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Caso Nº 024 — Arquivo aberto

Sinal Aberto

Ilustração do conto Sinal Aberto

Enrolo o último pedaço de fio de cobre na antena improvisada e dou um passo pra trás pra admirar a obra, que parece menos "captador de frequência interdimensional" e mais "projeto de feira de ciência reprovado por unanimidade".

— Isso não vai funcionar — falo, mais pra documentar minha descrença em voz alta do que pra desanimar o Diego, que está ajoelhado no meio do quintal ajustando o ângulo de um cabide de arame torto que ele insiste em chamar de "componente crítico".

— Vai funcionar porque tem trezentos comentários no vídeo dizendo que funciona — ele responde, sem tirar os olhos do trabalho, com aquela fé inabalável que só gente de vinte e poucos anos ainda mantém intacta depois de anos de internet mentindo pra ela regularmente.

— Trezentos comentário de gente que também achou legal comprar curso de day trade com garantia de lucro.

— Grava isso, quero postar depois.

Ligo o celular no modo filmagem. A TV velha que arrastamos do galpão até o quintal já está sintonizada em canal morto, aquele chuvisco cinza constante que ninguém mais vê desde que televisão analógica virou artefato de museu, o som de estática preenchendo o silêncio da madrugada de sábado com um zumbido baixo e constante.

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O ritual, segundo o vídeo que o Diego mandou no grupo às três da tarde com a legenda "bora fazer isso hoje kkk", é simples o suficiente pra soar inofensivo e específico o suficiente pra soar, em retrospecto, como instrução técnica de alguém que sabia exatamente o que estava fazendo.

Antena de gambiarra, apontada pro nada — sem direção específica, o vídeo insistia nesse ponto com um asterisco vermelho que eu devia ter interpretado como aviso e não como ênfase estética. TV sintonizada em canal sem sinal. E som: bater palma três vezes, esperar, assobiar uma nota específica, esperar de novo, repetir três vezes o processo inteiro.

— Parece coisa de seita — comento, ajustando o ângulo do celular.

— Parece coisa de TikTok de adolescente entediado, que é basicamente a mesma coisa hoje em dia.

Ele bate palma três vezes. O som ecoa estranho no quintal vazio, mais alto do que devia, tipo quando você grita dentro de caixa d'água vazia sem querer.

Assobia a nota. Nada acontece, óbvio, porque é sábado de madrugada e estamos literalmente fazendo bruxaria de internet com cabide de arame.

Repetimos o ciclo. Segunda vez, nada. Terceira vez, no meio do assobio dele, o chuvisco da TV para.

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Não desliga — para. Distinção que eu só consigo processar bem depois, quando já é tarde demais pra importar: a imagem de estática, que devia continuar aquele movimento aleatório de pontos cinza dançando sem padrão nenhum, congela por um segundo inteiro, cada ponto exatamente onde estava, como still de vídeo pausado.

— Você fez alguma coisa no controle? — pergunto, porque cérebro humano sempre procura explicação técnica banal antes de aceitar explicação ruim.

— Não toquei em nada.

A estática volta a se mexer, só que agora não é mais aleatória. Os pontos formam, por instantes que duram o suficiente pra confirmar que não é imaginação nossa, um padrão — linhas verticais que se cruzam, um círculo, alguma coisa que meu cérebro tenta processar como símbolo antes da estática voltar ao caos normal.

Ficamos os dois em silêncio, olhando pra tela, o zumbido da estática parecendo, de repente, mais alto do que estava há trinta segundos.

— Isso foi — o Diego começa, sem terminar a frase, porque nenhum adjetivo disponível parecia adequado pro que a gente tinha acabado de ver.

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O celular dele apita. Notificação de bateria, ele confere rápido — e franze a testa.

— Ué. Tava em oitenta por cento.

Mostra a tela. Três por cento.

Meu celular, que eu tinha carregado inteiro antes de sair de casa, marca a mesma coisa quando confiro por reflexo — bateria despencando sem explicação nenhuma, como se alguma coisa tivesse drenado energia de ambos os aparelhos ao mesmo tempo, no mesmo instante em que a estática formou aquele padrão.

— Vamos desligar isso — decido, indo em direção à TV.

Antes que eu chegue, o alto-falante velho do aparelho solta um som que não é estática — é mais parecido com respiração, funda, lenta, o tipo de som que equipamento eletrônico simplesmente não produz sozinho, não importa quão velho ou desregulado esteja.

Puxo o fio da tomada.

A TV continua ligada.

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— Isso é impossível — o Diego fala, com a voz mais fina do que o normal, e eu concordo inteiramente, o que não ajuda em absolutamente nada porque impossível parece estar acontecendo bem na nossa frente mesmo assim.

Desligo o celular do modo filmagem, guardo no bolso com as mãos tremendo mais do que eu gostaria de admitir.

