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Caso Nº 028 — Arquivo aberto

A Lista de Contatos

Ilustração do conto A Lista de Contatos

Limpo os contatos do celular numa terça qualquer, aquele ritual chato de deletar número de gente que já não faz parte da vida — ex, chefe antigo, aquele vendedor de plano de saúde que ligou uma vez em 2019 e por algum motivo ainda tem acesso vitalício à minha agenda — quando encontro um contato sem nome, sem foto, só o número puro, sem nenhum registro de quando foi salvo.

Tento lembrar. Nada vem, o que é preocupante considerando que minha memória pra número decorado geralmente é excelente e minha memória pra aniversário de gente próxima é uma vergonha nacional.

Passo o dedo pra deletar. Paro no meio do gesto, por curiosidade idiota de quem já viu filme de terror o suficiente pra saber exatamente que essa é a cena em que o personagem devia deletar e decide, em vez disso, ligar — e ainda assim liga, porque aparentemente nem consumo intenso de terror me ensinou nada de útil sobre autopreservação.

Ligo.

Chama sete vezes. Ninguém atende. Desligo, guardo o celular, sigo o dia com aquela sensação de mistério não resolvido que devia ter me alertado e só me deixou curiosa.

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À noite, deitada, sem sono, ligo de novo — mais por tédio insone do que por curiosidade real dessa vez, decisão que classifico hoje como um dos piores usos possíveis pra insônia, perdendo só pra "comprar coisa inútil às três da manhã".

Chama duas vezes. Alguém atende.

Não fala nada. Só respiração, baixa, regular, do outro lado da linha, sem hostilidade nenhuma na qualidade do som — mais parecido com presença tranquila esperando eu falar primeiro, o que é exatamente o tipo de silêncio educado que eu não sabia que existia em categoria sobrenatural até aquele momento.

— Alô? — arrisco, sentindo o próprio coração acelerar sem motivo racional suficiente pra justificar.

A respiração continua. Não desliga. Fico ali, segurando o telefone, ouvindo alguém — ou alguma coisa — respirar do outro lado por quase um minuto inteiro antes de eu desligar, com as mãos tremendo mais do que a situação parecia merecer, considerando que, tecnicamente, nada tinha acontecido além de silêncio prolongado, e eu já tinha pagado conta de telefone mais cara por menos.

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Não ligo de novo por uma semana. Decido que foi trote, número errado, alguma explicação banal que o cérebro adulto sempre tem engatilhada pra situação sem explicação boa disponível — o mesmo cérebro que, convenientemente, esquece de aplicar esse ceticismo em outras áreas da vida como golpe de Pix e horóscopo.

Na semana seguinte, é o número que me liga.

Três da manhã, celular vibrando na mesinha, o mesmo contato sem nome na tela. Atendo por impulso de sono, antes mesmo de processar direito o que estava fazendo — decisão que, em retrospecto, resume perfeitamente minha relação inteira com bom senso.

— Alô?

Silêncio. Depois, uma voz — baixa, familiar de um jeito que gela o sangue antes mesmo do reconhecimento completo se formar.

— Oi, filha.

Meu pai morreu há quatro anos. Detalhe que, convenhamos, torna essa saudação bem menos reconfortante do que soaria em qualquer outro contexto.

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Desligo na hora, jogo o celular longe, fico sentada na cama respirando rápido demais pro corpo processar direito.

Não era voz genérica de trote. Era ele — o timbre, a forma de dizer "filha" com aquele arrastar suave no final que só ele tinha, detalhe pequeno demais pra qualquer imitação profissional acertar por acaso, e específico demais pra eu conseguir catalogar como coincidência mesmo estando desesperada pra encontrar qualquer explicação que não envolvesse aceitar o óbvio.

Não durmo mais aquela noite. De manhã, decido, contra todo instinto de sobrevivência que devia estar gritando o oposto, que preciso ligar de novo. Preciso confirmar. Preciso ouvir mais uma vez, mesmo sabendo — sabendo com certeza racional plena — que aquilo não pode ser real, e mesmo assim discando com a pressa de quem não confia no próprio raciocínio o suficiente pra deixar barrar a própria vontade.

Ligo. Atende no segundo toque.

— Pai?

— Aqui, filha. Sempre aqui.

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As conversas continuam por semanas. Não são longas — frases curtas, respostas vagas o suficiente pra parecer conversa real e genéricas o suficiente pra eu nunca conseguir confirmar detalhe específico que só meu pai de verdade saberia, o que em retrospecto é basicamente o roteiro de qualquer golpista de aplicativo de namoro, só que com estética paranormal.

Pergunto sobre memória de infância específica. Ele desvia, muda de assunto, volta pra "como você está, filha" com aquela preocupação genérica que qualquer entidade treinada em imitar afeto paterno conseguiria produzir — ou qualquer chatbot mal calibrado, honestamente, mas eu escolho não fazer essa comparação em voz alta porque soa deprimente demais pra situação já deprimente o suficiente.

