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Caso Nº 015 — Arquivo aberto

A Voz no Fone

Ilustração do conto A Voz no Fone

Três da manhã, sala vazia, só o zumbido da fluorescente e o headset apertando a cabeça de um jeito que só depois da meia-noite eu paro de sentir. Call center noturno tem essa vantagem duvidosa: paga mais, e ensina rápido que existe gente disposta a brigar por dez reais de desconto de madrugada, com uma paixão que dava pra resolver crise diplomática internacional se canalizada direito.

— Em que posso ajudar? — pergunto pela centésima vez na noite, voz de robô educado que dois anos de call center instalam em qualquer pessoa disposta a aguentar.

Cliente irritado, cobrança indevida, roteiro de sempre. Já tenho resposta pronta antes de ele terminar a frase, porque decoreba vira reflexo depois de tempo suficiente sendo xingada por coisa que não é culpa minha.

É no meio da fala dele que ouço.

Baixinho, atrás da voz do cliente, quase sobreposto:

*"Ela sabe."*

Paro de digitar. Ele continua reclamando sem pausa, sem perceber nada. Fico ali tentando decidir se imaginei, se foi interferência, ruído de linha velha, qualquer explicação de engenheiro que faça aquilo parar de significar o que meu estômago já decidiu que significa.

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Quinta chamada da noite. A voz volta, mais clara — não sussurro, quase conversa, numa frequência ligeiramente errada, tipo rádio mal sintonizado captando duas estações ao mesmo tempo.

*"Pergunta o nome dela. Ela mora sozinha desde março. Divórcio."*

A senhora do outro lado continua reclamando de internet, sem noção da companhia extra que embarcou na própria linha.

Não pergunto nada. Termino rápido, fico sentada ouvindo meu coração competir em volume com o zumbido da luz.

Conto pro colega do andar de cima no intervalo. Ele ri.

— Você tá dormindo mal.

Ótimo diagnóstico. Muito útil. Recomendo pra faculdade de medicina dele.

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A voz aparece em uma a cada quatro ou cinco chamadas, sempre atrás de quem está do outro lado, e vai deixando de ser fragmento solto pra virar apresentação completa, como quem finalmente decidiu que sussurro era formalidade dispensável.

*"Ele vai perguntar sobre a segunda via. Depois vai gritar. Depois vai pedir desculpa e desligar sem completar a frase."*

Acontece exatamente assim, palavra por palavra, ordem por ordem, e eu fico paralisada olhando pro monitor enquanto o script que ela previu se desenrola idêntico na minha frente, como se o cliente estivesse lendo um roteiro que só ela tinha acesso.

*"A próxima é sobre plano cancelado. Ela vai chorar no final. Não é por causa do plano."*

Chora. Não é por causa do plano — ela solta, no meio do choro, que o marido morreu semana passada e ela esqueceu de avisar o banco, e eu fico ali com o headset apertando a cabeça, pensando que aquela voz sabe coisa que nem o sistema da empresa sabe, o que definitivamente não está no meu contrato de trabalho nem no meu limite de sanidade contratual.

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Sexta ligação da semana, ela diz meu nome completo — sobrenome de família inteiro, dito com intimidade de quem teve acesso a documento que empresa nenhuma de call center tem motivo de compartilhar.

*"Camila Andrade Ferraz. Trinta e um anos, terceiro andar, dorme com a luz do corredor acesa porque tem medo do escuro desde os nove. Bonito, isso. Consistente."*

Desligo no meio da frase do cliente. Reporto ao supervisor, que escuta com a paciência cansada de quem já ouviu de tudo e nenhuma categoria pronta cabe em "terceira voz na linha sabendo detalhe de infância que eu nunca contei pra ninguém do trabalho".

— Vou verificar com a TI — ele fala, no tom de quem já decidiu não verificar nada.

TI não acha nada, claro. Sistema normal, linha limpa, nenhuma interferência nos logs — resposta que devia me tranquilizar e só confirma que o problema não é elétrico, é outra categoria de errado inteira.

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Testo em casa, celular pessoal, ligando pra minha mãe só pra confirmar se a voz segue trabalho ou segue pessoa.

*"Vai dizer que não pode ir. Vai mentir sobre estar doente. A mãe vai insistir duas vezes e desistir na terceira."*

Acontece assim. Palavra por palavra.

*"Ela não vai desligar dessa vez."*

Desligo assim mesmo, só pra provar um ponto que aparentemente não convenceu ninguém, nem a mim.

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Numa ligação limpa, prima confirmando aniversário, relaxo o suficiente pra rir de piada boba.

É exatamente nesse momento de guarda baixa que ela aparece, clara, sem sussurro:

*"Gosto quando você ri. Faz um som específico no final, meio engasgado. Ninguém mais repara nisso. Eu reparo."*

Desligo com tanta força que quase derrubo a mesa, pensando que "eu reparo" é definitivamente a frase mais assustadora que alguém já disse sobre o meu senso de humor.

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Foi na semana seguinte que ela mudou de assunto.

Ligação comum, cliente pedindo cancelamento de plano, e no meio da fala dele:

*"Ele vai atravessar a rua sem olhar amanhã. Sexta-feira. Vai ser rápido."*

Não dei muita importância — ou dei importância demais e escolhi não processar, o que no fim das contas dá no mesmo resultado prático. Mas o cliente ligou de novo na segunda seguinte, voz de irmã dele, cancelando o plano em definitivo porque ele tinha sido atropelado numa sexta-feira, exatamente como a voz tinha dito, com uma precisão que roteiro nenhum de call center prepara ninguém pra processar.

