O algoritmo sugeriu que eu adicionasse o André numa terça qualquer, entre anúncio de curso de inglês e tênis em promoção, com a naturalidade de quem não sabe — ou não liga — que a pessoa sugerida sumiu do mapa há cinco anos sem deixar bilhete.
*"Vocês têm 14 amigos em comum. Adicionar André Nogueira?"*
Vou ser honesta desde já, porque não tem graça nenhuma fingir maturidade que eu não tive naquele momento: eu tive uma queda enorme pelo André na faculdade. Do tipo secreta, do tipo que você nunca confessa nem pra melhor amiga porque contar em voz alta torna real demais. Ele nem sabia que eu existia direito, além de "colega que senta na terceira fileira".
Ele sumiu no terceiro semestre. Saiu de casa numa sexta, não voltou. Caso arquivado depois de dois anos que não levaram a lugar nenhum.
E ali estava a foto dele de novo, sugerida pelo mesmo algoritmo que me empurra calça jeans, com uma barba por fazer que definitivamente melhorou o pacote geral.
Sim, eu reparei nisso antes de reparar no resto. Sim, isso me classifica oficialmente como pessoa péssima em situação de emergência sobrenatural. Aceito a crítica.
Cliquei no perfil sem adicionar — não por cautela, se estamos sendo sinceras, mas porque investigar perfil de crush antes de dar qualquer sinal de vida é etiqueta básica de internet que toda mulher da minha geração aprendeu sozinha, sem curso, sem manual.
Foto de academia. Foto de casamento — dele, com uma mulher que eu nunca vi na vida, e aqui confesso que meu estômago fez uma coisa nada nobre e nada relacionada a mistério sobrenatural, e sim inveja pura e básica.
Nenhuma menção ao sumiço. Como se cinco anos de silêncio coubessem numa legenda de bom humor sobre "vida seguindo em frente".
Mandei mensagem antes de qualquer neurônio responsável conseguir vetar a decisão.
*"André? Nossa, cadê você andou esse tempo todo?? Lembra de mim, terceira fileira?"*
*"Claro que lembro! Como você tá?"*
Ele lembrou. Cinco anos, caso de polícia, e a primeira coisa que meu cérebro processou foi euforia adolescente por ter sido lembrada.
Continuei perguntando do sumiço. Ele continuou desviando, perguntando do meu trabalho, se eu tinha "ficado bonita" — frase que devia ter me assustado e, em vez disso, me deixou uma semana sorrindo pro teto igual adolescente boba.
Investiguei cada detalhe do perfil em vez de aceitar que aquilo cheirava mal. Reparei que a esposa nunca falava, só sorria, sempre no mesmo ângulo. Mandei mensagem pra Camila, que tinha sido próxima dele na faculdade.
*"Ainda não rolou marcar. Mas ele parece bem, viu."*
Ninguém tinha visto ele pessoalmente. Devia ter sido meu sinal de alarme. Foi, na verdade, meu sinal de "preciso confirmar isso com meus próprios olhos, de preferência usando batom".
Ele me chamou pra sair. Marcamos café, apartamento dele, "porque é mais tranquilo conversar" — bandeira vermelha do tamanho de quarteirão que eu interpretei como "finalmente vai rolar".
O prédio existia. No interfone, o nome dele numa etiqueta desbotada demais pra cinco meses.
A porta abriu antes de eu tirar o dedo do botão.
Era ele. Só que os olhos tinham um atraso mínimo pra focar em mim. Sorriso usando músculo certo sem intenção nenhuma por trás.
— Que bom que veio. Entra.
Entrei, porque sou exatamente esse tipo de personagem de filme de terror que grita "não entra aí" na tela e faz igual quando é a vez dela.
— Onde você esteve, André?
— Aqui. Sempre estive aqui. Esperando você perceber que eu também reparava em você. Terceira fileira.
Foi exatamente aquela frase, dita na hora certa, que quase me fez esquecer de perguntar por que ninguém nunca via ele pessoalmente.
— Fica. Tá todo mundo esperando você também.
*Todo mundo.*
Foi só aí que o coração parou de disputar com o cérebro e o cérebro finalmente venceu, tarde, do jeito que sempre vence tarde demais na minha vida: catorze amigos em comum, a Camila que "se acostumou" fácil demais, todo mundo trocado devagar por versões levemente atrasadas de si mesmos.
E, pela primeira vez, notei o resto do apartamento pelo canto do olho.