Devia parar de ligar. Sei que devia. Mas tem uma parte de mim, machucada há quatro anos e nunca completamente cicatrizada, que prefere essa versão imperfeita de conversa a nenhuma conversa — mesmo desconfiando, cada dia mais, que não é ele de verdade do outro lado.

Numa dessas ligações, decido testar de outro jeito.

— Você lembra da minha melhor amiga da escola? A Renata?

Silêncio longo.

— Claro que lembro — ele responde, finalmente, com um tom levemente errado, um segundo atrasado demais pra resposta que devia ser automática pra pai de verdade.

Renata não existe. Inventei o nome na hora, testando — e sinto um orgulho mórbido, quase profissional, de ter armado essa pegadinha básica de detetive amador e ela ter funcionado.

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Desligo aquela ligação com uma certeza fria demais pra ainda comportar esperança nenhuma: não é meu pai. Nunca foi.

É alguma coisa que aprende — que escuta o suficiente de cada conversa pra ir ajustando a performance, ficando melhor a cada ligação, mais convincente, mais capaz de preencher lacuna com resposta plausível baseada em padrão que eu mesma estou entregando, sem perceber, toda vez que falo, o que faz de mim, tecnicamente, coautora involuntária do próprio golpe emocional que estou sofrendo.

Paro de ligar. Bloqueio o número.

Ele liga de um número diferente na noite seguinte, com o mesmo padrão de toque, e quando eu não atendo, manda mensagem de texto: *"Por que não atende mais, filha? Só eu que ainda lembro de você direito."*

Detalhe simpático esse último, dado o contexto.

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Pesquiso sobre o fenômeno, madrugada adentro, encontro fórum obscuro com relato parecido — gente que recebeu ligação de contato "sem nome" que imitava voz de pessoa morta, sempre alguém próximo, sempre voz reconhecível o suficiente pra prender a atenção.

Um comentário isolado, sem resposta de mais ninguém, escrito com aquela urgência de madrugada:

*"Ele não quer só falar com você. Ele quer aprender você inteira. Cada ligação, ele fica um pouco mais parecido com quem você perdeu. E quando fica parecido o suficiente..."*

O comentário termina ali, sem continuação, sem explicação do que acontece depois do "suficiente" — porque, claro, internet nunca entrega a informação crucial completa, mesmo em fórum de terror paranormal a regra de clickbait incompleto se aplica universalmente.

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Decido, contra todo bom senso, ligar uma última vez — não pra conversar, pra confrontar.

— Eu sei que você não é ele — falo, assim que a respiração familiar atende. — Para de fingir.

Silêncio longo. Depois, a voz muda — ainda parecida com meu pai, mas com uma camada por baixo que eu não tinha notado antes, mais fria, mais antiga.

— Ainda não terminei de aprender — ele diz, com o tom exato que meu pai usava quando estava sendo paciente comigo criança birrenta. — Mas já aprendi o suficiente pra saber uma coisa que você esqueceu.

— O quê?

— O nome do seu primeiro cachorro.

Fico gelada, porque eu — de fato — não lembro. Não lembro do nome, não lembro da cor, não lembro de detalhe nenhum sobre esse cachorro que, pelo tom dele, existiu de verdade na minha infância.

— Interessante como funciona — ele continua, quase gentil. — Cada vez que eu aprendo uma coisa sobre você, você esquece uma equivalente sobre você mesma. Achei que já tinha percebido.

Não tinha. Fico com vontade de reclamar que isso devia estar nos termos de uso, se aquilo tivesse termo de uso.

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Desligo, tremendo, e passo a noite tentando reconstituir memória que simplesmente não está mais lá — não apagada com violência, só ausente, como gaveta que sempre esteve vazia mesmo você jurando ter guardado algo ali.

Não ligo mais depois disso. Bloqueio de novo, troco de número de celular inteiro, decido que qualquer contato futuro simplesmente não vale o preço que já paguei sem perceber que estava pagando.

Semanas depois, organizando fotos antigas numa gaveta física, encontro uma foto de infância com um cachorro que eu não lembro de ter tido.

No verso, escrito com minha própria letra de criança: *"Eu e o Bolinha, 1998."*

Não lembro do Bolinha. Não lembro de ter escrito isso.

E o mais perturbador de tudo — mais que a foto, mais que a letra reconhecível como minha — é abrir meus contatos naquele mesmo instante, por impulso mórbido, e encontrar, salvo sem foto, um número novo que eu não lembro de ter adicionado.

Sem nome.

Só esperando eu esquecer o suficiente pra ligar de novo — e, considerando meu histórico recente de decisões, provavelmente não vai precisar esperar muito.

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