*"Ele também vai morrer."* — sobre outro cliente, dias depois. *"Infarto. Vai reclamar de dor no peito nessa ligação e ninguém vai dar atenção."*

Ele reclamou. Ninguém deu atenção. Fiquei sentada com o headset apertando, pensando que talvez devesse ter dado atenção eu mesma, mesmo sabendo que não fazia parte do meu roteiro nem da minha capacidade de impedir destino nenhum.

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Foi numa terça, ligação qualquer, cliente qualquer, que ela disse meu nome de novo — e dessa vez veio acompanhado de data.

*"Camila. Dia 14. Às 19h32. É a sua vez."*

Desliguei o headset com tanta força que o fio arrancou da tomada. Fiquei ali, no meio da sala vazia, ouvindo só o zumbido da fluorescente, tentando convencer o próprio corpo de que aquilo era só mais um fragmento solto, mais uma frase sem lastro — só que nenhuma das outras previsões tinha errado até então, e essa matemática específica não deixava muito espaço pra otimismo.

Não voltei mais ao trabalho depois daquela noite.

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Não vou fingir dignidade nenhuma no que fiz nas semanas seguintes.

Rasguei o calendário da cozinha. Rasguei o da parede do quarto. Arranquei a folhinha do banheiro que a minha avó tinha me dado de presente, sem nem me lembrar direito por que guardava aquilo até aquele momento específico de pânico puro.

Desliguei o celular do modo automático que mostrava data. Cobri o relógio digital do micro-ondas com fita isolante. Parei de assinar qualquer documento que exigisse data, parei de checar mensagem, parei de contar os dias porque contar significava, inevitavelmente, chegar mais perto do dia 14, e eu preferia viver num limbo indefinido de "não sei que dia é" do que confirmar a contagem regressiva.

Não funcionou, obviamente. Você não escapa de calendário evitando calendário — o mundo inteiro é feito de data, de gente comentando dia da semana, de sol nascendo e se pondo numa cadência que meu terror não tinha poder nenhum de reorganizar.

E a voz continuava. Não pelo telefone mais — eu tinha jogado fora todos os aparelhos que possuía —, mas em algum lugar que eu não sei nomear direito, um sussurro constante que parecia vir de dentro do próprio ouvido, contando os dias que me restavam com uma pontualidade cruel.

*"Faltam nove."*

*"Faltam sete."*

*"Faltam três, Camila."*

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Foi na antevéspera que tomei a decisão mais desesperada e mais estúpida da minha vida inteira — e olha que a lista de candidatas, a essa altura, já era competitiva.

Se a voz precisava do ouvido pra chegar até mim, eu ia fechar a porta.

Não vou detalhar como fiz. Vou dizer só que doeu de um jeito que nenhum filme prepara ninguém pra esperar, que sangrou mais do que eu tinha imaginado, e que quando finalmente parei — ofegante, tremendo, sentada no chão do banheiro com um objeto na mão que eu não vou nomear — o mundo tinha ficado, pela primeira vez em semanas, completamente silencioso.

Não silêncio de sala vazia. Silêncio de verdade, absoluto, o tipo que só existe quando o próprio corpo desiste de transmitir som pro cérebro.

Chorei de alívio. Chorei rindo, aliás, aquele tipo de riso quebrado que só sai depois de terror grande demais pra caber inteiro numa única emoção.

Não ouvia mais nada. Nem a voz, nem contagem, nem previsão nenhuma.

Finalmente.

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Passei os dias seguintes num tipo de paz burra que só faz sentido pra quem tinha acabado de sair de inferno pior. Sem som, sem contagem, sem data que significasse alguma coisa — só eu, o silêncio, e uma sensação estranha e genuína de ter vencido.

Achei, no meu isolamento particular de surdez recém-adquirida, que tinha escapado.

Que a previsão precisava do ouvido pra funcionar, e sem ouvido, sem som, sem voz chegando até mim, o destino simplesmente não tinha porta de entrada.

Decidi voltar pra vida. Comprei roupa nova, marquei consulta com fonoaudiólogo pra entender a extensão real do estrago, decidi que ia sair de casa de novo, atravessar a cidade, provar pra mim mesma que tinha sobrevivido ao próprio pânico.

Não checava mais calendário fazia tanto tempo que perdi completamente a noção de qual dia era.

• • •

Atravessei a rua sem checar o sinal — hábito antigo, automático, do tipo que corpo mantém mesmo quando a cabeça já não confia mais em rotina nenhuma.

Não ouvi a buzina. Óbvio que não ouvi. Não ouço nada há semanas, e por um segundo glorioso e idiota isso pareceu proteção, não vulnerabilidade.

A última coisa que vi, antes do impacto, foi a banca de jornal na esquina — calendário pendurado, folha grande, número bem visível pra qualquer pessoa que ainda soubesse ler data.

14.

19h32, dizia o relógio da loja ao lado.

Foi exatamente aí que entendi, tarde, do jeito que sempre entendo tudo tarde demais, que silêncio nunca foi proteção nenhuma.

Só significava que eu não ia mais ouvir vindo.

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