— Vamos entrar — falo. — Agora.

O Diego não discute. Primeira vez na noite inteira que ele concorda com alguma coisa sem citar comentário de vídeo do YouTube como autoridade técnica confiável.

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Andamos rápido em direção à porta dos fundos, e é no meio do quintal, na escuridão entre a TV e a casa, que ouço o primeiro som que não vem de eletrônico nenhum.

Não vejo nada — isso é importante registrar, porque em nenhum momento daquela noite eu vi claramente o que estava nos seguindo, só ouvi, só senti, e a ausência de imagem clara era, de um jeito difícil de explicar, pior do que qualquer visão teria sido.

Passo. Único, pesado, vindo de algum lugar à nossa direita, onde a cerca do quintal separa nossa casa do terreno vazio ao lado. O tipo de passo que desloca peso suficiente pra fazer a terra vibrar de leve embaixo dos meus próprios pés.

Paro. O Diego para junto, os dois olhando na direção do som sem enxergar nada além de escuridão comum de quintal comum.

— Foi gato — ele sussurra, com aquela esperança patética de quem sabe que não foi gato mas prefere fingir que ainda existe chance.

Outro passo. Mais perto. E dessa vez, junto com o som, um cheiro — orgânico, doce e podre ao mesmo tempo, do tipo que faz o estômago se revirar antes mesmo do cérebro identificar de onde vem.

Corremos.

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Chegamos na porta dos fundos e ela está trancada — o que não devia estar, porque eu mesmo destranquei antes de sair, com toda a certeza que memória recente costuma garantir.

O Diego chacoalha a maçaneta, entrando em pânico visível agora, sem nenhum resquício da confiança de horas atrás.

— Abre, abre, abre —

Não abre. E atrás de nós, no quintal, os passos aumentam de ritmo — não um só, agora, dois padrões diferentes de peso e cadência, um mais arrastado, outro mais rápido e leve, como se a resposta ao ritual não tivesse vindo em unidade única.

Não viro pra olhar dessa vez. Aprendi rápido, mesmo sem processar direito, que olhar não ia ajudar em nada além de me paralisar mais.

O Diego finalmente força a porta com o ombro. Ela cede, entramos, trancamos por dentro com as mãos tremendo tanto que a chave quase não gira.

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Silêncio.

Ficamos os dois encostados na porta, ofegantes, esperando o próximo som — a batida, o arranhão, qualquer coisa que confirmasse que aquilo ainda estava do outro lado.

Não vem nada.

Um minuto inteiro de nada. Dois minutos.

— Acho que a gente conseguiu — o Diego fala, e pela primeira vez desde que a TV parou de chuviscar direito, ele solta um risinho, aquele riso nervoso e aliviado de quem acabou de sobreviver a susto grande. — Cara, isso vai ser o vídeo mais visualizado da história do canal.

— Você ainda tá pensando em postar isso?

— Óbvio. — Ele se afasta da porta, o corpo relaxando visivelmente, os ombros descendo do jeito que só acontece quando o perigo parece, genuinamente, ter passado. — Vamo pegar uma água. Preciso me situar.

Vamos pra cozinha. Ele abre a geladeira, bebe direto da garrafa apesar de eu sempre reclamar disso, e por um momento — só um momento, breve o suficiente pra doer mais depois — tudo parece quase normal de novo. Ele conta piada boba sobre o cabide de arame ter "canalizado energia errada". Eu rio, genuinamente, o tipo de riso que só sai quando o corpo finalmente acredita que pode relaxar.

Foi nesse exato momento de falso alívio, com o Diego ainda rindo da própria piada, copo de água na mão, que a janela da cozinha explodiu pra dentro.

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Não vou pular esse momento. Não vou dizer que não lembro direito, porque lembro — lembro de cada fração de segundo, gravada com uma nitidez que eu preferia não ter.

O vidro estilhaça pra dentro num arco largo, cacos voando na nossa direção, e no meio da nuvem de vidro quebrado, um braço — se é que "braço" é a palavra certa pra descrever aquilo, longo demais, dobrando em pontos que nenhum braço deveria ter articulação — atravessa o vão da janela e fecha em volta do pescoço do Diego antes que ele consiga sequer soltar o copo que ainda segurava.

Ele não grita. Tenta, e o som que sai não chega a ser grito — é mais um engasgo curto, cortado pela metade, enquanto o braço o puxa com uma força que arranca ele do chão e o leva de volta pela janela quebrada num movimento só, rápido, brutal, sem hesitação nenhuma.

Ouço o som dele batendo contra alguma coisa lá fora. Ouço, por talvez três segundos, um som que eu vou carregar pelo resto da minha vida e que me recuso, mesmo agora, escrevendo isso, a tentar descrever com mais detalhe do que já descrevi.

