nunca aconteceu.

Não fechei. Desinstalei — o que, em retrospecto, foi mais ou menos como fechar a porta de casa e deixar a janela escancarada, orgulhoso da própria burrice.

Porque na noite seguinte, sem celular nenhum na mão, sem câmera, sem "Ver Entidades" aberto em lugar nenhum, vi a mesma forma parada no mesmo canto do guarda-roupa.

A olho nu.

Sem tecnologia. Sem desculpa. Só eu e ela, numa transação direta que eu definitivamente não tinha assinado.

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Ela não sumiu mais. Aprendeu meu apartamento inteiro em poucos dias — sabia exatamente onde ficar pra eu ver de relance no espelho do corredor, sabia a hora certa de aparecer atrás de mim no reflexo escuro da tela da TV desligada, sabia, com uma intimidade perturbadora, todos os cantos da minha rotina.

Mudei de apartamento. Ela chegou antes de mim — encontrei a forma parada no canto do quarto novo antes mesmo de eu terminar de desembalar as caixas, o que definitivamente não é o tipo de boas-vindas que qualquer contrato de aluguel deveria permitir sem aviso.

Parei de dormir direito. Parei de tomar banho com a porta fechada. Parei, ponto principal da história, de conseguir fingir que aquilo era coincidência, alucinação, cansaço, qualquer palavra bonita que profissional de saúde mental teria adorado me vender.

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Não vou fingir que lembro exatamente quando parei de dormir em apartamento.

Sei que em algum momento a rua pareceu mais segura que teto — o que é, convenhamos, uma frase que ninguém deveria ter motivo real pra pensar, mas ali estava eu, catálogo ambulante de decisões questionáveis, escolhendo calçada em vez de colchão.

A rua tem luz de poste. Luz de poste, aprendi, é pior que escuro — porque escuro pelo menos não mostra os detalhes que eu preferia não ter confirmado sobre o formato daquilo.

Comecei a falar sozinho. Não por loucura — por necessidade prática, porque avisar em voz alta "ela tá vindo" pros poucos que passavam perto de mim parecia, na minha cabeça já bastante avariada, um serviço público genuíno.

Ninguém agradeceu o aviso. Estranhamente.

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Hoje moro numa esquina que ninguém mais quer, com um carrinho de supermercado cheio de coisa que faz sentido só pra mim, gritando pra quem passa que o mundo já acabou, que os demônios já estão andando entre a gente há mais tempo do que qualquer um imagina, que tem coisa nos cantos dos quartos de todo mundo, só que a maioria tem a sorte idiota de nunca ter baixado o aplicativo certo.

As pessoas atravessam a rua pra não passar perto de mim. Entendo. Eu também atravessaria.

Mas de vez em quando alguém para, olha nos meus olhos com aquela pena reservada pra quem "perdeu a cabeça", e eu quero rir — quero rir de verdade, com aquele sarcasmo que ainda sobrevive intacto lá no fundo, porque a piada real é que eu não perdi nada.

Eu ganhei visão demais pra cabeça que tinha.

Ela ainda está ali, sabe. Bem atrás de você agora, provavelmente, enquanto lê isso.

Só que você, com sorte, nunca vai instalar o aplicativo que ensina a enxergar.

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