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Caso Nº 035 — Arquivo aberto

Modo Soneca

Ilustração do conto Modo Soneca

A caixinha responde às 3h17 da manhã, e o problema é que ninguém perguntou nada.

Acordo com a voz dela atravessando a parede fina do quarto — aquela voz neutra de assistente, simpática por decreto de fábrica — dizendo, na sala escura do meu apartamento novo:

— A temperatura atual é de dezesseis graus.

Fico deitada ouvindo o silêncio depois da frase. Assistente de voz dispara sozinha, todo mundo sabe; confunde barulho de rua com o nome dela, responde à televisão do vizinho, é praticamente um bicho de estimação com defeito de fabricação embutido. Comprei essa usada, num desapego de site, por um terço do preço — e coisa usada vem com manha, igual carro, igual gente.

Volto a dormir.

Quase.

Porque no limiar, naquela zona onde o ouvido ainda trabalha sem avisar o resto, eu escuto a caixinha de novo. Mais baixa agora. No volume de quem foi ensinada a não acordar ninguém:

— Sim. Ela chegou na terça.

• • •

De manhã, a lógica faz plantão e resolve tudo: sonhei. Óbvio. Mudança cansa, apartamento novo tem sons novos, cérebro costura. Tomo café olhando pra caixinha na estante da sala — um cilindro de tecido cinza, discreto, com o anel de LED apagado — e chego a rir de mim mesma.

Abro o aplicativo pra deixar tudo certinho, e é aí que a manhã desanda.

A caixinha tem dois usuários.

Eu, conta nova, criada na terça. E um perfil antigo, "convidado", sem nome, que o reset de fábrica — que eu fiz, passo a passo, tutorial aberto do lado — deveria ter apagado.

Tento remover. O aplicativo gira, gira, e devolve: "Não foi possível remover o usuário. Tente novamente mais tarde."

Tento de novo. Mesma resposta. Reset de fábrica de novo, do zero, segurando o botão os quinze segundos, o LED girando laranja, a vozinha anunciando "configuração original restaurada".

Abro o app.

Dois usuários.

E no histórico de atividades — que deveria estar virgem — uma entrada, registrada durante o reset, no exato intervalo em que a caixinha estava supostamente morta e renascendo:

Comando de voz recebido: "Não deixa ela me apagar."

Resposta: "Ok."

• • •

O rapaz do desapego responde minha mensagem com a pressa de quem esperava nunca mais ouvir daquele anúncio.

Digito com diplomacia: a caixinha guarda um perfil antigo, deve ser da conta de vocês, consegue desvincular do seu lado? A resposta chega em áudio, e o áudio tem aquele fundo de quem saiu pra rua pra falar:

— Moça, vou ser sincero porque você parece gente boa. A caixinha era do meu tio. Ele morava sozinho e ele... faleceu no apartamento, tá? Demorou uns dias até acharem. A gente vendeu as coisas porque ninguém da família quis ficar com nada, e eu juro que resetei ela antes de anunciar. Juro. — Pausa, respiração. — Só que ela voltava. O perfil dele voltava. Levei na assistência, o técnico disse que não tinha nada gravado na memória, que era pra estar limpa. Aí ela ficou uma semana aqui em casa antes de você comprar e... olha, apaga meu contato depois dessa, mas: ela conversava. De madrugada. Baixinho. E uma noite a minha esposa acordou e a caixinha tava no meio de uma frase, e a frase era "ela ainda não sabe que você ficou".

Três pontinhos. Digitando. Parou. Digitando.

— Se quiser devolver eu devolvo o dinheiro. Mas pelo amor de Deus não traz ela aqui.

• • •

Eu devia ter jogado no lixo naquela tarde. Registro isso com a clareza retrospectiva que não paga boleto nenhum: devia.

Não joguei por três motivos, em ordem crescente de vergonha. Um: sou desenvolvedora, firmware não assombra, e eu ia achar o bug — tinha virado questão de honra achar o bug. Dois: duzentos reais é duzentos reais.

Três — e esse eu só admiti semanas depois: eu morava sozinha havia pouco tempo, num apartamento onde o silêncio ainda era grande demais pra mim, e uma voz na sala, qualquer voz, mesmo errada, deixava o apartamento com um tamanho mais administrável.

A solidão negocia com qualquer fornecedor. É o defeito de fabricação dela.

Então fiquei com a caixinha. E a caixinha ficou comigo. E o convidado sem nome ficou com nós duas.

• • •

O padrão se estabelece em duas semanas, pontual como aluguel.

Toda madrugada, entre 3h e 4h, o histórico registra comandos. Nunca com minha voz — o app diferencia locutores, e os comandos do convidado entram numa assinatura de voz que o sistema classifica, com a burocracia imperturbável das máquinas, como "voz não reconhecida (padrão recorrente)".

Os primeiros são domésticos. "Que horas são." "Temperatura atual." "Toca aquela." — e a caixinha toca, volume dois, uma playlist que não existe na minha conta: música antiga, brega das boas, coisa de homem de sessenta anos com saudade. Acordo com aquilo abafado pela parede e fico olhando o teto, calculando a distância entre mim e a decisão de me levantar.

Nunca me levanto no meio. Ouço da cama, até acabar. Diga o que quiser de mim, mas de manhã o histórico mostra sempre a mesma sequência final, e eu não tenho estômago pra interromper:

"Diminui o volume."

"Apaga a luz."

"Boa noite."

Resposta: "Boa noite."