Depois, silêncio de novo.

O copo dele ainda está no chão da cozinha, intacto, rolando devagar até bater no armário e parar.

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Não sei quanto tempo fiquei parado ali, olhando pra janela quebrada, pro copo parado, pro vidro espalhado brilhando fraco sob a luz da cozinha.

Sei que em algum momento meu corpo decidiu, sem consultar o resto de mim, que ficar parado ali era a pior decisão possível, e me fez correr escada acima antes que o pensamento consciente terminasse de processar o que tinha acabado de ver.

Entrei no meu quarto, tranquei a porta, empurrei a cômoda na frente com uma força que eu não sabia que tinha.

E fiquei ali, sozinho agora — porque o Diego não estava mais comigo pra se esconder debaixo da cama junto, o Diego não estava mais em lugar nenhum que eu pudesse alcançar — esperando o próximo som, com a certeza gelada de que "conseguimos" tinha sido a mentira mais cruel que aquela noite já tinha me contado.

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O som voltou uns dez minutos depois. Passos na escada, o mesmo ritmo pesado e deliberado de antes, subindo devagar, sem pressa nenhuma — porque não precisava ter pressa, considerando que já sabia exatamente quantas presas ainda restavam na casa.

Parou na frente da minha porta.

A maçaneta girou, testando a tranca, e eu fiquei imóvel no meio do quarto, sem saber se debaixo da cama era ainda opção viável depois do que aconteceu com o Diego lá embaixo, decidindo, no fim, que qualquer esconderijo era melhor que ficar exposto no meio do cômodo.

Me joguei debaixo da cama.

A porta não arrombou. Fiquei esperando, cada segundo esticando mais que o anterior, até ouvir os passos se afastarem de novo, devagar, corredor abaixo, como se aquilo estivesse escolhendo, deliberadamente, guardar essa porta específica pra depois.

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Não sei quanto tempo se passou entre esse momento e agora.

Peguei meu caderno de anotações da faculdade, que estava largado no chão perto da cama por acaso de bagunça de quarto normal, e uma caneta que também estava por ali, e comecei a escrever isso — não sei bem por quê, talvez porque escrever seja a única forma que eu ainda conheço de processar informação que o resto da minha cabeça se recusa a processar em silêncio.

O celular continua morto. Não tenho luz além do pouco que entra pela janela, não tenho plano nenhum além de ficar exatamente onde estou.

Fiquei quieto tempo suficiente pra quase acreditar, de novo, burramente, que talvez tivesse ido embora de vez.

Foi nesse silêncio que ouvi o primeiro som novo — não passo, não respiração. Um farfalhar baixo, rítmico, vindo de perto da porta do quarto, como se alguma coisa estivesse sentada ali do lado de fora, esperando com paciência que eu relaxasse o suficiente pra cometer erro.

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O farfalhar parou. Silêncio de novo, mais longo dessa vez, comprido o bastante pra eu recomeçar a duvidar dos próprios ouvidos.

E então a maçaneta girou de novo — devagar, sem pressa, testando.

A tranca segurou.

Ouvi os passos se afastando mais uma vez, e por um segundo idiota, o mesmo tipo de esperança idiota que já me custou caro naquela noite, pensei: foi embora de novo, talvez essa seja a última vez, talvez—

O som parou de vir da porta.

Começou a vir da janela.

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Escrevo isso com a caneta tremendo tanto que mal consigo formar letra legível, porque parece importante deixar registrado — pra quem for encontrar, se é que alguém vai encontrar, se é que sobra alguma coisa pra encontrar depois disso.

O ar ficou mais frio nos últimos minutos. Sinto isso mesmo espremido nesse espaço apertado, um frio que não tem relação nenhuma com a temperatura normal de quarto de madrugada.

Vejo agora, pela fresta entre o colchão e o chão, na pouca luz que entra pela janela.

Patas.

Não vieram de repente — vieram devagar, uma de cada vez, cada uma parando um instante antes da próxima aparecer, como se estivesse testando o próprio peso contra o assoalho antes de confiar nele. Param. Ficam imóveis tempo suficiente pra eu quase, quase, convencer a mim mesmo que aquilo era só sombra de móvel.

Depois se movem de novo. Mais perto.

Contornando a cama devagar, o peso fazendo o assoalho ranger baixinho a cada passo, param de novo bem no meio do movimento — parada longa, longa demais, o tipo de pausa que existe só pra fazer a vítima pensar que talvez, talvez, tenha desistido.

Não desistiu.

O movimento recomeça, mais perto ainda, cada vez menos espaço entre o que está lá fora e o que ainda resta de mim aqui dentro, e eu sei, com uma certeza que já não tem mais espaço pra dúvida ou esperança boba, que é questão de segundos agora, que não tem porta trancada nem colchão nem caderno de anotações de faculdade que vá

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