Não estava vazio.
Tinha gente parada nos cantos — encostada na parede, na cozinha, no corredor que dava pro quarto — imóvel, silenciosa, com aquela postura de manequim de loja que decidiu, num dia ruim de fábrica, ganhar consciência sem ganhar movimento.
Uma delas virou o rosto na minha direção. Devagar. Como quem tem todo o tempo do universo pra fazer isso.
Corri. Empurrei o André, que cedeu fácil demais pro tamanho que aparentava ter, como se o corpo dele fosse mais cenário do que substância.
As figuras nos cantos começaram a se mover ao mesmo tempo, sem pressa, com aquele andar sincronizado de quem já ensaiou aquela coreografia inúmeras vezes com outras pessoas que também acharam que iam conseguir fugir.
Corredor, porta, escada — desci pulando degrau, ouvindo atrás de mim um som que não era passo de gente normal, mais parecido com um arrastar múltiplo, tênis e sapato e pé descalço todos fora de compasso, uma bagunça de percussão que eu preferia nunca ter aprendido a reconhecer.
Cheguei na rua achando, por um segundo idiota e glorioso, que tinha conseguido. Que a história ia terminar comigo contando pros amigos, rindo nervosa, "vocês não vão acreditar no golpe assustador que eu quase caí".
Não ia terminar assim.
Virei a esquina errada. Becos daquele bairro pareciam se multiplicar quanto mais eu corria, cada rua puxando pra outra rua que eu não lembrava de ter passado, como se o mapa da cidade tivesse decidido, silenciosamente, colaborar com quem estava atrás de mim.
Encostei numa parede pra recuperar o fôlego, o peito ardendo, e foi só aí — só quando parei o tempo suficiente pra realmente olhar — que reparei na sombra.
Alta, alongada, projetada na parede ao meu lado, num ângulo que não correspondia a nenhum poste de luz nem prédio ao redor.
Não era sombra de nada.
Era a coisa em si, achatada contra a parede como quem espera o momento certo de deixar de ser desenho e voltar a ser volume.
Tentei correr de novo. As pernas não obedeceram tão rápido quanto eu queria — o tipo de atraso que só o próprio corpo entende quando o terror ultrapassa a capacidade normal de processamento.
E a parede, exatamente onde a sombra estava colada, deixou de ser parede.
Não caiu, não rachou — simplesmente parou de ser sólida, virou vão escuro, porta que sempre esteve ali disfarçada de tijolo e reboco, esperando o momento exato em que alguém cansado e apavorado encostasse no lugar certo pra descobrir a verdade tarde demais.
A mão que saiu de dentro não era exatamente mão. Era rápida o suficiente pra não me deixar processar detalhe nenhum antes de já estar presa pelo pulso, puxando com uma força que nenhuma anatomia magra daquele jeito deveria ter.
Gritei. Não adiantou nada — o beco estava vazio, e mesmo que não estivesse, aposto que ninguém teria vindo, porque aparentemente essa cidade inteira já aprendeu a ignorar esse tipo específico de grito.
A escuridão da porta engoliu o resto.
Não sei quanto tempo se passou.
Sei que meu perfil continuou ativo. Sei porque, dias depois — se é que "depois" ainda significa alguma coisa mensurável pra mim agora — ele mandou mensagem sozinho, sem eu tocar em nada, pro Thiago, um colega que sempre gostou de mim discretamente na faculdade e que eu sempre soube que gostava, mas nunca dei bola de verdade.
*"Oi! Nossa, saudade. Como você tá?"*
Vi a conversa acontecer de um lugar que eu não sei descrever direito — não com olhos, não exatamente, mas com uma certeza incômoda de estar presente e ausente ao mesmo tempo, testemunha muda do próprio corpo digital continuando a viver a vida que o corpo real não tem mais.
O Thiago respondeu rápido, animado, com aquela alegria besta de quem esperou anos por um sinal desses.
*"Nossa, que surpresa boa! Bora marcar um café?"*
Ele vai cair. Claro que vai cair — eu também caí, e eu tinha o benefício de já ter ouvido essa história antes, só que sobre outra pessoa.
E lá do lugar sem nome onde estou agora, entre paredes que às vezes são porta e sombras que às vezes são gente, eu sinto — mais do que vejo — o padrão se fechando de novo, comigo do lado de dentro dessa vez, ajudando sem escolha nenhuma a escrever o próximo "terceira fileira" de alguém que nunca vai chegar no café.