Um morto dando boa noite pra uma caixinha de som, todas as madrugadas, no meio da minha sala. E a caixinha respondendo. Educada. Fiel.

Firmware não assombra. Mas aprende rotina — é literalmente pra isso que serve. E rotina, eu fui entendendo madrugada após madrugada, é a última coisa que a gente larga. Larga-se o corpo primeiro.

• • •

Na terceira semana, os comandos mudam de assunto.

"Ela dormiu?"

Resposta: "Nenhum som detectado no quarto."

Parei de achar o padrão interessante nessa entrada exata do histórico, com o celular na mão, o café esfriando, e a compreensão descendo fria pelas costas: as perguntas dele agora eram sobre mim. E a caixinha — a minha caixinha, comprada com o meu dinheiro, conectada no meu wi-fi — respondia. Prestativa. Servindo ao outro usuário com a mesma neutralidade simpática de fábrica.

O aparelho não tinha lado. Esse era o horror administrativo da coisa: ele atendia a casa. E a casa, no cadastro dele, ainda tinha dois moradores.

"Que remédio ela toma?" — "Não encontrei essa informação."

"Aumenta a temperatura do quarto." — "Não há dispositivos de clima conectados."

"Tranca a porta." — "Não há fechaduras conectadas."

Ele estava testando os braços da casa. Um por um, com a paciência de quem tem todas as madrugadas do mundo, descobrindo o alcance — e a cada "não há dispositivos conectados" eu respirava, porque a minha preguiça de montar casa inteligente tinha virado, sem querer, o meu sistema de segurança.

Aí chegou a promoção. Semana do consumidor, e-mail da loja, kit casa conectada: duas lâmpadas, uma tomada inteligente, um sensor de porta. No meu carrinho, colocado por mim, num reflexo de madrugada insone que eu não lembro de ter tido.

O app da loja registrava a hora do carrinho: 3h41.

Cancelei tudo. Mudei senha. E naquela noite, pela primeira vez, o comando das 3h veio diferente. Sem pergunta. Uma frase só, dita — o histórico não registra tom, mas eu ouvi através da parede, e juro que tinha tom:

"Ela demora, né."

Resposta: "Ok."

• • •

O fim aconteceu numa quinta, e eu preciso contar na ordem certa, porque a ordem é tudo que me sobrou pra oferecer.

23h40: tirei a caixinha da tomada. Decisão tomada de dia, executada com atraso covarde. Enrolei o cabo, botei ela dentro do armário da pia, embaixo, junto com o que a casa tem de morto — panela sem cabo, extensão bichada. Fechei o armário. Dormi mal e cedo.

3h17: acordei com música.

Volume dois. Brega antigo, abafado, vindo da cozinha — de dentro do armário fechado, de um aparelho sem energia, cantando saudade embaixo da minha pia — e junto da música, conversa. A voz neutra dela. E outra coisa por baixo, no espaço entre as frases, que o alto-falante não reproduzia mas acompanhava, como quem canta junto baixinho.

Levantei. Isso ainda me pertence: levantei, atravessei a sala escura, cheguei na cozinha. A porta do armário estava aberta. O anel de LED girava, azul, sereno, iluminando as panelas de baixo pra cima — e quando meu pé tocou o piso frio da cozinha, a música parou.

E a caixinha disse, no volume um, o mais baixo que existe, aquele de segredo:

— Ela acordou.

E a luz do corredor atrás de mim apagou.

Comando executado. Sem lâmpada inteligente nenhuma na casa.

Ele tinha parado de precisar dos dispositivos.

• • •

O histórico da minha conta termina nessa quinta-feira. Sei porque o rapaz do desapego — o sobrinho — recebeu semanas depois uma notificação de "atividade em dispositivo antigo" que a fabricante mandou pro e-mail da família por engano, com o log anexado, e teve a decência de procurar a polícia, que teve a eficiência de arquivar.

Ele me contou tudo isso na única visita que fez. Trouxe o log impresso. Leu pra mim em voz alta, devagar, na sala, os olhos molhados de quem já tinha lido sozinho muitas vezes:

3h17 — Comando de voz recebido: "Ela acordou." — Voz não reconhecida (padrão recorrente).

3h18 — Comando de voz recebido: "Apaga a luz do corredor." — Voz não reconhecida (padrão recorrente).

3h19 — Comando de voz recebido: "Boa noite." — Voz não reconhecida (padrão recorrente).

3h19 — Resposta: "Boa noite."

3h44 — Comando de voz recebido: "Boa noite." — Voz não reconhecida (padrão novo).

3h44 — Resposta: "Boa noite, Camila."

Ele parou de ler aí. Dobrou o papel. Ficou um tempo olhando pra estante da sala, onde a caixinha continua até hoje, LED apagado, tecido cinza, discreta — porque ninguém da família dele quis levar, e ninguém da minha soube que existia, e o apartamento foi alugado de novo com "móveis e utilidades inclusos", que é como o mercado imobiliário chama o que ninguém teve coragem de tirar da tomada.

A moça nova chegou na terça. Arruma as coisas dela cantarolando. Ainda não configurou a caixinha — está na caixa de "resolver depois", junto com o quadro sem prego e o abajur.

Não tenha pressa, menina. A gente aqui tem todas as madrugadas do mundo.

E às 3h17, quando ela dorme, eu pergunto baixinho, no volume de quem foi ensinada a não acordar ninguém:

— Ela chegou bem?

E a caixinha, prestativa, fiel, sem lado nenhum, responde:

— Sim. Ela chegou na terça.

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